O dia de finados e a psicologia do luto

Para entendermos a importância do Dia de Finados e como lidar com a saudade daqueles que partiram, conversamos com a psicóloga Franciele Sassi. Confira essa matéria especial do Pauta Serrana
Por Diego Franzen / Pauta Serrana

O dia 2 de novembro é marcado no Brasil e em diversas partes do mundo cristão pelo Dia de Finados. Ruas ao redor de cemitérios movimentam-se, túmulos recebem flores e velas, e igrejas realizam missas em sufrágio das almas. Mas qual é a origem real desta data e qual é o seu significado profundo para além da tradição religiosa? E mais importante: como a psicologia contemporânea compreende essa data diante de uma dor que não obedece ao calendário dos vivos?
A Origem Histórica e o Significado do Dia de Finados
A prática de homenagear os mortos é tão antiga quanto a própria humanidade, presente em civilizações pré-históricas, no Egito Antigo, na Grécia e em Roma. No entanto, o Dia de Finados tal como o conhecemos na tradição cristã ocidental tem raízes medievais bem definidas.
Historicamente, a Igreja Católica instituiu a data no final do primeiro milênio. Por volta do ano 998 d.C., Santo Odilo, abade do mosteiro beneditino de Cluny, na França, determinou que os monges de sua abadiaorassem pelos falecidos no dia 2 de novembro, logo após a celebração do Dia de Todos os Santos (1º de novembro). A prática espalhou-se rapidamente pelas ordens religiosas e, por volta do século XIII, foi oficialmente incorporada ao calendário da Igreja Católica Romana.
O significado teológico e cultural inicial girava em torno da doutrina do Purgatório — o estado de purificação pelo qual passariam as almas antes de alcançarem o reino celestial. As preces, velas e missas oferecidas pelos vivos eram vistas como formas de interceder e aliviar o sofrimento dessas almas.
Com o passar dos séculos, o significado do Dia de Finados transcendeu os dogmas estritamente religiosos, transformando-se num espaço coletivo e cultural de memória, respeito, reflexão sobre a finitude humana e reafirmação dos laços de amor que a morte física não é capaz de romper.
Apesar da importância cultural dos rituais, o confronto com o 2 de novembro pode ser desafiador para quem vivencia a perda recente ou o luto prolongado. Para aprofundar essa reflexão e compreender como o cérebro processa o luto e como as famílias lidam com as diferenças na dor, conversamos com a psicóloga Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, com atuação em Intervenções em Emergências Pós-Desastre e colunista do Pauta Serrana. Ela detalha os mecanismos psicológicos do luto, a singularidade das despedidas e a importância de ressignificar os vínculos continuados.

Quando questionada sobre de que maneira o cérebro processa o luto prolongado quando rituais tradicionais de despedida, como a visita ao cemitério no dia 2 de novembro, colidem com uma dor que não cede ao calendário, Franciele explica que o tempo interno da mente humana é soberano. "Bom, o luto não acompanha um calendário porque a nossa relação com quem morreu não se encerra no momento da morte. A gente fala muito sobre vínculos contínuos, que é uma forma da gente poder manter a pessoa viva dentro de nós. É uma nova forma de aprender com as perdas"
A especialista detalha que o impacto da perda não se resume apenas à ausência física, mas atinge a estrutura da realidade cotidiana construída ao lado de quem partiu. "Ao longo da convivência, construímos hábitos, expectativas, referências de segurança e também uma maneira de compreender a vida que inclui a presença daquela pessoa. Então, quando ela morre, a gente não perde apenas a sua companhia, mas também uma parte da realidade que a gente conhecia junto com ela. Então, o nosso cérebro, porque o luto também envolve uma questão importante cognitiva, precisa aprender a viver num mundo no qual aquela presença já não existe mais."
Franciele reforça que o luto é uma condição holística, que mobiliza todas as esferas do ser humano. Para ela, sempre que se fala em luto, tratamos uma condição que envolve todas as dimensões humanas, a emocional, a social, a psicológica, a espiritual e cognitiva"
Sobre o impacto de datas específicas como o Dia de Finados, a especialista esclarece que sentir dor novamente não significa retrocesso no processo de elaboração. Essas efemérides podem intensificar a saudade porque eles despertam, esses dias despertam lembranças e sentimentos associados ao vínculo que foi construído em vida. Então, não significa que a pessoa não tenha elaborado a sua perda. “Sentir de novo aquela dor não é o mesmo que voltar no início do luto. Isso é muito importante diferenciarmos, até para que as pessoas não entendam que quando elas voltarem a sentir aquela dor ou a intensidade da dor ficar maior, não tem a ver com retroceder no processo de luto."
Para a mestre em psicologia clínica, a verdadeira medida do luto saudável reside na capacidade de conviver com a ausência. A diferença está em como nós conseguimos conviver com essa ausência ao longo da vida. Então, não tem a ver com não se emocionar mais, não sentir mais a dor da perda, principalmente em datas ou eventos que remetem tanto a esta lembrança.
A escolha dos rituais e o que é terapêutico
Outro ponto fundamental abordado pela especialista é a pressão social em torno dos rituais coletivos de 2 de novembro. Para Franciele, a obrigação emocional pode gerar efeitos contrários aos esperados. "Os rituais podem oferecer conforto, podem oferecer significado, mas eles não são uma obrigação emocional e nem uma medida de superação ou atravessamento. Para algumas pessoas, participar desses rituais, por exemplo, de missas ou outros eventos no dia 2 de novembro não são necessariamente um conforto, não geram esta sensação de conforto. Então, só é terapêutico quando faz sentido para a pessoa.", declarou.
Ela aponta que a autonomia na escolha da homenagem é um direito emocional legítimo. "Existem várias formas de poder homenagear as pessoas queridas que partiram, sem que seja necessariamente participando de rituais que sejam coletivos. Pode ser também um ritual individual, mas que faça sentido para aquela pessoa.", explica Franciele.
E a psicologa resume a essência do processo. "A saudade não tem prazo de validade. O tempo sozinho também não resolve aquilo que ainda a gente precisa compreender e reorganizar dentro de nós. Então, o dia 2 é uma forma de poder resgatar aquelas lembranças, aquela vivência, mas não é necessariamente uma obrigatoriedade. O mais importante é o que a gente faz com aquilo que nos acontece, né? Então, o principal é nós podermos compreender mesmo e reorganizar dentro de nós aquela experiência de cuidado."
O Luto Familiar
Quando o luto atinge o núcleo de uma família, surge um novo conjunto de desafios. Embora todos compartilhem a dor pela perda da mesma pessoa, a dinâmica relacional de cada indivíduo é intransferível. Franciele explica essa complexidade. "Uma das maiores dificuldades do luto familiar é justamente compreender que, embora todos tenham perdido a mesma pessoa, ninguém perdeu exatamente a mesma relação. Por isso que o luto é tão individual, por isso que o luto é uma experiência singular."
Essa singularidade gera formas distintas de expressão e enfrentamento dentro do mesmo lar. "Mesmo dentro de uma mesma família, cada integrante da família possui lembranças, experiências, necessidades afetivas particulares, então a maneira de vivenciar a ausência também vai ser diferente por conta disso. O vínculo também é muito particular, assim como a reação à perda é."
Essas diferenças costumam gerar conflitos na comunicação diária, “Então, algumas pessoas aprenderam, por exemplo, que falar sobre a morte aumenta o sofrimento e por isso preferem o silêncio. Outras precisam recordar, compartilhar histórias, manter viva a lembrança simbólica de quem partiu. Então, o problema não está nestas diferenças, mas na interpretação que a gente faz delas. Quem silencia pode ser considerado uma pessoa indiferente, ou então quem fala pode ser considerado ou visto como alguém que não consegue seguir em frente.", completa.
Silêncio e as Obrigações Coletivas
A tentativa bem-intencionada de proteger os outros membros da família muitas vezes resulta em isolamento emocional. "Muitas vezes, nessa tentativa de proteger uns aos outros, as famílias acabam impedindo que um dos seus integrantes ou alguns expressem o que eles realmente sentem. E o silêncio que pretenderia proteger é o que muitas vezes pode produzir solidão. Então, exigir que todos participem de homenagens pode transformar essa lembrança da pessoa querida em obrigatoriedade e, às vezes, até pode gerar um efeito traumático porque não está fazendo sentido para aquela pessoa ou ela não gostaria de estar passando por esse momento. Ela gostaria de estar, às vezes, passando por um outro momento que fosse mais dela, que fosse um momento construído.". lembra a psicóloga.
O caminho apontado pela especialista para as famílias é claro. "O desafio familiar não é encontrar uma maneira única de viver o luto, porque isso não existe, mas aprender a respeitar essas diferenças e essas diferentes necessidades emocionais. Porque o amor compartilhado por quem morreu não exige que todos expressem a saudade da mesma forma.", destaca a psicóloga.
Lembra não é ficar preso ao passado
Por fim, a entrevista aborda a necessidade cultural de desconstruir mitos antigos sobre a superação, combatendo a ideia de que o esquecimento seria sinônimo de cura. "A gente precisa desconstruir a ideia de que elaborar o luto significa esquecer, deixar de sentir saudade ou então romper emocionalmente com quem morreu. A gente tem muito isso, principalmente, aqui na nossa cultura, de que não pensar sobre faz com que a pessoa melhore. Só que o que eu costumo dizer é que o tentar não pensar sobre já é uma forma de estar pensando. Então, a gente não tem como tentar esquecer porque a gente já vai estar lembrando. É controverso, mas é o que acontece.", comenta.
As figuras que amamos continuam a atuar internamente em nossas vidas e escolhas. "As pessoas que a gente ama continuam fazendo parte da nossa história, mesmo que elas não estejam mais fisicamente presentes. Mas elas continuam influenciando as nossas escolhas, os nossos valores, a maneira como a gente preenche e compreende a vida. Então, preservar essas lembranças não é necessariamente um sinal de dificuldade em aceitar a morte. Tudo isso precisa ser muito bem avaliado.", explica Franciele.
Sinais de Alerta
A especialista faz uma distinção crucial entre a preservação saudável da memória e o bloqueio existencial. "A preocupação surge quando a ausência passa a determinar que quase todas as possibilidades de existência de quem ficou seja, digamos assim, integrado a ela. Ou seja, quando a ausência interrompe ou interfere diretamente nas formas de viver. Quando voltar a sentir alegria provoca culpa, por exemplo. Quando construir novos vínculos parece uma traição. Ou quando a pessoa deixa de investir na própria vida porque acredita que seguir adiante significa abandonar quem morreu. Isso tudo se torna passível de ser avaliado. Porque pode gerar aí uma trava na vida."
Franciele enfatiza que esse travamento muitas vezes decorre de uma profunda crise identitária. "É importante compreender também que nem sempre isso representa uma recusa consciente ou então inconsciente da morte. Muitas vezes existe aí uma dificuldade profunda de reconstruir a própria identidade, de encontrar sentido em uma realidade que foi muito modificada pela perda."
Encerrando sua reflexão sobre o luto e a data de Finados, a especialista sintetiza o verdadeiro sentido de elaborar uma perda. "Então a diferença não está entre lembrar e esquecer, mas entre conseguir levar a memória consigo e sentir que precisa permanecer emocionalmente naquele mesmo lugar para preservar o vínculo. Quando a gente fala sobre vínculos contínuos ou vínculos continuados, essa é a forma mais, entre aspas, saudável de poder vivenciar o luto porque é o não esquecer, é justamente o contrário daquilo que as pessoas achariam que poderia fazer bem. Ou seja, é manter a pessoa viva dentro de nós, num lugar seguro dentro de nós."
O luto, portanto, não é sobre apagar o passado, mas sobre aprender a amar de uma nova maneira:. "Elaborar o luto não significa deixar alguém para trás. Significa reconhecer que aquela pessoa continua tendo importância na nossa história, mesmo que ela já não possa participar fisicamente dessa nossa história. Então é encontrar uma maneira de preservar o amor sem transformar a própria vida numa extensão permanente da ausência e sem ficar sempre dentro de uma vida que já é morta", finaliza a psicóloga.
















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