Vento Negro, tradição que sopra do passado para o futuro no coração de Bento Gonçalves
- temporacomunicacao
- 13 de set.
- 4 min de leitura
Por Diego Franzen / Pauta Serrana

Há coisas que não morrem. Nem com o tempo, nem com a pressa, nem com a mania moderna de achar que tudo pode ser trocado por um clique no celular. O passado, por exemplo. O passado nunca esteve ameaçado. Ele está ali, intocado, guardado nos livros empoeirados da estante, nas fotos em preto e branco que ninguém tem coragem de jogar fora, no cheiro de lenha queimando que insiste em se espalhar pelos galpões.
O que está em risco é o futuro. Porque tradição que não se vive, se perde. E é por isso que existe a Vento Negro.
A Vento Negro não nasceu de uma planilha. Nasceu de um sopro. Eduardo Menegotto sentiu esse sopro. E ouviu. Eduardo não é um visionário de PowerPoint, desses que falam em “empreendedorismo disruptivo”.
Eduardo é gaúcho.
Daqueles que ainda sabem o que significa a palavra herança.
Ele percebeu que seus alunos queriam mais do que aprender uns passos de vaneira. Eles queriam ser gaúchos de corpo inteiro.
Queriam dançar pilchados.
Queriam pertencer.
Foi em 2008, em Garibaldi, que a coisa começou. Eduardo abriu a primeira loja. E, veja bem: não foi para enriquecer. Ele próprio diz: “Eu só queria ver os alunos bem vestidos”. O tipo de frase que ninguém mais diz em tempos de ambição miúda.
Mas ele disse.
E foi com essa frase que nasceu a Vento Negro.
Só que ninguém ergue sonho sozinho. E é aqui que entra Carla Menegotto, esposa, parceira, cumplicidade em estado puro. Eduardo é o rosto que aparece, Carla é a força silenciosa que sustenta.
Ela está sempre lá, cuidando do detalhe, ajeitando o que ninguém vê. Sem ela, o vento seria apenas brisa.

De Garibaldi a Farroupilha, de Carlos Barbosa a Bento Gonçalves, a Vento Negro foi se espalhando. Em 2020, no meio da pandemia, eles abriram a loja em Bento. Parece loucura. Era o tempo em que o mundo fechava as portas, e eles decidiram abrir as suas.
Mas a tradição não espera o calendário.
Entrar na Vento Negro não é como entrar numa loja. É como entrar num galpão de estância. Tem banco de madeira, tem cuia de mate passando de mão em mão, tem aquele ar de casa que acolhe.
A mãe experimenta vestido, o pai toma um mate, o guri mexe no celular enquanto o avô conta história. É comércio, mas também é convivência. É pilcha, mas também é identidade.
E porque tradição não se guarda só no armário, ela precisa dançar. Por isso, todas as terças-feiras, em Bento, o salão da Vento Negro se abre para ensaios. Crianças, jovens, adultos, todos cabem nesse compasso.
A chula é a mesma, mas o sorriso agora é fotografado no celular. O lenço continua vermelho, mas já aparece em stories no Instagram. A tradição não é museu: é vida.
Estamos em setembro. O mês do gaúcho. E com ele chega a prova definitiva. As cidades da Serra se enchem de bandeiras, de cavalgadas, de hinos cantados como preces. A Semana Farroupilha é o calendário dizendo ao mundo que o gaúcho não esquece.
Mas a Vento Negro lembra o essencial: lembrar não basta. É preciso viver.
E é por isso que Eduardo e Carla fazem o que fazem. Não para o passado, que já está garantido. Mas para o futuro. O passado não precisa de defesa. O futuro, sim.
A Vento Negro é isso: o vento que sopra do ontem para o amanhã. Forte, negro, indomável. O vento que garante que o Rio Grande seguirá sendo mais do que geografia. Será alma. Será destino. Será dança, bombacha e coração.
No coração de Bento, um portal para outro tempo

Na Rua Cândido Costa pulsa uma porta aberta para o passado. Ali está a Vento Negro, discreta por fora, mas grandiosa por dentro. Entrar no ambiente é como atravessar um umbral invisível: de repente, o barulho da cidade fica para trás e você é transportado para um outro mundo. Um mundo de couro e lenha, de música e memória, de um legado tecido por séculos de história e de ideais.
E não é só a pilcha que dá vida à Vento Negro. Nas prateleiras e balcões, brilham facas de aço bem forjado, tábuas que parecem feitas para receber o corte da costela no domingo, aventais que carregam o cheiro do fogo de chão.
Há também kits de chimarrão personalizados, pensados para quem quer levar consigo não apenas a cuia e a bomba, mas um pedaço de identidade. Entre palas, ponchos e toda a indumentária tradicional, a loja oferece também esses símbolos do cotidiano gaúcho, porque tradição não vive apenas no baile ou no galpão, mas no churrasco da família, no mate que roda, na lida simples de cada dia.
Não há como não se deixar contagiar. O espaço é acolhedor, vivo, arrebatador. Quem cruza a porta não encontra apenas uma loja, mas um reduto onde a tradição se agiganta e abraça cada visitante. É o espírito dos antepassados se manifestando em cada detalhe, em cada gesto, em cada mate que roda.
Por isso, o convite é simples e direto: vá, veja, viva. Deixe-se levar pela experiência. A Vento Negro está ali, no coração de Bento Gonçalves, para lembrar que tradição não se explica, se sente.


















maravilha de reportagem sobre a Vento Negro. Abraços.