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Quem Tá Ferido Prefere Morfina, Não Cirurgia

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    temporacomunicacao
  • há 16 horas
  • 4 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Diego Franzen é jornalista e escritor. É autor de 17 livros. É o CEO da Tempora Comunicação e editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor. É autor de 17 livros. É o CEO da Tempora Comunicação e editor do Portal Pauta Serrana

Todo mundo já teve dor de dente. Essa dor não respeita classe social, signo zodiacal, currículo nem autoestima. Ela chega, se instala e toma posse da cabeça inteira. E quase todo mundo reage do mesmo jeito, num ritual que mistura esperança, preguiça e autoengano. Passa gel. Toma diclofenaco. Apela para o "passa já". A dor cede. Um pouco. Por algumas horas. O suficiente para a gente pensar “viu só, nem era tudo isso”.


Ir ao dentista dá medo. Custa. Dói antes de melhorar. Exige sentar numa cadeira desconfortável, abrir a boca e admitir que empurrar com a barriga não funciona quando o problema é no nervo.


Então a gente adia. E enquanto adia, o problema segue lá, cavando em silêncio, organizando a própria vingança.


Na vida, somos exatamente assim. Iguais. Só muda o cenário.


Quando algo dói de verdade, não queremos conserto. Queremos anestesia.


Queremos baixar o volume da dor, não entender a origem do barulho.


Preferimos um alívio rápido, um afeto morno, uma frase bonita dita no tom certo.


Qualquer coisa serve, desde que não nos obrigue a mudar nada.


Somos especialistas em diclofenaco emocional.


Tomamos comprimidos de distração, xaropes de autoajuda, analgésicos sociais. Rolamos o feed, repetimos mantras, chamamos fuga de maturidade.


E seguimos. Não curados. Apenas anestesiados o suficiente para funcionar.


Toda cirurgia usa morfina. Mas nenhuma cirurgia se resolve com ela.


A morfina existe para permitir o corte. Para que o corpo aguente o que precisa ser feito. O erro é confundir anestesia com solução. É achar que dá para viver só de paliativo, como se a vida fosse um hospital de campanha permanente.


A vida não pede cuidado paliativo. A vida pede cura.


E cura dói.


A cirurgia da alma não manda mensagem antes. Não pergunta se é um bom momento. Ela corta relações que infeccionaram, hábitos que já apodreceram, ilusões que passaram do prazo de validade. Ela mexe onde dói porque é ali que mora o problema. Não respeita nossa nostalgia, nem nossas desculpas bem escritas, nem nossos discursos sobre autocuidado.


Aliás, autocuidado virou uma palavra perigosíssima. Virou escudo. Virou álibi. Virou desculpa elegante para não enfrentar nada que cause desconforto emocional. Como se crescer fosse opcional. Como se amadurecer fosse agressão.


Morfina sem cirurgia não é cuidado. É adiamento.


E adiamento não é neutro. Ele educa. Ele treina. Ele molda caráter. Cada vez que escolhemos anestesia em vez de enfrentamento, estamos nos ensinando algo. Estamos aprendendo a evitar, a contornar, a fingir. Estamos ficando bons nisso.


E é aqui que entra a comodidade da repetição. O cotidiano, quando não é questionado, vira um marasmo furioso. Um marasmo que não explode, mas corrói. Acordar, trabalhar, reclamar, dormir. Repetir. Repetir. Repetir.


A repetição é confortável porque não exige decisão. Ela embala. Ela hipnotiza. Mas também rouba.


Rouba a curiosidade. Rouba o espanto. Rouba a coragem.


A alma vai ficando doméstica, mansa, resignada. Não sofre grandes tragédias, mas também não vive grandes verdades. E essa é talvez a forma mais sofisticada de adoecimento. A vida vira um ruído constante, um fundo sonoro irritante que a gente aprende a ignorar enquanto algo dentro vai secando.


Depois chamamos isso de cansaço. De fase. De idade. Quase nunca chamamos de escolha.


Nietzsche desconfiava desse amor excessivo pelo conforto. Aristóteles falaria em hábito, repetição, caráter. Freud chamaria de resistência. A linguagem muda, a verdade permanece. Fugir da dor hoje costuma custar mais caro amanhã.


Situações extremas exigem medidas extremas.


Feridas profundas não se resolvem com gesto tímido nem com conversa superficial. Não há crescimento sem algum tipo de corte.


Não há maturidade sem perda. Não há transformação sem um período em que tudo parece pior antes de parecer melhor.


E aqui entra a parte que ninguém gosta de ouvir. Ninguém vai reagir por você. Ninguém vai sentar na cadeira do dentista da sua vida no seu lugar.


Ninguém vai escolher o bisturi quando você insiste na morfina.


Reagir dói. Mudar dói. Dizer basta dói. Ir embora dói. Ficar e enfrentar dói. Mas continuar fingindo que não é nada grave dói mais e por muito mais tempo.


A morfina tem seu lugar. Antes do corte. Nunca no lugar do corte.


No fim, a vida não pede que você seja forte o tempo todo. Pede honestidade. Pede coragem suficiente para parar de tratar ferida aberta com band aid emocional.


Pede que você levante da maca, encare o espelho e aceite o procedimento necessário.


Ou você suporta a dor que cura, ou se acomoda no alívio que apenas prolonga o adoecimento. Não existe terceira opção confortável.


A vida não quer que você apenas aguente. Ela quer que você reaja. E reação, quase sempre, começa com um corte bem feito.


No fim, viver é escolher entre a lâmina que dói uma vez e o anestésico que cobra todos os dias. É decidir se você quer uma alma cicatrizada ou apenas adormecida.


A vida não foi feita para ser suportada em silêncio, nem anestesiada até perder o pulso. Ela exige coragem cirúrgica, lucidez brutal e a dignidade de quem prefere sangrar agora a apodrecer aos poucos. Porque toda ferida ignorada vira destino, e todo destino evitado um dia cobra a coragem que você adiou.

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