Eu me tornaria o Darth Vader?
- temporacomunicacao
- há 10 horas
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Domingo. Estou mal, uma leve indisposição. Sento-me à mesa com um vinho que agride o paladar em um convite ao masoquismo existencial. Enquanto observo o crepúsculo tingir o céu com um vermelho ignívomo, aquela cor de quem está prestes a queimar o mundo ou a própria biografia, uma pergunta que me fustiga a alma. Ela é uma autópsia do caráter feita com o bisturi do deboche. Será que eu me tornaria o Darth Vader?
O vilão mais temido da ficção científica, antes de ser aquela figura lúgubre e impiedosa, era um Jedi, guardião na paz na Galáxia. Antes disso ainda, um menino fofo que queria apenas que as pessoas se ajudassem.
E, por humanidade, sucumbiu ao mal. Será que isso não acontece conosco todos os dias?
Se abandonarmos a nossa pusilanimidade moral e essa hipocrisia de quem posta frase de efeito no Instagram, a resposta ecoa como um arroto em um banquete de gala.
Sim, nós nos tornaríamos. E com um entusiasmo assustador.
Anakin Skywalker não é um vilão de gibi. Ele é a anatomia da nossa queda, o espelho deformado de cada sujeito que, num momento de desespero ou de pura falta de paciência com a burocracia do destino, trocou a alma por uma promessa de segurança. Ele não caiu por maldade nata, isso é para amadores. Ele caiu por uma incontinência afetiva, por amar com uma fúria atávica que o mundo, em sua rigidez hierática, não soube digerir.
O que o transformou naquele colosso de metal e ódio foi a incapacidade de aceitar a finitude, essa velha senhora que nos espreita em cada esquina e que tentamos, com uma vaidade pífia, subverter. Vivemos mergulhados em uma anomia social onde as instituições, tal qual o Conselho Jedi de Coruscant, tornaram-se entidades gélidas, perdidas em uma logorreia burocrática. É o triunfo do protocolo sobre o pulsar das veias.
O mundo é, por definição, refratário aos nossos desejos de justiça. Somos fustigados por uma ignominia diária que nos convida a vender a honra em troca de um estancamento da dor. O Lado Sombrio não é uma escolha estética de quem gosta de preto, é um sedativo insidioso para quem não suporta mais a própria impotência diante da crueldade alheia. É a tentação de abraçar o monstro para não ser devorado por ele.
A corrupção não é um salto olímpico no abismo, é uma erosão inexorável. Começa com um silêncio no grupo de WhatsApp da família e termina no isolamento estertoroso do cinismo. No Retorno de Jedi, e note bem, o título é um deboche com a burocracia, pois quem volta é o homem, não a casta, Anakin ressurge sob o capacete.
Diante do filho sendo eletrocutado por Palpatine, esse arquétipo do populista moderno que se alimenta do nosso medo e da nossa sede por ordens simples, a máquina parou de processar ódio para voltar a processar amor.
Anakin precisou ver a própria vacuidade na dor do filho para entender que o poder sem compaixão é apenas um deserto de cinzas. Ao arremessar o Imperador para o vácuo, ele deu um chute no traseiro da sua própria arrogância de quem achava que podia consertar o mundo através da força.
Anakin morreu como homem. Mas ele teve o privilégio do martírio.
E nós?
Nós temos que acordar amanhã com o mesmo café frio e encarar essa sanha política que nos cerca, onde cada pequeno tirano de gabinete se acha um imperador galáctico. Viver como um Jedi resgatado em um mundo que premia o canalha é uma tarefa hercúlea e, sejamos francos, bastante inglória.
A Solidão dos Justos gera uma bílis negra. Ver o Vader da mesa ao lado ser promovido, ou o político escroque ser aclamado, enquanto você mantém sua pequena e silenciosa rebeldia moral, é sentir o aperto daquela mão invisível no pescoço. A vitória dos que se corrompem é uma vitória pírica. Eles possuem o Império, mas perderam o rosto.
A redenção de Anakin nos ensina que o poder absoluto é um vácuo. Se ao encararmos o espelho, o que vemos é um rosto humano, marcado pelas rugas da resistência e não pela rigidez da armadura, então a batalha foi vencida.
A solidão é o preço da nossa soberania espiritual.
E, convenhamos, para quem já sentiu o cheiro de queimado da nossa política atual, qualquer isolamento é melhor do que ser uma engrenagem de metal com hálito de desinfetante imperial.
No fim, a gente só quer morrer podendo respirar sem ajuda de aparelhos morais.












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