Um Oito de Março de Luto e Luta, onde o silêncio mata e a coragem liberta
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POR DIEGO FRANZEN / PAUTA SERRANA

A vida às vezes tropeça em passos de uma brutalidade inacreditável. Olhamos para o calendário e lá está o 8 de Março. Flores? Sim, elas são bonitas sobre a mesa, mas este ano elas têm o cheiro acre do velório. No Rio Grande do Sul, a contagem é de uma aritmética perversa: 20 mulheres já foram arrancadas do convívio dos seus nestes parcos meses de 2026. Vinte vidas que viraram estatística porque alguém, em algum momento, achou que detinha a posse de suas almas.
O caso de Roseli Vanda Pires de Albuquerque, ex-vereadora de Nova Prata, é o retrato desse deserto moral. Morta dentro de casa, pelo marido, que em seguida se matou. O lugar que deveria ser o porto seguro tornou-se o cenário do horror final. Mas Roseli não é um ponto fora da curva. Ela se soma a uma procissão de sombras que caminham ao lado de tantas outras "Roselis" anônimas, cujos gritos são abafados por paredes grossas e pela indiferença de uma sociedade que ainda guarda resquícios de uma mentalidade feudal e patriarcal.
Mergulhei nesse oceano revolto ao entrevistar Bruna Marin, advogada e presidente do Movimento Virada Feminina. A entrevista pode ser assistida na íntegra nas redes sociais do Portal Pauta Serrana (instagram, Facebook e YouTube). Vale a pena conferir.
Bruna fala com a autoridade de quem pisa no barro da realidade, e não no tapete aveludado das teorias. Ela traz o olhar de quem vê a ferida aberta. "Os homens estão um pouco perdidos... eles não compreendem que não são mais os donos da razão, os donos do desejo tão somente, porque antes quem desejava e quem fazia tudo e quem determinava como as coisas iam acontecer, eram os homens, ponto", afirma Bruna.
É um diagnóstico preciso. Vivemos um tempo de transição dolorosa. O homem, esse ser que por séculos foi o monarca absoluto do lar, agora depara-se com uma mulher que ocupa o mundo, que tem voz, que tem querer. E, na incapacidade de lidar com a própria pequeneza diante da grandeza feminina, alguns recorrem ao soco, à faca, ao tiro. Ou, de forma mais insidiosa, à violência vicária.
CUIDADO OU CÁRCERE?
Precisamos apurar o ouvido para o estridor das pequenas violências, aquelas que não deixam manchas roxas na pele, mas necrosam o espírito. Imagine duas situações que ocorrem agora, talvez na casa ao lado:
O Cerco Invisível do marido que não agride fisicamente, mas que "sugere" que a esposa não use aquela saia, que "acha melhor" ela não trabalhar para não se cansar, ou que controla a senha do banco "para ajudar na organização". Isso não é zelo; é o início de um apagamento de identidade. É o grilhão disfarçado de aliança.
A arma viva do pai que, após a separação, usa o filho como um projétil emocional. "Diz para a tua mãe que, se ela sair hoje, eu não te busco mais". É o que Bruna Marin define com maestria: "Utilizar o filho para nos atingir é nos matar em vida... isso deve ser comparado a um feminicídio, porque não se mata o corpo físico, se mata a alma".
A FALÁCIA DO HOMEM DE BEM
Bruna é firme ao denunciar o imbróglio jurídico e social que, muitas vezes, protege o agressor de colarinho branco e fala mansa." O sistema de proteção aos homens é extremamente efetivo se o homem for poderoso, se tiver dinheiro e um rostinho que não se imagina que ele é violento psicológico... a mulher não tem nem medida protetiva deferida porque esta mulher, afinal, ela fala. Se ela fala, não pode sofrer violência", desabafa a advogada.
É a tática do gaslighting levada ao extremo: a mulher que denuncia é taxada de louca, de surtada, de histérica. É preciso uma coragem quase sobre-humana ou, como diz Bruna, uma pitada de "maluquice", para permanecer sã em um mundo que tenta, a todo custo, convencer a mulher de que a culpa pela própria tragédia é dela, seja pela roupa que veste ou pela voz que levanta.
O 8 de Março não pode ser apenas o dia do bombom e do cartão decorado. Deve ser o dia da pergunta incômoda que Bruna Marin lançou ao final da nossa conversa: "Até quantas mulheres a sociedade aceita perder por dia?".
No Rio Grande do Sul, terra de gente brava, parece que estamos aceitando demais. É preciso mais do que leis É necessária uma metanoia cultural. Precisamos de homens que não se sintam ameaçados pela liberdade feminina e de um sistema que não seja cego diante do privilégio.
Que a memória de Roseli e das outras 19 irmãs de destino não seja em vão. Que a "Virada" não seja apenas o nome de um movimento, mas o destino inevitável de uma sociedade que se pretende civilizada.
Serviço de Proteção: Não se cale
Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher (Nacional).
Ligue 190: Brigada Militar (Emergências).
WhatsApp Polícia Civil (RS): (51) 98444-0606.
Delegacia On-line: www.delegaciaonline.rs.gov.br
Apoio: Movimento Virada Feminina - Siga @viradafeminina.rs
ASSISTA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA EM https://www.youtube.com/watch?v=z8BJGykSIqM













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