O desafiador exercício de estabelecer vínculos seguros na atualidade
- temporacomunicacao
- 4 de jun.
- 3 min de leitura
Coluna da psicóloga Franciele Sassi
Vivemos em uma era marcada por conexões rápidas, excesso de estímulos e um ritmo de vida que favorece o imediatismo. À primeira vista, parece admirável que as pessoas façam cada vez mais coisas, cada vez mais depressa, de modo a se mostrarem produtivas e úteis para a sociedade. Por outro lado, esse mesmo automatismo na forma de viver como “produção em massa” gera altos custos físico e emocional a serem pagos já a curto prazo. Aquilo que tanto se romantiza – afinal, todo mundo quer se relacionar – parece estar sempre mais distante – porque ninguém sabe como fazer isso sem correr o risco de se machucar ou machucar os outros – abrindo margem para o adoecimento social relacionado ao individualismo e à solidão.
Nesse cenário em que tudo parece estar acontecendo de modo superficial, os vínculos afetivos seguros – aqueles baseados na confiança, na escuta mútua e no acolhimento – tornam-se não apenas importantes, mas essenciais para o bem-estar psíquico. Afinal, ainda que alguns não reconheçam, nós não vivemos sós; enriquecemos quando em grupos. Os vínculos oferecem uma sensação de estabilidade e segurança emocional, funcionando como um porto seguro diante das incertezas e desafios da vida cotidiana. Sentir-se pertencente, compreendido e aceito em sua integralidade permite que o indivíduo enfrente frustrações e conflitos com mais propriedade e resiliência, sabendo que pode ter com quem contar, que não está só.
Atualmente, essa estabilidade a qual tanto se busca através dos discursos está cada vez mais ameaçada. A intolerância à frustração, a dificuldade de lidar com as diferenças e a falta de paciência para a construção gradual das relações têm modificado e fragilizado os laços interpessoais. Em um mundo que incentiva o prazer imediato e a constante busca por satisfação, há pouco espaço para o cuidado, o diálogo e a construção de intimidade. Pode-se dizer que vivemos em um mundo infantilizado no sentido de desejar sempre o prazer, o gozo das experiências, negando consequências que a realidade impõe.
O que se tem visto é que as relações, muitas vezes, tornam-se descartáveis, regidas por uma lógica de consumo: o outro só tem valor enquanto me satisfaz. Quando surge a dificuldade – inevitável em qualquer vínculo verdadeiro e profundo – a tendência é o afastamento, não o enfrentamento conjunto. O adoecimento social paira justamente nesse “endereço”: quando eu não enfrento, não preciso pensar. Se não penso, não sinto e não me comprometo. Claramente o rumo à destruição da empatia e humanidade se não “tomarmos jeito” e começarmos a investir, valorizar, reconhecer nossas relações. É urgente a necessidade de sair daquela história de dar valor somente quando perde. O valor das relações deve ser atribuído no tempo presente. Depois, a gente valoriza o legado deixado, a gente mantém as memórias afetivas e de fatos.
Percebe-se que muitas pessoas, na tentativa de suprir a carência de vínculos reais e significativos, voltam-se para objetos inanimados, ambientes virtuais ou rotinas rigidamente controladas como forma de criar uma ilusão de pertencimento e controle. Parecem mais tentativas inconscientes de mascarar a angústia provocada pela solidão e pela ausência de relações autênticas. O apego a coisas, marcas, padrões ou até estilos de vida pode funcionar como substituto simbólico da presença de um outro confiável, o que até pode funcionar temporariamente, mas não oferece a nutrição emocional que um vínculo humano genuíno pode proporcionar. A gente precisa do olhar do outro, a gente enriquece nas trocas possíveis, nos aprendizados de cada história.
Por isso, refletir sobre os vínculos seguros é também um convite à desaceleração, à escuta e ao compromisso com o outro. Em tempos de tantas desconexões, construir e sustentar laços verdadeiros é, mais do que nunca, um ato de resistência e empatia. Estamos carentes de humanidade, porque vivemos correndo como se devêssemos prestar contas diárias a nós mesmos e aos outros, e aí não investimos no que realmente importa. Quando a gente percebe que a vida tem o valor que damos a nós mesmos em primeiro lugar, então as nossas relações também passam a ser mais profundas e devidamente cuidadas. Quando eu cuido bem de mim, eu também cuido bem dos meus vínculos, invisto neles e recebo em contrapartida.















Somos todos peregrinos, caminhantes da estrada da vida, cada qual segue no seu próprio ritmo, no seu próprio tempo. A jornada por vezes pode ser árdua, mas há uma missão maior, portanto a liquidez das relacoes mostra que não podemos desistir pois estamos caminhando para a nossa evolução e aprimoramento. Sozinho se anda rapido, mas junto se vai longe! Prazeroso texto, sou seu novo colega de coluna neste acolhedor portal. https://www.pautaserrana.com/post/coluna-viva-o-convite