O Fantasma de Whitechapel e o Cirurgião das Sombras
- temporacomunicacao
- 20 de jun.
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Coluna de Diego Franzen

Londres, 1888. O nevoeiro rasteja pelas vielas como um cão sem dono, sujo, surdo e imprestável. Whitechapel fede a suor, a sangue barato, a desesperança destilada em becos escuros onde a dignidade é moeda vencida. Mas foi ali, no útero pútrido do Império, que nasceu uma criatura sem rosto, sem forma — mas com nome. Jack. Jack, o Estripador.
O nome não veio por batismo, nem por testemunhas. Veio por carta. Uma epístola de tom jocoso e assinatura diabólica: From Hell. Nela, o autor se diz responsável pelos crimes, em letra trêmula e tinta vermelha como hemoglobina. Um inglês grotesco, quase infantil, como se zombasse não apenas da polícia, mas da própria racionalidade. E ali, naquele fim de página, o nome que o tempo transformaria em mito: Jack, o Estripador. Um pseudônimo que caiu no gosto popular como caem os venenos lentos, primeiro com fascínio, depois com horror.
Eis que sob o verniz do folclore há a hipótese mais incômoda, mais sólida, mais aristocrática: que Jack não era um sádico aleatório de calçadas úmidas. Que não era um psicopata de taberna. Que Jack era, de fato Sir William Withey Gull.
Sim, aquele. Médico da Rainha. Cavaleiro do Reino Unido. Fidalgo de modos refinados e mãos que conheciam com exatidão o relevo dos órgãos humanos. Um homem que tocava fígados como quem dedilha sinfonias. Gull, cujo olhar clínico escondia um abismo, não de insanidade ordinária, mas de lógica absoluta. A mais perigosa das loucuras.
A teoria mais robusta, nascida de investigações independentes, romanceada depois com ferocidade e brilho, aponta Gull como agente de um complô silencioso para proteger a monarquia. O escândalo que ameaçava a Coroa era sórdido: o Príncipe Albert Victor, neto da Rainha Vitória, envolvera-se com uma prostituta católica, de quem teria tido um filho ilegítimo. Um bastardo real, oxímoro inadmissível.
Cinco mulheres sabiam da verdade. Cinco. E todas foram arrancadas da vida com uma fúria metódica, uma coreografia de sangue e bisturi. Órgãos removidos com previsão cirúrgica, à noite.
Mary Ann Nichols foi a primeira, em 31 de agosto. Garganta aberta com precisão e mutilações abdominais simétricas.
Annie Chapman, morta em 8 de setembro, teve o útero removido.
Elizabeth Stride, a terceira, morta em 30 de setembro, parecia interrompida. Talvez porque alguém se aproximara.
Catherine Eddowes, assassinada no mesmo dia, teve o rim esquerdo retirado.
E Mary Jane Kelly, a última e mais jovem, em 9 de novembro, foi deixada em seu quarto como um altar de desmembramento. O coração? Sumido. Talvez com Gull. Talvez com o Diabo.
O padrão era cirúrgico. Cortes limpos, incisões anatômicas, órgãos extraídos com perícia. A assinatura não era de um bruto, mas de um conhecedor da carne. De anatomia. De um médico. De um homem que já dissecara cadáveres sem nome nas escolas de medicina. Um homem como Gull.
Após os crimes, Gull foi discretamente declarado incapaz, afastado da vida pública, enterrado vivo num sanatório onde sua genialidade escorria pelos cantos como pus. A história oficial diz que morreu em 1890. Mas talvez tenha morrido antes, quando entendeu que a medicina, aquela que salva, também pode matar com igual elegância.
Jack, ou melhor, Gull, não foi apenas o primeiro serial killer moderno. Foi o prenúncio do século XX. Um presságio de que a ciência e a monstruosidade caminham de mãos dadas, sob o mesmo jaleco. Ele inaugurou, sem querer (ou querendo?), o fascínio pela morte estética. Tornou-se símbolo. Inspirou livros, filmes, séries, manuais de criminologia. Tornou-se arquétipo.
E se você, leitor, tiver estômago (e alma) mergulhe na mais densa e visceral narrativa já feita sobre ele: "Do Inferno", de Alan Moore. Obra-prima em quadrinhos que não apenas conta, mas decifra. Moore não pinta Gull como vilão, mas como inevitável. Como síntese de um Império que preferia o silêncio à vergonha. Um Gull xamânico, onírico, que caminha pelos séculos como um espectro iluminado pela luz mortiça dos lampiões de gás.
Sir William Gull. Talvez Jack, talvez apenas espelho. Não importa. Porque, ao fim, todos temos um pouco de Whitechapel em nós. Basta o nevoeiro certo.















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