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Mitos sobre a morte em diferentes culturas religiosas

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 30 de jul.
  • 3 min de leitura

Coluna da psicóloga Franciele Sassi


Embora a morte seja um evento universal, seus efeitos são percebidos de maneiras muito distintas nas diferentes culturas e religiões. Cada tradição oferece explicações sobre o que acontece após o fim da vida física, elabora rituais de passagem e propaga crenças sobre salvação, reencarnação, julgamento ou continuidade da alma. Junto a isso, há também muitos mitos, tabus e distorções que cercam esses dogmas.

No Cristianismo, por exemplo, a morte é vista como uma transição para a vida eterna. A doutrina fala de um juízo final, onde os mortos são julgados por Deus. Céu e inferno representam os destinos possíveis da alma, dependendo da conduta em vida e da fé em Jesus Cristo. Um mito comum é pensar que todos os bons vão automaticamente para o céu. Porém, para os cristãos, a salvação não está unicamente ligada às ações, mas também à fé. Os rituais incluem o velório com orações, missas de sétimo dia e de um ano, e homenagens que pedem descanso e paz para a alma.

No Espiritismo, a morte se trata de uma mudança de estado. O espírito sobrevive e retorna ao plano espiritual. Não há céu ou inferno fixos, mas estados vibracionais compatíveis com o nível moral e emocional do espírito. A reencarnação é vista como uma oportunidade contínua de evolução. Um equívoco frequente é pensar que o espiritismo faz comunicação com os mortos a qualquer momento, quando, na verdade, o contato acontece na medida em que houver permissão e necessidade, em contextos específicos. Os rituais incluem preces pelos desencarnados, vibrações de luz e reuniões de apoio espiritual.

No Islamismo, a morte é um momento sagrado. Acredita-se que o corpo deve ser enterrado o quanto antes e que a alma será julgada por Alá. O paraíso e o inferno são descrições vivas de recompensa ou punição, com base na obediência às leis divinas. Um mito é a ideia de que o islamismo é rígido e punitivo na morte. Contudo, a misericórdia de Alá é um princípio central da fé. Os rituais envolvem banhos purificadores no corpo, orações coletivas e recitações do Alcorão.

No Hinduísmo, a morte é vista como parte do ciclo natural de renascimentos. A alma reencarna de acordo com o karma acumulado, e o objetivo espiritual é alcançar a libertação desse ciclo. Um mito comum é pensar que o karma é punição — mas ele é, na verdade, uma consequência natural de escolhas. Os rituais incluem a cremação do corpo, oferendas de alimentos e água, e cerimônias que duram até 13 dias para garantir que a alma siga em paz.

No Budismo, não há uma alma permanente, mas uma continuidade de consciência que renasce com base no karma. O objetivo final é alcançar o nirvana, estado de libertação do sofrimento e do ciclo de renascimentos. Um mal-entendido frequente é achar que os budistas não sentem dor diante da morte. O luto é acolhido, mas com aceitação da impermanência. Rituais incluem meditação, cantos de sutras, oferendas e cerimônias de mérito dedicadas ao falecido.

Nas religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, a morte é o retorno do espírito ao mundo espiritual. Os ancestrais são cultuados e continuam atuantes na vida dos vivos. Um mito comum é associar essas religiões apenas a feitiçarias, quando, na verdade, há uma profunda espiritualidade e respeito pelos ciclos da vida e da morte. Os rituais envolvem cânticos, oferendas, vestimentas específicas e cerimônias que celebram a força vital do falecido.

Nas culturas indígenas brasileiras, a morte é vista como parte do ciclo da natureza. Os mortos se tornam parte do cosmos e da terra, muitas vezes retornando como espíritos protetores. Os rituais variam muito entre etnias, mas costumam envolver cantos, danças e celebrações da passagem. Um mito é pensar que os indígenas não têm religiosidade estruturada. Por outro lado, possuem sistemas complexos e sagrados de crenças.

Nas sociedades seculares ou laicas, a morte é, muitas vezes, tratada com silêncio e desconforto. Sem uma religião que ofereça um caminho pós-morte, muitos se voltam para homenagens simbólicas, celebrações da vida ou até o cultivo da memória afetiva. Ainda assim, há um crescimento de práticas como funerais humanizados, grupos de apoio ao luto e rituais personalizados que ajudam a dar sentido à perda.

Independentemente da religião, o ser humano busca compreender o que vem depois da morte. Os rituais, mitos e crenças mostram não apenas medo ou esperança, mas a necessidade de elaborar o fim como parte da própria condição de viver.

Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre, colunista do Pauta Serrana.
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre, colunista do Pauta Serrana.

 

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