Os lutos nossos de cada dia
- temporacomunicacao
- 7 de jul.
- 3 min de leitura
Coluna da Psicóloga Franciele Sassi
Ao longo da vida somos atravessados por inúmeros lutos, nem todos visíveis ou reconhecidos, mas todos profundamente humanos. O luto não acontece unicamente diante da morte. Ele se manifesta sempre que algo nos escapa, por assim dizer. Falamos sobre luto quando nos despedimos de uma fase, de uma pessoa, de um papel, de um sonho ou até de uma versão antiga de nós mesmos. Vivemos, constantemente, processos de perda e transição, que ocorrem desde o nosso nascimento. E, em cada etapa da vida, essas perdas assumem formas distintas e singulares.
Na infância, por exemplo, o luto pode surgir em experiências aparentemente simples: o desmame, a entrada na escola, a mudança de casa, a chegada de um irmão. A depender da fase de desenvolvimento, a criança não compreende claramente o que está perdendo, mas sente no corpo e nas emoções que algo lhe foi “tirado”. É o início da aprendizagem sobre a impermanência: nada é fixo, tudo se transforma. Cada “não” recebido, cada separação temporária, cada mudança de rotina pode ser um primeiro contato com o sentimento de perda.
Na adolescência, é natural que esse sentimento potencialize. Trata-se de um período de transição marcado pela despedida da infância e pela busca de um novo lugar no mundo. Os adolescentes vivenciam o luto pela perda da ingenuidade, pela desconstrução de referências familiares, pela percepção de que os adultos falham, de que os relacionamentos são complexos, de que o corpo muda, às vezes de forma desconfortável. É o luto pelo que não volta e pelo que ainda não chegou. Uma travessia de perdas e descobertas.
Na vida adulta, os lutos se tornam mais silenciosos e múltiplos. Perde-se um amor, uma amizade, um emprego. Perde-se tempo. Perde-se energia tentando ser o que esperam de nós. Mudanças de cidade, de carreira, de estilo de vida, mesmo quando desejadas, trazem consigo a dor de deixar algo para trás. Há lutos pelos planos que não se realizaram, pelas escolhas que se mostraram diferentes do esperado, pela idealização de uma vida que parecia mais simples. Até mesmo as conquistas vêm acompanhadas de renúncias. Crescer também envolve dor.
Na velhice, os lutos tornam-se mais nítidos, às vezes mais duros. Há a perda da juventude, em alguns casos a perda da autonomia, as perdas de pessoas queridas que partem. Há o luto pela ausência do reconhecimento social, pela redução dos papeis exercidos, pelo silêncio que muitas vezes se instala. Mas há também, para muitos, um aprofundamento da consciência sobre o tempo e sobre o que realmente importa. A velhice pode ser uma fase de reinvenção se acolhermos as perdas com lucidez e sensibilidade.
A vida é feita de despedidas cotidianas. Perde-se algo todos os dias: uma oportunidade, uma ilusão, um momento que não volta mais. Esses pequenos lutos compõem uma trilha invisível que nos ensina a amadurecer. E justamente por sermos finitos, cada instante vivido adquire um valor imensurável. Viver é agora.
Afinal, um dia a mais é também um dia a menos. Essa verdade, quando olhada de frente, não precisa nos paralisar, pelo contrário, pode nos despertar. Nos convida a estar mais presentes, mais atentos, mais gratos. Nos lembra que a vida é frágil, que tudo muda e que, por isso, devemos aproveitar o agora com profundidade. Não se trata de viver com medo da morte, mas de viver com consciência da finitude. Amar mais, dizer mais, sentir mais, escolher melhor. Não adiar o essencial. A consciência dos lutos da vida nos chama a viver com mais alma. A valorizar as relações, a cuidar do que temos, a entender que cada ciclo tem seu tempo e que a beleza da existência está justamente num movimento entre nascer, crescer, perder, transformar, seguir.















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