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A guerra dos ovos e o Brasil liliputiano

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 3 de jul.
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Na minha infância e adoleslência,  As Viagens de Gulliver exerciam sobre mim um fascínio que só os livros iniciáticos são capazes de exercer. Dormia com Swift à cabeceira e despertava com Liliput no pensamento. Como não reverenciar um autor que, com fina ironia, escarnecia dos monarcas, das religiões de gabinete, dos soldados autômatos e dos burrocratas empoados, todos mergulhados numa querela sobre qual extremidade do ovo deveria ser rompida?


Liliput e Blefuscu guerreavam por essa razão. Um sustentava que o ovo se abre pela extremidade mais larga. O outro, pela ponta mais estreita. Ambos consumiam o mesmo ovo. Ambos adoravam a mesma fé. A cólera, no entanto, residia na forma, jamais no conteúdo.


E eu, quando escrevi o romance Agentes do Binário, abordei justamente isso, uma saga onde uma distopia de extremos se digladia pelo monopólio da verdade, vejo nessa parábola uma representação cabal do Brasil contemporâneo. Ou talvez da própria condição humana, essa entidade tão ciosa de suas certezas e tão refratária à dúvida.


Estamos imersos num tempo em que o apreço por um artista converte-se em ato político. Como se uma melodia não mais pudesse emocionar se o compositor professa ideologias distintas. Como se a beleza de um quadro fosse maculada pelas imperfeições morais do pintor. Como se a arte, essa morada última da liberdade, devesse submeter-se aos caprichos das trincheiras ideológicas.


Pois eu, Diego Franzen, sou homem livre. Livre para admirar a música, o cinema, a pintura, o teatro e a dança de quem bem quiser. Livre para comungar da arte e, concomitantemente, divergir de seus criadores. Amar a arte exige maturidade. E neste tempo de infâncias prolongadas, ser maduro é quase uma afronta.


Não odeio quem pensa diferente. Não me somo às milícias do cancelamento nem às seitas do endeusamento. Luto, sim, contra os preconceitos, as tiranias, as injustiças, as imposturas. Mas não abdico da razão em nome da fúria.


Recuso-me a enxergar o mundo como um campo binário onde só existem heróis e vilões. A vida não é um código binário. É paleta. É aquarela. É ambiguidade. Saltar de um extremo a outro não rompe o binarismo. Apenas perpetua a ilusão de que a outra margem é mais pura, mais justa, mais iluminada.


E assim seguimos, como liliputianos com perfis verificados, discutindo se a liberdade se há de exercer pela esquerda ou pela direita do ovo. E nesse cisma pueril, perdemos o gosto pelo diálogo, o sabor da dúvida, a textura do pensamento complexo. Chamamos de traidor aquele que ousa pensar com cabeça própria. Confundimos convicção com servilismo. Repetimos slogans como se fossem orações e ainda nos declaramos livres.


Jonathan Swift, espírito do século XVIII, satirizava a insensatez das nações ditas civilizadas. Eu, cronista do século XXI, observo a guerra de irmãos que, enquanto discursam sobre amor à pátria e liberdade, afiam lanças de ressentimento contra o espelho do outro. Não há rei em Liliput que suplante um influenciador magoado. Não há general em Blefuscu mais cruel que um ex-amigo de rede social.


Mas sigo.


Escrevendo com a serenidade de quem já contemplou o sol nascendo de todos os lados do ovo.


Sigo lutando, sim.


Pela justiça, pela beleza, pela liberdade de espírito, por um mundo mais justo e mais lírico.


Mas não empunho armas contra o dissenso. Não guerreio por minúcias. Porque aprendi, com Swift e com a vida, que os homens se destroem mais pelo método do que pela causa.


A minha missão, enquanto homem de letras e de espírito, é lutar por honra, dignidade e combater a tirania, os preconceitos e os erros. E, por esse caminho, empenhar-me por um mundo mais justo e perfeito. Porque há vocações que não se escolhem. Apenas se reconhecem. E certos princípios, uma vez incorporados à alma, tornam-se norte, espada e estandarte.


E talvez, apenas talvez, a verdadeira revolução comece quando cessarmos, enfim, essa guerra estéril de cascas.


Diego Franzen é jornalista, escritor autor de 14 livros. CEO e fundador do Portal Pauta Serrana e da Agencia Tempora de Comunicação
Diego Franzen é jornalista, escritor autor de 14 livros. CEO e fundador do Portal Pauta Serrana e da Agencia Tempora de Comunicação

1 comentário


Luigi Gomes
Luigi Gomes
04 de jul.

Mais uma crônica espetacular! Meu amigo Diego traduz, como poucos, o frenesi aparentemente perene em que vivemos. Esta daqui vai direto para meus alunos. Obrigado por nos brindar com sua argúcia, e estamos ansiosos para o próximo.

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