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Os pusilânimes e o caminho dos sonhos

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    temporacomunicacao
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana


O caminho dos sonhos não foi talhado para os pusilânimes, nem para os especialistas em adiar a própria vida. Ele exige têmpera, uma inclinação quase aristocrática para o risco e certa insolência ontológica contra o medo.


Sonhar não é delicadeza. É afronta. Um gesto que tenta converter a matéria grosseira do cotidiano em sentido, sabendo de antemão que a operação cobra sangue, vaidade e conforto.


A maioria desiste cedo. Não por falta de capacidade, mas por excesso de apego. Descobrem que o fogo necessário para a transmutação não aquece apenas. Ele consome. E quase ninguém está disposto a perder versões antigas de si mesmo.


A vida é breve. Não breve no sentido poético e indulgente, mas breve como um lapso. Um clarão que irrompe, ilumina por um instante e logo se extingue, levando consigo o eco e a importância que imaginávamos ter. O que permanece é um silêncio progressivo. E, enfim, se encerra.


O tempo não é sábio. É indiferente. Não negocia, não se comove, não aguarda maturação emocional. Enquanto organizamos sentimentos, justificamos medos e ensaiamos discursos, ele avança com serenidade cruel. Ele sempre chegará primeiro. E nesse avanço contínuo, elimina não apenas corpos, mas destinos possíveis.


Morre o que não foi dito.


Morre o que não foi vivido.


Morre o amor tratado como hipótese remota, como se a vida fosse um rascunho eterno à espera de versão final.


Nenhuma obra se completa sem decomposição. A fase sombria, é obrigatória. Tudo precisa apodrecer antes de adquirir outra forma. É o estágio da dissolução, da vergonha, do colapso das ilusões.


Os fracos chamam isso de fracasso. Os raros reconhecem ali o início do real.


Dizer a uma pessoa o quanto ela é importante é um ato de magia primordial. Palavra dita no tempo exato possui força operativa. Palavra engolida torna-se matéria pútrida.


Guardar afeto por medo de rejeição é um gesto que beira o ridículo. É esconder ouro acreditando que o tempo será misericordioso.


Não será. O ouro perde valor. O tempo cobra juros.


A morte não se apresenta apenas no fim. Ela se infiltra com educação. Está na conversa adiada, no afeto racionado, na coragem constantemente protelada.


Não é trágica. É burocrática. E, por isso, mesmo devastadora.


Persistimos na crença pueril de que sempre haverá outra oportunidade. Outro momento. Outra chance mais adequada.


Não haverá.


O relógio do mundo não reconhece nossas inseguranças como atenuantes.


Também é preciso dizer que há existências consumidas pela vigília de algo que não vem. O tempo passa, o corpo envelhece, as circunstâncias mudam, e seguimos imóveis, fixados numa miragem que nunca se materializa.


Enquanto isso, a vida acontece à revelia, sem plateia. Por isso, penso que abandonar certos sonhos não é fracasso. É compreender que algumas renúncias não empobrecem a alma, mas a engrandecem, porque libertam espaço interior para aquilo que ainda pode, de fato, acontecer.


Carregamos uma linhagem inteira nos ombros. Somos a consequência direta de escolhas feitas por mãos que jamais conheceremos. Pais, avós, ancestrais atravessaram guerras externas e colapsos íntimos para que estivéssemos aqui. Honrar esse legado não é apenas permanecer vivo. É viver com densidade ética, com entrega estética, com verdade brutal. Viver de modo que a vida não passe incólume por nós.


Há quarenta dias perdi minha mãe. E com ela ruiu parte da arquitetura interna que me sustentava. A ausência dela não é dramática. É estrutural. Manifesta-se nos pequenos rituais, nos silêncios domésticos, na constatação diária de que agora sou eu quem deve saber.


Também sinto a falta do meu pai. Uma saudade que não se atenua. Apenas se refina, como um vinho antigo que perde a doçura fácil e ganha severidade.


Ainda assim, não há vazio absoluto. Há herança. O amor recebido não se extingue.


Ele se transmuta, como toda substância nobre. Circula em mim. Permanecerá nos meus filhos. E nos filhos deles. Não como lembrança sentimental, mas como estrutura invisível.


Talvez por isso insistir em viver seja um ato heroico. Não o heroísmo ornamental dos discursos edificantes, mas o heroísmo silencioso de quem aceita tentar ser feliz sem garantias, sem seguros emocionais, sem promessas assinadas.


Proteger o coração não pode significar embalsamá-lo.


A paz verdadeira nasce quando abandonamos a ilusão infantil de controle e aceitamos que o afeto alheio não nos pertence, nunca pertenceu, nunca pertencerá.


Amadurecer é aceitar que a vida continua. Com ou sem aplausos. Com ou sem companhia. Com ou sem amor. Implacável. Surda às nossas hesitações morais. E compreender que é justamente nessa indiferença que reside a possibilidade de serenidade. A paz nos encontrará quando deixarmos de criar expectativas sobre aquilo que não controlamos.


Quando deixamos que pensem o que quiserem. Quando cessamos a mendicância por validação. Quando escolhemos a dignidade austera do silêncio fértil em vez do histerismo da expectativa.


Toda união exige um princípio superior. Força, vontade ou razão são impotentes diante do que já se partiu.


No fim de todas as obras, depois de todo o fogo e de toda a perda, resta apenas uma verdade antiga, dura e incontornável. Não há laço capaz de unir o dividido, senão o amor.


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