Apolo e Dafne
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COLUNA DE GABRIEL ELIAS JOSENDE

Vista do alto, a ninfa ligeira
Dos pés de vento se banha no raso.
Enfeitiçado, eu, do Monte Parnaso
Miro na pobre a flecha certeira.
Do sacro penhasco eu lanço à beira
E confio na mira (e no acaso):
O chumbo voa e quebra como vaso,
Garanto que a ninguém mais ela queira.
Certo deus ousou rir-se do meu dote
Soberbo detrás de cabelos louros:
Foi Apolo, a quem jurei vingança.
A ninfa agora jaz presa no lote,
(Os longos cabelos tornados louros).
O mal também habita nas crianças.
– Gabriel Elias Josende
O poema em questão fará parte de um livro de sonetos que vou publicar futuramente, batizado (a princípio) de "Tomo de Orfeu". É um projeto desafiador no qual venho trabalhando há alguns meses, e o rascunho já conta com uma dezena de sonetos dentro da temática da mitologia grega. Todos os poemas são fortemente inspirados por mitos, e compô-los tem sido uma experiência particularmente interessante.
Este trata do mito de Apolo e Dafne. Vou contar essa história extraindo do meu artigo de conclusão do curso de Letras (não-publicado). Utiliza-se aqui uma adaptação da versão de Mulroy (2015, p. 42-43), com comentário do mito original de Ovídio (2023, p. 56-57).
Apolo, que ainda se gabava por ter vencido a serpente Píton, encontra o deus menino Cupido armando seu arco e zomba dele, ferindo sua honra. Cupido, então, voa até o monte Parnaso e, lá do alto, atira duas flechas: atinge Apolo com uma flecha dourada e pontiaguda; e com a outra, de chumbo e ponta rombuda, acerta Dafne, uma ninfa, filha do rio Peneu. A flecha dourada causa o amor, e a de chumbo, repulsa. Assim, Apolo apaixona-se por Dafne, mas ela não lhe corresponde o amor.
Dafne afugenta qualquer manifestação amorosa de seus pretendentes. Com Apolo, não é diferente. Seu pai desejava netos, mas a ninfa roga pela bênção da virgindade eterna, e Peneu a concede. Apolo, então, passa a perseguir Dafne, fantasiando cenas de amor com a ninfa. Ela corre, e o deus implora que desacelere, dizendo ser filho de Júpiter (Zeus). Ele promete à ninfa um palácio, enquanto se apresenta como deus da poesia, do oráculo, da música e da medicina.
A ninfa foge, e Apolo se aproxima. Cansada, ela suplica ao rio Peneu por libertação, pedindo que ele destrua sua forma física, que a fez ser desejada em excesso (no mito ovidiano original, a mãe de Dafne, Gaia, a deusa Terra para os romanos, também é invocada em oração).
Dafne logo sente-se presa com os pés fincados como raízes, seus braços enrijecem e, então, ela se transforma em um loureiro. Apolo abraça o tronco da árvore e ainda sente a ninfa, mesmo transformada. Tenta beijar a madeira, que desvia de suas afeições e, por isso, declara-se ao loureiro. O deus apaixonado promete que as folhas da árvore estarão sempre junto dos vencedores e dos nobres, e acompanharão a divindade em seus cabelos, em sua cítara e em sua aljava, fazendo, com os louros, uma coroa que se torna símbolo de glória. O loureiro reverência a Apolo, como se agradecesse o gesto.
Filippo Lauri. Apollo and Daphne. Itália, 1623-1694.
Esta história é meu mito favorito de toda a mitologia grega, e da mesma forma que me tocou profundamente, espero que tenha tocado você, leitor, de alguma maneira também.












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