Solidão e perda em um mundo que muda rápido demais
- temporacomunicacao
- 23 de jul.
- 4 min de leitura
Coluna da Psicóloga Franciele Sassi
Vivemos em tempos de mudanças constantes. O mundo gira cada vez mais depressa, as informações chegam em segundos, e tudo parece exigir respostas imediatas como critério para ser seguro e eficaz. Em meio a essa correria, muitas pessoas têm experimentado um sentimento crescente de vazio e solidão — algo difícil de nomear, mas profundamente sentido.
Esse mal-estar silencioso se assemelha muito ao processo de luto. Um luto não necessariamente causado pela morte, mas pela perda daquilo que antes sustentava nossas relações e comunidades, e dava sentido à vida cotidiana. Há muitos lutos não reconhecidos naquilo que se vive diariamente mas que não é percebido a olho nu.
Embora a comunicação digital tenha trazido tantas facilidades para nos mantermos próximos uns dos outros, o que tem acontecido, controversamente, é que o contato direto, os vínculos construídos com o tempo e o cuidado, têm se fragmentado. Se estamos falando que as conversas longas na calçada, as visitas sem hora marcada, os almoços de domingo em família foram sendo substituídos por trocas rápidas, mensagens curtas, vídeos de segundos, então estamos falando de grandes mudanças nas quais muitas perdas também ocorreram. A vida se tornou digital, imediata, conectada, porém mais solitária.
A solidão atual não se trata unicamente da ausência de companhia física. Ela é, muitas vezes, a sensação de não pertencer, de não ser realmente visto ou escutado. É estar entre muitas pessoas, mas sentir-se invisível. É postar uma foto e receber curtidas, mas não um abraço. É ter centenas de contatos, mas não ter com quem dividir uma dor profunda ou uma alegria verdadeira.
Esse tipo de solidão é devastador porque toca diretamente a nossa necessidade mais básica: a de vínculo humano real onde podemos nos sentir olhados, reconhecidos, importantes. Somos seres sociais, afetivos. Precisamos de contato genuíno, de presença, de escuta. Quando tudo se torna superficial e acelerado, esse nutriente emocional vai faltando, e o corpo e a alma sentem.
Essa espécie de luto silencioso diz respeito à perda da profundidade das relações, à distância crescente entre as pessoas, à quebra de rituais que antes nos sustentavam. Trata-se de perceber que, ao perdermos o espaço da convivência autêntica, também perdemos uma parte importante de nós, da nossa identidade construída junto dos pares.
Portanto, estamos falando de um sofrimento legítimo e cada vez mais observado em sociedade. Nomear esse luto é um passo importante para cuidar dele e buscar formas transformadas de resgatar aquilo que pode ter se perdido com o tempo. Sentir tristeza, saudade, desconexão é natural diante de um mundo que mudou tão rápido que não tivemos tempo de acompanhar emocionalmente. Reconhecer e validar esses sentimentos pode abrir espaço para novas formas de conexão mais conscientes e humanas.
Uma vez que não conseguimos “rebobinar a fita” e voltarmos ao passado, que possamos nos utilizar daquilo que tanto sentimos falta para buscarmos, no presente, maneiras mais verdadeiras de estar com o outro: desacelerar, ouvir com atenção, olhar nos olhos, reaprender a partilhar a vida, reconhecer diferenças e enriquecer, evoluir com elas. Onde há vínculo, há sentido. E onde há sentido, há possibilidade de transformação.
Vivemos em um tempo marcado pela rapidez, pela tecnologia e pela constante mudança. A cada dia, algo novo surge, enquanto aquilo que era familiar, previsível e próximo se dissolve quase sem que percebamos. Nesse movimento veloz, muitas pessoas têm se deparado com sentimentos profundos de vazio, solidão e perda — sentimentos que, muitas vezes, não recebem nome, mas que se assemelham muito à experiência do luto.
Luto não é apenas sobre a morte de alguém que amamos. É também sobre a perda do que fazia sentido, do que nos sustentava emocionalmente. O mundo atual, com suas relações mediadas por telas, com a valorização do desempenho e da produtividade acima do afeto e da presença, tem gerado uma forma sutil, mas constante, de enlutamento. Perdemos a espontaneidade dos encontros, os vínculos profundos, a sensação de pertencimento aos pequenos círculos que antes sustentavam a vida cotidiana: a vizinhança, a família reunida, os amigos presentes. Em troca, ganhamos conexões instantâneas, mas muitas vezes superficiais.
O individualismo contemporâneo também pesa. A ideia de que devemos dar conta sozinhos, de que sentir demais é fraqueza, faz com que sentimentos legítimos de tristeza e solidão sejam calados, escondidos. Mas a verdade é que, quanto mais ignoramos esse luto silencioso, mais ele cresce, se instala, e se manifesta em formas difusas de sofrimento emocional.
Sentir tristeza, sentir falta, chorar por algo que mudou — mesmo que "ninguém tenha morrido" — é uma forma válida e humana de luto. É o luto pela perda de uma vida mais simples, mais conectada, mais sensível. Ao reconhecermos isso, nos autorizamos a cuidar das nossas dores com mais compaixão e menos julgamento. E talvez assim possamos, aos poucos, resgatar uma forma de viver mais afetuosa e presente, onde o outro não seja só mais um contato online, mas alguém com quem partilhar, de verdade, a existência.















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