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Você está vivendo ou cumprindo protocolos sobre como viver bem?

Foto do escritor: temporacomunicacao
temporacomunicacao
há 5 horas
4 min de leitura

COLUNA DA PSICÓLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Em que momento deixamos de nos perguntar como estamos vivendo e passamos a nos preocupar com o quanto estamos conseguindo viver?


Vivemos em uma sociedade que não apenas valoriza a produtividade, mas que progressivamente estendeu sua lógica a dimensões da existência que antes estavam menos submetidas a critérios de desempenho. Trabalhar, estudar, descansar, viajar, cultivar relacionamentos e até cuidar da saúde emocional passaram a integrar uma espécie de administração permanente da própria vida.


Não basta viver experiências: parece necessário acumulá-las, registrá-las e demonstrar que estamos aproveitando suficientemente o tempo disponível. Esse fenômeno revela uma contradição contemporânea: quanto mais somos incentivados a aproveitar a vida, mais podemos experimentar a sensação de que estamos vivendo menos do que deveríamos.


Na psicologia, a Teoria da Autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, ajuda a compreender parte desse processo. Segundo essa perspectiva, a qualidade da motivação depende, entre outros fatores, da experiência de autonomia. Quando atividades inicialmente motivadas pelo interesse e pelo prazer passam a ser conduzidas por exigências externas ou cobranças internalizadas, sua qualidade subjetiva pode se modificar. Aquilo que antes representava uma escolha espontânea transforma-se em compromisso, desempenho ou obrigação. Logo, eu não faço mais pelo simples fato de me gerar prazer, mas porque eu preciso me mostrar produtivo – para mim ou para os outros – o tempo todo.


É o que acontece quando a leitura precisa cumprir metas, a atividade física deixa de ser uma experiência corporal para se tornar uma cobrança incessante, ou quando um hobby passa a exigir regularidade, resultados e evolução constante. O problema não está em estabelecer objetivos, mas na dificuldade de reconhecer que nem toda experiência humana precisa justificar sua existência por meio de alguma utilidade. Fazer nada tem sido cada vez mais preciso, mas cada vez mais difícil de compreender e executar.


A lógica da produtividade também modifica nossa relação com o tempo. Encontramos na internet, atualmente, diversas pesquisas sobre atenção, percepção temporal e memória que indicam que a maneira como vivenciamos e recordamos os acontecimentos depende de fatores como envolvimento atencional, novidade e organização das experiências. Quando a rotina é marcada por sobrecarga, fragmentação da atenção e sucessão contínua de tarefas, podemos atravessar os dias sem elaborar suficientemente aquilo que vivemos. O tempo cronológico permanece o mesmo, mas nossa experiência subjetiva de sua passagem se altera. Talvez por isso tantas pessoas descrevam a sensação de que a vida está passando depressa demais, mesmo quando seus dias parecem intermináveis.


As redes sociais acrescentam outra dimensão a esse cenário. Os mecanismos de comparação social encontram hoje um ambiente de exposição praticamente contínua. Não comparamos apenas conquistas profissionais ou condições materiais, mas também a intensidade das experiências, a qualidade dos relacionamentos, os momentos de lazer e até a maneira como cada pessoa parece encontrar felicidade. A vida alheia, apresentada por recortes selecionados, pode se transformar em parâmetro para avaliar uma existência que conhecemos por inteiro, inclusive em suas dificuldades, repetições e períodos de aparente estagnação.


Nesse contexto, surge uma ansiedade particular: a de estar sempre perdendo alguma coisa. O medo de ficar de fora de algo, de não se sentir pertencente, pode estimular uma busca incessante por experiências, não necessariamente porque elas sejam desejadas, mas porque sua ausência parece representar uma oportunidade desperdiçada.


Paradoxalmente, a tentativa de aproveitar tudo pode comprometer justamente a capacidade de experimentar satisfação com aquilo que já está sendo vivido. A atenção se desloca do presente para a próxima possibilidade, a próxima conquista, a próxima experiência. O que foi alcançado rapidamente perde espaço para aquilo que ainda falta.


É importante compreender que essa dinâmica não resulta apenas de dificuldades individuais de organização ou de escolhas pessoais. Ela também reflete condições sociais que associam valor humano a desempenho, disponibilidade, atualização e capacidade de realização. Quando essas exigências são internalizadas, o descanso pode produzir culpa, a tranquilidade pode ser interpretada como estagnação e os períodos sem grandes acontecimentos passam a ser percebidos como sinais de uma vida insuficiente.


Talvez uma das questões psicológicas mais importantes do nosso tempo não seja como aproveitar melhor cada minuto, mas por que desenvolvemos tamanha dificuldade em aceitar que alguns minutos não precisam ser aproveitados como se aprendeu que deveriam ser.


Uma vida emocionalmente significativa não se constrói exclusivamente pela quantidade ou intensidade das experiências, mas também pela possibilidade de atribuir sentido a elas, reconhecer os próprios limites e sustentar escolhas que não dependam continuamente da aprovação externa. Afinal, quando tudo precisa ser vivido intensamente, até o prazer corre o risco de se tornar exaustivo. E talvez estejamos tão preocupados em não desperdiçar a vida que já não conseguimos perceber o quanto dessa vida estamos efetivamente experimentando. É um exercício constante se permitir compreender que a vida real é a vida comum, a estabilidade, a continuidade. É o que mais nos gera segurança. E que, para viver bem, não precisam existir fenômenos sempre extraordinários. A vida é grandiosa na sua subjetividade, não através da quantidade de coisas a fazer.


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