A festa revela presenças, a guerra revela lealdades
- temporacomunicacao
- há 1 dia
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Só permanece quem já aprendeu a ir embora.
O paradoxo não é jogo retórico. É lei antiga. Quem nunca soube partir confunde apego com lealdade e dependência com amor. Permanecer, quando é virtude, nasce da liberdade. É escolha consciente, não reflexo. É honra, não carência.
A esperança que sobrevive depois disso já não é juvenil. Ela não acredita em promessas fáceis nem em finais edificantes. É uma esperança fatigada, mas lúcida. Uma fé sem ingenuidade. Não exige garantias. Apenas se recusa a desertar.
O tempo é um pedagogo severo. Ele separa com precisão quase cruel os entusiastas dos leais. Entusiasmo é abundante. Lealdade é rara. O primeiro vibra com a possibilidade. O segundo suporta a realidade.
Um comparece quando o cenário favorece. O outro permanece quando tudo recomenda retirada.
Vivemos cercados de gente que ama o riso, a mesa cheia, o copo erguido.
Nada contra.
A festa é legítima. O problema começa quando ela vira critério de vínculo. Afeto que depende de alegria é recreação. Parceria se prova no desgaste.
Lealdade se revela no avesso do espetáculo. No dia opaco. Na conversa difícil. Na repetição exaustiva das mesmas dores.
Lealdade é aceitar o outro quando ele não tem nada de atraente para oferecer. Quando está cansado, confuso, ferido, contraditório. Quando conviver deixa de ser prazer e passa a ser compromisso.
Há quem esteja ao teu lado apenas enquanto é conveniente estar. E há quem fique quando já não é. Quem não recua quando o cenário se torna árido. Quem aceita a travessia mesmo sabendo que não haverá aplauso. Esse conhece teu valor antes que o mundo o reconheça.
Quem enfrenta uma guerra por você não o faz por bravata, mas por fidelidade a algo mais alto do que o próprio conforto. Não luta por vitória. Luta por princípio. E princípios custam caro demais para os que vivem de ocasião.
Essas presenças não fazem alarde. Não pedem garantias. Não exigem retorno imediato. Permanecem com uma dignidade quase desconcertante. Sabem que talvez nunca sejam escolhidas. E ainda assim ficam. Não por ingenuidade, mas por caráter. Por uma ética que não depende de recompensa.
Curioso como quase ninguém aprende a reconhecer esse valor enquanto ele está ali. Aprende-se a admirar intensidade, não constância. Aprende-se a desejar o que excita, não o que sustenta. Confunde-se urgência com profundidade. E assim se constrói uma vida ruidosa, cheia de gente, mas pobre de amparo.
Poucos fazem o exercício honesto de imaginar a própria existência sem alguém assim. Sem quem veja além da performance. Sem quem permaneça quando o mundo aperta, quando as certezas falham, quando o cansaço vence. Só então se percebe que não se tratava de companhia. Tratava-se de sustentação. Não era festa. Era aliança.
Amizade e amor, quando não são caricatura, operam em outro plano. Há neles algo de transmutação silenciosa. Uma alquimia paciente, antiga, quase ascética. Transformam espera em virtude. Dor em maturidade. Silêncio em elo. Não prometem êxtase. Oferecem chão.
É esse tipo de presença que merece ser visto quando tudo é treva. Porque na escuridão não se revelam os mais intensos, mas os mais íntegros. Não os que brilham, mas os que sustentam.
No fim, quando o ruído se dissipa e sobra apenas a travessia diária, não são os que celebraram conosco que definem nossa história. São os que permaneceram quando ficar exigia coragem, silêncio e honra.
Todo o resto é ruído.















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