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Nova Era e a arte de dinamizar a vontade

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    temporacomunicacao
  • há 9 horas
  • 4 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. É o CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana. Se autodenonima um peripatético quixotesco.
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. É o CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana. Se autodenonima um peripatético quixotesco.

Manhã de sexta-feira. 6 de fevereiro. Enquanto estas linhas se deixam grafar, como sempre enquanto trabalho, há música. Nova Era, do Angra,  ressoa ao fundo. Épica canção do disco Rebirth. E a música que vibra e me faz até mexer os ombros enquanto digito, não ressoa como acompanhamento, mas como um rumor metafísico, que se infiltra no pensamento e o obriga a caminhar mais lentamente, como quem pisa em solo consagrado.


A música não pede adesão emocional. Ela convoca. Há nela um chamado quase gnóstico, uma promessa de transição interior que não se oferece ao ingênuo nem ao apressado. Hoje vivo profissionalmente uma Nova Era. A Tempora Comunicação. O Pauta Serrana. Bem ladeado pela minha sócia Aline Cris Ambrosi e pela nossa representante comercial Paula Machline Carrion.


Estamos lutando por sonhos na Nova Era.


Empreender, visto sob lente menos vulgar, não pertence ao vocabulário do progresso, mas ao da ascese.


É prática iniciática.


Um exercício reiterado de renúncia ao conforto do previsível.


O empreendedor não é, como gostam de repetir os catecismos contemporâneos, um otimista profissional. Bullshit. Ele é, antes, um trágico disciplinado. Sabe que a queda é estatisticamente mais provável que a vitória, mas ainda assim escolhe avançar.


Eis o ponto de contato com o bushido autêntico, aquele que não prometia recompensa, apenas retidão. Pratico artes marciais desde os 5 anos de idade, quando coleguinhas me puxavam os cabelos longos que eu ostentava e meu pai, professor de Judô e Karatê, resolveu me ensinar formas de aconselhar eles a não fazer mais isso. Mae Geri. Oisuki. Gyaku Suki, Mawashi geri, Ippon Seoi Nage. Osoto Gari. Enfim, pra quem não sabe, isso são golpes marciais. Mas logo descobri que as artes marciais não são apenas chutes e socos, projeções, torções e imobilizações. São apenas um elemento do Caminho do Guerreiro, o Bushido.


Caminhar direito mesmo quando o mundo inteiro parece torto. Especialmente então.


Não tem roteiro nesta coluna, é uma reflexão solta ao som de Metal Melódico. Então, voltamos à Nova Era. A letra da canção fala de anjos decaídos que se erguem das cinzas. Convém ler isso com a gravidade de quem já viu ideias morrerem. Sonhos se espatifarem, espectativas serem despedaçadas. Cinzas não são metáfora delicada. São o resto último da combustão.


Todo projeto sério atravessa essa fase crematória, em que expectativas, vaidades e certezas ardem juntas. A pedagogia da putrefação. A matéria só se reorganiza depois de perder a forma anterior. O fracasso é uma lição escrita em linguagem áspera, mas raramente inútil. E isso nos forja, porque a boa espada é feita com aço puro, mas precisa de fogo e porrada pra ganhar forma.


Branding, palavra nova para uma noção antiquíssima, é apenas o prolongamento simbólico da honra. Não se edifica marca. Consolida se caráter ao longo do tempo, sob a vigilância impiedosa do mercado, que tudo observa e nada perdoa.


Vejo tudo isso como uma arquitetura mental. A filosofia estoica, menos afeita a ornamentos, diria apenas que se trata de governar aquilo que depende de nós. O resto, fortuna, acaso, aceitação alheia, pertence à esfera do indiferente.


Há, entretanto, um elemento que nenhum sistema racional consegue domesticar por completo. O amor. Amor pleno, amor devotado, amor que se lança sobre uma ideia como quem se lança num abismo confiando mais no salto do que no chão.


Amar um projeto é aceitar ser traído por ele. É saber que o retorno pode nunca vir, e ainda assim persistir. Os antigos chamariam isso de virtude. Os místicos, de prova iniciática. Os modernos tentam reduzi-lo a engajamento, mas falham miseravelmente. E eu acredito que tudo sempre dará certo, porque não existem barreiras que digam "daqui não passarás" a uma pessoa de espirito puro e vontade dinamizada


A figura quixotesca se impõe em mim quase por necessidade lógica. Não o louco caricatural, mas o homem que se recusa a pactuar com o cinismo dominante. Não ignoro o riso alheio, apenas não o considero critério de verdade.


Todo empreendedor digno desse nome carrega algo dessa demência lúcida. Vê possibilidade onde há escárnio. Insiste onde o consenso manda recuar. E paga o preço social disso, que não é pequeno. Mas sempre vale à pena.


Quando a música insiste em falar de uma passagem mental, convém ouvi-la como advertência, não como promessa.


Não há Nova Era externa, histórica, coletiva, que venha resgatar o indivíduo de sua própria responsabilidade.


Toda era nova começa num movimento íntimo, quase invisível, em que alguém decide não se render ao desgaste da repetição vazia. O mundo muda depois, se mudar. Isso é detalhe.


A canção segue. O texto também.


E entre ecos de honra, cinzas férteis e uma ironia contida, necessária para não sucumbir à solenidade excessiva, resta essa constatação incômoda e antiga. Continuar, quando tudo aconselha a desistência, é um ato raríssimo de elegância moral. E talvez seja isso, apenas isso, que mereça ser chamado de Nova Era.


Eu dou risada.


Mas do que eu dou risada?


Apesar de toda essa gravidade que nos ronda como uma sotaina mal passada, convém rir. Porque se é verdade que o mundo insiste em cair aos pedaços, também é verdade que ele tem uma estranha tendência a continuar funcionando, ainda que mal explicado. E mal frequentado.


O otimista sério não é o ingênuo, mas o sujeito que, consciente do absurdo geral, escolhe agir mesmo assim. Há uma alegria secreta, travessa, de quem sabe que nada é garantido e, justamente por isso, tudo ainda é possível.


O fracasso não é sentença. O ridículo é apenas o pedágio da ousadia. Seguir adiante, com alguma elegância e uma pitada de humor, é a mais sofisticada forma de rebeldia. Afinal, se o mundo insiste em ser caótico, o mínimo que podemos fazer é enfrentá lo com inteligência, coragem e um sorriso discretamente irônico no canto da boca.

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