O EPITAFIO DE UM HOMEM VIVO
- temporacomunicacao
- há 20 horas
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Conviver com a depressão é carregar o próprio cadáver nas costas, sentindo o cheiro da própria decomposição, enquanto se tenta pateticamente dar um bom dia e socializar com pessoas que, na maioria das vezes, nem notariam se a gente morresse. Se notassem, seria por pouco tempo. Eu convivo com isso desde que me lembro.
E hoje quero falar um pouco de como me sinto. Sei que muita gente vai se identificar. Outros darão risada, e farão pouco. A maioria será implacavelmente indiferente. Inclusive pessoas com quem me importo e que sequer irão ler esse texto na íntegra. Mas ainda assim, escrevo. Porque esta sempre foi a melhor maneira que encontrei de expor o que sinto. E ainda assim, com tudo isso, mantenho a esperança de dias melhores.
Muitas vezes me pergunto, será que as pessoas com as quais me importo sentem orgulho de mim? Será que meus pais, que não estão mais neste plano, ficariam felizes ou decepcionados com o que me tornei? Será que meus descendentes irão se referir a mim com respeito e reverência? Com decepção? Ou pior ainda, com indiferença?
Eu sou o Diego Franzen. Jornalista. Escritor. Puxa vida, ja escrevi 17 livros e conseguiria sem dificuldade escrever mais 4 ou 5 em pouco tempo. Sou um bom enxadrista. Ja escrevi músicas e poesias. Tenho filhos lindos e inteligentes. Melhores do que eu, como deve ser. Sou faixa preta em quatro artes marciais. Um maçom de grau 33, que alcançou antes dos 45 anos tudo o que um maçom brasileiro pode conquistar. E ainda assim, boa parte do tempo, um bosta.
A depressão não é boa amiga. Há uma sensação persistente de insuficiência, uma voz cavernosa que sussurra a cada aurora que todo esforço é um castelo de areia. Fui talhado na oficina do desprezo, onde o martelo da inadequação moldou cada fibra da minha baixa autoestima até transformá-la em uma couraça de chumbo.
A dor não é um estado de espírito, ela é a minha estrutura óssea, a psicologia do vencido que não possui endereço fixo, mas conhece todos os cômodos da alma e neles se instala com a autoridade de um proprietário.
A existência não é um presente. Ela é um estupro metafísico. Se observada pela lente impiedosa de Arthur Schopenhauer, ela não passa de um erro um esforço inglório da Vontade, que nos condena a oscilar como um pêndulo fustigado pelo vento entre a agonia do desejo e o vazio do tédio.
Para cada aurora que nasce há um verme que desperta na polpa do cérebro, nosso inquilino voraz da autossabotagem, que nunca conheceu a saciedade. Para muitos esse pêndulo parece ter travado no extremo esquerdo do peito onde a angústia faz morada permanente e o oxigênio custa a chegar.
A depressão. Esse monstro de olhos baços e hálito de terra úmida que Augusto dos Anjos descreveria como o verme que rói a carne do pensamento um hóspede indesejado que se alimenta da nossa própria substância vital.
Nos piores dias, meus amigos, sinto que sou o rascunho que Deus jogou fora, a matéria orgânica que a natureza esqueceu de polir. Um amontoado de átomos que colidiram por erro e que agora insistem em mimetizar um homem.
Cresci sentindo o peso dessa inadequação, uma espécie de exílio dentro da própria pele, um erro de sintaxe no livro da vida.
Olho para o espelho e não vejo um rosto. Eu vejo um epitáfio. Olho para o passado e não encontro os troféus da juventude que adornam as memórias alheias.
A beleza, entidade caprichosa injusta e aristocrática, passou por mim como uma estrela cadente que esqueceu de deixar o rastro e da qual fui sumariamente exilado antes mesmo de nascer.
Fui o espectador de um desfile onde nunca fui convidado a desfilar. Nunca houve a glória de um olhar que se demora, jamais houve um bilhetinho dobrado com pressa entre as páginas de um caderno de História, nem o troféu de um papel perfumado escondido na mochila.
Faltou-me a dignidade de ser um nome escrito num questionário de afetos juvenis, aqueles cadernos de perguntas que as meninas circulavam no recreio para selar destinos românticos.
Eu era o ponto invisível no final da frase, a lacuna o vácuo o nada que ocupava um lugar na última fileira.
Nos dias mais nefastos, sinto-me o Midas do esgoto, um alquimista do avesso. Minhas mãos, essas extremidades malditas, possuem a alquimia reversa do fracasso. Onde toco, invés transformar em ouro, a vida murcha, o que tento construir desaba em ferrugem e desastre, sob o peso da minha própria sombra. É um toque que gangrena o entusiasmo alheio, que converte o riso em um escarro de cinzas. Sou o arquiteto de ruínas antecipadas, o profeta que só acerta o dia do próprio desastre.
Mas no meio dessa necropsia que chamo de rotina, no lodo onde os vermes se banham e a matéria se decompõe na sua monstruosa pan-misticidade, surge o absurdo. Algo que brilha com uma teimosia quase divina.
No meio desse deserto de autossabotagem, cruzei com seres que são insultos à lógica do egoísmo humano verdadeiras exceções metafísicas. São pessoas de uma decência tão profunda que chegam a ferir a minha descrença almas de uma retidão que cega que caminham ao meu lado sem pedir nada em troca além da minha existência claudicante. São os milagres biológicos que decidiram não me apedrejar. Provam que a humanidade, que sempre considerei um lodaçal de vaidades, ainda permite a floração de pétalas de luz pura entre os espinhos do cotidiano.
Essas pessoas são o meu contraponto ao niilismo absoluto, são mãos que se estendem para o Midas invertido sem medo de virar ferrugem segurando a lanterna quando a minha luz interior ameaça se apagar de vez.
São poucas, é verdade. Provavelmente o erro estatístico de uma espécie dada ao caos.
Sei que sou o verme, sei que sou o resto. Mas quando a foice finalmente vier ceifar o que restou desta carcaça cansada, quando chegar o instante do aniquilamento final e meu último suspiro for entregue ao vácuo sideral, eu o farei com um sorriso de escárnio contra o meu próprio destino.
Morrerei mais feliz, porque no meio do meu inferno particular, essas almas foram o meu paraíso improvisado. A existência delas é o argumento final irrefutável que me impede de amaldiçoar o dia em que nasci. Elas são a prova de que nem tudo o que toquei virou cinza algumas mãos eu apenas segurei e elas me salvaram.
No fim das contas, por mais que a dor seja a nota dominante e estridente da nossa sinfonia, o AMOR é a regência silenciosa que ainda faz o concerto valer a pena. Amor, sentimento que a ciência não explica e que a dor não consegue devorar. É preciso ter fé. Não a dogmática dos templos de pedra, mas a fé cega de que um gesto humano pode redimir séculos de solidão e de que em algum lugar, além desta lama, a minha feiura, finalmente será perdoada. Entre o nada e a dor, eu escolho o amor que essas poucas e boas almas me dedicaram. É o que resta de sagrado neste vale de sombras o único milagre que a ciência.
Ontem à noite, e meio a um dos meus episódios de tristeza, conversei com uma amiga. E ela me disse a frase. A que me relembrou a força que eu tenho. E onde posso chegar. Ela me disse "nada nos salva da morte, mas o amor nos salva da vida".
Que assim seja.












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