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A Honra em um Mundo de Idiotas Convictos

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    temporacomunicacao
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. É o CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. É o CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

Quando se fala em cavalheirismo, a imaginação coletiva costuma recorrer a fantasias gastas pelo tempo. Um cruzado com espada em punho, um cavalo altivo avançando contra o horizonte, um elmo reluzente ocultando o rosto ou algum lord genérico, educado demais para ser real. Essas imagens servem ao folclore e ao entretenimento, não à compreensão.


O cavalheiro não pertence ao passado nem ao figurino. Ele é uma postura existencial. Um modo de atravessar o mundo sem se dissolver nele.


Evocar as antigas Ordens de Cavalaria não é capricho histórico nem nostalgia romântica. Os Cavaleiros Templários, por exemplo, não eram admitidos pelo vigor físico, mas pela retidão do caráter. Gentileza sem afetação, cortesia sem submissão, civilidade como hábito e honra como eixo estruturante da vida. A fé, ali, não era discurso inflamado nem espetáculo público. Era disciplina interior, silêncio operante, fidelidade ao que não se negocia.


Virtudes assim não caducam. Apenas se tornam raras.


Há, contudo, uma distinção que precisa ser enunciada com clareza quase incômoda. Não entre homens e meninos, mas entre homens e piás.


O piá não amadurece. Apenas envelhece. Sua existência gira em torno do ruído, da bebida sem prazer, da fala vazia travestida de opinião e da música ruim em volume estridente, como se o barulho pudesse preencher o que lhe falta por dentro. Vive de impulsos, reage sem reflexão e transforma qualquer frustração em vitimização estratégica. Manipula afetos com a destreza típica do narcisismo raso e ressentido. Incapaz de governar a própria vida, tenta controlar o ambiente. Confunde intensidade com sentido, excesso com liberdade e caos com autenticidade.


O cavalheiro aprende cedo uma regra simples e severa. Não se tomam decisões sob o domínio da raiva. Não se fazem promessas no auge da euforia. Emoções extremas são péssimas conselheiras e excelentes sabotadoras.


Por isso, ele sabe calar seus sentimentos nas horas erradas. Não os expõe quando está ferido, nem quando está embriagado de felicidade. Compreende que palavras ditas nesses estados podem ferir a si mesmo, atingir os próximos e produzir danos que nem o tempo repara.


O silêncio, aqui, não é covardia nem omissão. É responsabilidade moral.


O menino, porém, é outra matéria. Ele não é piá. O menino sonha. O menino imagina mundos possíveis, acredita em ideais e caminha em direção a algo maior do que si mesmo. Ele não se refugia no cinismo nem se acomoda na mediocridade barulhenta. É desse menino que nasce o homem. E todo verdadeiro cavaleiro carrega esse menino em sua essência, não como ingenuidade, mas como chama. Ele o disciplina, não o elimina. Preserva sua capacidade de maravilhamento, sua vocação para o sentido e sua fidelidade ao sonho.


Sem esse menino interior, o adulto se torna apenas um piá funcional, socialmente adaptado e espiritualmente oco.


Vivemos tempos em que a pressa matou a elegância e a ganância se disfarça de mérito. Muitos passaram a medir valor pelo que acumulam e não pelo que preservam.


Para subir, escolhem destruir. Para aparecer, escolhem rebaixar. Para exercer poder, escolhem o atalho. Mas o poder, quando não é governado, escraviza. E quase ninguém percebe o instante exato em que deixa de ser portador e passa a ser servo.


É aqui que o valor se revela.


Todo homem pode ser herói por um instante, movido pela adrenalina, pelo acaso ou pela necessidade. Alguma convergência cósmica ou pelo apontar momentâneo de um dedo metafísico. O cavalheiro, porém, não depende de circunstâncias. Ele não é episódico. Ele é contínuo. A honra não se manifesta em lampejos, mas em constância. Ser cavalheiro não é um feito ocasional, é uma condição permanente. Ou se é, todos os dias, ou jamais se foi.


Volto, então, à honra. Um cavalheiro não precisa provar nada. Ele é.


Possui identidade, estilo e uma retidão silenciosa que dispensa testemunhas. Aprecia o que conquistou com esforço próprio e não sente necessidade de ostentar vitórias.


Sua palavra é lâmina. Afia-se no silêncio e só corta quando há razão. Não se envolve em intrigas, não se alimenta do veneno da mediocridade, não desperdiça linguagem. Tem classe, persuasão e uma qualidade hoje quase subversiva chamada amor.


Amar, aqui, não é espetáculo emocional nem moeda de troca. É responsabilidade. Amar o trabalho, a família, os amigos, a cultura, o cotidiano, a espiritualidade e, às vezes, amar em silêncio.


Há afetos que exigem presença firme e respeito pelo tempo do outro. Nem todo sentimento precisa ser anunciado para ser verdadeiro. Algumas relações não pedem urgência nem posse. Pedem honra. E isso, em um mundo de idiotas convictos, é um gesto profundamente revolucionário.


Que esses princípios antigos e sempre atuais orientem nossos gestos, palavras e escolhas.


Que sejamos capazes de atravessar um mundo ruidoso sem nos tornarmos parte do ruído.


Porque ainda é possível ser um cavalheiro. E talvez essa seja a forma mais elegante de resistência.

1 comentário


Decimar Biagini
Decimar Biagini
há 2 dias

Ter a grandeza de um menino. Mote essencial e raro!

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