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O Poeta da Cidade Oca

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 16 de jun.
  • 3 min de leitura

(Uma crônica cruz-altense para os tempos que viraram aplicativos)


Certa manhã, acordei com uma revelação cósmica: o apito da chaleira parecia a sirene do fim do mundo, ou talvez só mais uma notificação dizendo “seu boleto venceu”. Em Cruz Alta, cidade de Erico Verissimo, onde o vento parece contar histórias e o tempo tem cheiro de madeira molhada, ser poeta ainda é um cargo de utilidade duvidosa, mas de necessidade urgente.


Sim, poeta. Essa espécie em extinção que tenta salvar o mundo com palavras quando todo mundo quer mesmo é salvar arquivos.


Li na Superinteressante que já clonam o Minecraft com IA, que os sapos estão sendo dizimados por fungos apocalípticos e que até a banana foi domesticada geneticamente para não escurecer. Uma banana eterna! Só falta fazerem um chimarrão que nunca esfrie. Isso sim seria revolução.


Mas repare: no meio de tanto algoritmo, onde está a alma? Onde ficou o “tempo e o vento” se só nos resta Wi-Fi e correria?


Erico, se me escutas dos campos de cima da nuvem (a celestial, não a digital), perdoa-me a liberdade poética, mas hoje, ao invés de Ana Terra e Capitão Rodrigo, o que temos são cidades ocas, como bem define a reportagem: prédios vazios no centro e gente espremida na periferia — o mundo virou um SimCity com menos poesia e mais boletos.


Pois o poeta aqui propõe, com a seriedade de um palhaço em horário eleitoral, as seguintes ideias para uma vida mais leve e subversivamente feliz:


1. Transforme seu tédio em galeria de arte, pinte paredes com frases soltas que sua avó dizia. Expanda-se como um muro grafitado de lembranças;

2. Adote um canteiro comunitário e tenha uma palanta com homenagem ancestral. Ou um cogumelo. Dê nome a eles e finja que são influenciadores ecológicos. Poste fotos com a hashtag #NaturezaMeSegue;

3. Reinvente o AirBíblia fazendo provérbios locais de pessoas da sua árvore genealógica - bora entrevistar vovós e vovôs, até aquele tio que você acha muito quieto: ofereça abrigo ao próximo e uma parábola de brinde. A gentrificação treme quando o amor é gratuito;

4. Use IA para gerar bilhetes de desculpa por não responder mensagens no WhatsApp. Mas assine à mão. A caligrafia é a última resistência humana;

5. Faça serenata para o fungo quitrídio. Afinal, todo vilão merece um pouco de empatia antes do capítulo final.

6. Convide alguém que impõe sua religião a trocar um dia com você indo um na outra sem preconceito ou julgamento;

7. Escute ou assista aquele artista da rua que jamais tem a atenção devida e deixe uma esmola generosa para ele agradecendo e olhando nos olhos;

8. Se ninguém te valorizar ou te mostrar a graça da presença lendo um livro ou arte tua, faz como eu, ironiza e usa um aplicativo de música recitando teu poema e publica no YouTube até que se notem do qual tóxico tudo se tornou e voltem a procurar crônicas, poesias e músicas orgânicas.


E se a vida te der um algoritmo, responda com um aforismo. Se a cidade estiver oca, encha-a com poesia falada. Recite no ponto de ônibus. Faça um sarau na praça. Desafie o silêncio dos elevadores com haicais de elevador.


Erico, tu sabias: viver é meio ficção mesmo. Só nos resta decidir se seremos o narrador entediado, o herói desconfiado ou o louco visionário que atravessa a cidade com um livro na mão e uma flor na outra.


Cruz Alta ainda respira — entre uma nuvem digital e outra — graças aos que ainda olham para o céu e pensam: “parece verso.”


E que venha a próxima notificação: estou pronto, com rima carregada e um chimarrão no coldre.

ree

Decimar da Silveira Biagini

Na Cruz Alta-RS, 07horas e 40minutos, aos 15 de junho de 2025.

3 comentários


daniamariabiagini
17 de jun.

Nossa lindo maravilhoso vc cada vez melhor esta saindo um poeta das raizes de Erico Verissimo.deve estar orgulhoso onde nasce mais um Erico Verissimo..poeta de alto gabarito orgulho de vc irmão e sobrinho...um beijo 💋 da tia Dania Biagini vc se chama não dessalagoa..nãodesse rio ...masPOETA DECI..MAR... COM GRANDE ESTILO E SABEDORIA POETA DE LUZ INSPIRADO PELO POETA ERICO VERISSIMO UM POETA DE GRANDE ESTIRPE..O GRANDE...O MAIOR DOS TEMPOS. PARABENS......

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Junior Pinheiro
Junior Pinheiro
16 de jun.

👏🏻👏🏻👏🏻

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Augusto Rodrigues Junior
Augusto Rodrigues Junior
16 de jun.

Lembro de uma frase da minha mãe: "tudo que é demais prejudica". Chegamos ao ponto de uma grande operadora fazer propaganda incentivando as pessoas a largarem o celular um pouco... Está realmente demais... (no sentido do uso e do descontrole). Parabéns pela crônica, obrigado pelas ideias e ainda bem que ainda existem poetas!

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