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QUERO SER O BATMAN

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 6 de abr.
  • 5 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


DIEGO FRANZEN é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
DIEGO FRANZEN é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

Sempre que a conversa descamba para os sonhos instigados pela Mega-Sena acumulada, o sujeito comum logo se imagina em uma espreguiçadeira nas Maldivas, sendo abanado por palmeiras e bebendo algo com um guarda-chuvinha de papel.


O plano é sempre o mesmo. Viajar o mundo, comprar o que não está à venda e, principalmente, mandar para o quinto dos infernos aquela lorota romântica de que somos ricos pelo que o dinheiro não compra.


Balela.


Eu, no entanto, tenho um plano de investimento muito mais pragmático. Eu seria o Batman.


Compraria um carro blindado com mais botões que um console de videogame moderno, mandaria forjar uma armadura de morcegão que disfarçasse as protuberâncias abdominais e sairia por aí distribuindo sopapos na malandragem, valendo-me da minha técnica refinada de artes marciais.


Imaginem a cena. Um herói sombrio, implacável, surgindo entre as sombras da cidade. Mas aí o sujeito acorda, olha para o RG e a realidade me acerta um cruzado de direita. Sem luva.


Hoje sou um senhor de quarenta e cinco anos. Por mais que eu tenha cancha no tatame, não sou mais um garoto. Tenho asma, arritmia e uma ansiedade em um nível tão galopante que, ao primeiro sinal do Coringa, eu provavelmente teria um colapso vagal antes mesmo de sacar um bat acessório.


Bruce Wayne não usa bombinha de salbutamol, e o batmóvel certamente não tem um compartimento para minha bupopriona.


Por que, então, esse delírio persiste sob o meu teto? Na real, é apenas uma projeção. É a necessidade visceral de ser alguém especial, um anseio que sempre me acompanhou como uma sombra.


Na semana passada, falei sobre o Kobayashi Maru e sobre como certos sonhos, por mais que a gente ore, insista e conte com a torcida entusiasmada de amigos visíveis e invisíveis, jamais vão acontecer. Eles simplesmente não foram feitos para se materializar neste plano de boletos e gravidade.


Vejam só a minha contradição. Sou faixa preta, sou um escritor autor de dezessete livros e já estou finalizando o décimo oitavo. Quando ligo o modo hiperfoco, busco a excelência absoluta, seja como um bom enxadrista ou como um maçom de grau trinta e três e mestre instalado. E, ainda assim, boa parte das vezes me sinto um bosta.


Mas tenho um coração bom. Não falo do anatômico, porque esse já me deu uns sustos consideráveis e parece ter vida própria na hora de bater fora do compasso. Falo no sentimento. Falo na capacidade de ter empatia, de amar e acolher. De ter tido o êxito de criar filhos incríveis e de cultivar amigos verdadeiros que jamais me deixaram na mão ou permitiram que eu enfrentasse o vácuo da solidão.


O esvaziamento é o meu maior medo. A partir desse medo, percebo que as experiências da vida nos endurecem aos poucos. Esse endurecimento é necessário e algumas coisas em nós sempre têm que fenecer. Não apenas os rancores, a raiva ou o ódio, mas às vezes alguns sonhos e certos afetos que já não nos servem mais.


É a analogia da espada. Uma boa lâmina é feita de aço nobre, mas precisa passar pelo fogo e pela porrada da marreta para ganhar têmpera. Sem o trauma do impacto, o metal não vira arma, vira apenas um pedaço de ferro inútil.


É preciso entender que a gravidez não tem lugar no espelho, mas na vontade, isto é, na imaginação da vontade. O espelho permanece eternamente como uma virgem sem parto, uma superfície que apenas reflete a aparência externa sem jamais gerar vida. Mas a vontade se engravida por meio da contemplação do espelho. Assim, a vontade é o pai, e a gravidez na vontade é o senhor ou o filho.


É o momento em que o desejo interno fecunda a realidade percebida. Se algo se torna aquilo que não era antes, isso não se constitui um princípio. Um princípio está onde uma forma de vida e movimento começa, algo que não existia anteriormente.


Ou seja, o espelho é a realidade estática e fria, uma superfície que apenas devolve a imagem do que já está posto, sem a capacidade de gerar um átomo de vida por si só. Ele permanece uma virgem sem parto, indiferente ao tempo e à nossa asma. No entanto, quando a nossa Vontade, essa força motriz que busca o movimento, contempla essa imagem, ela se fecunda.


A gravidez não ocorre no vidro, mas na alma de quem olha. O desejo atua como o Pai e a nova realidade que nasce dessa percepção, o propósito que nos faz levantar da cama, é o Filho. É o momento em que a imaginação da Vontade toma a forma do espelho para parir uma versão de nós que o reflexo puramente físico jamais seria capaz de sustentar.


O fogo é um princípio, assim como a luz que nasce do fogo, mas a luz não é uma mera qualidade do fogo, ela possui uma vida própria, uma existência que se expande além da brasa.


Explicando melhor meu amigo leitor, imagine o fogo como a experiência bruta, o calor das nossas lutas, as pancadas que a vida nos desfere e as dores que nos moldam. Ele é o princípio, a força que consome e que transforma o aço em lâmina. Mas a luz que o fogo emite, embora nasça dele, é algo completamente diferente. Enquanto o fogo queima e muitas vezes destrói, a luz apenas ilumina. Ela ganha uma vida própria e independente do calor que a gerou. Na prática da nossa existência, o fogo são os nossos erros, as arritmias e os fracassos, enquanto a luz é a sabedoria que sobra quando a fumaça baixa. Você pode até perder o calor da juventude ou o fôlego do combate, mas a luz que você produziu através do conhecimento e do afeto continua brilhando sozinha, guiando quem vem atrás.


Nessa jornada do herói que enfrentamos de pijama, somos todos um pouco Quixotes, investindo contra moinhos de vento na esperança de que alguém veja, em nossa armadura remendada, o brilho de um cavaleiro de linhagem.


A necessidade de ser especial, de ser acolhido e bem quisto, é a ferida aberta que todos carregamos. Buscamos no reconhecimento do outro o bálsamo para a nossa própria finitude.


Entre o Batman idealizado e o escritor arritmado, resta o homem que entende que não posso patrulhar Gotham, muito menos a Serra Gaúcha, onde vivo. Mas posso ao menos ser o guardião dos afetos que conquistei, transformando o aço das minhas dores na luz que ainda teima em iluminar as minhas páginas.



 
 
 

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