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A Magnífica Arte de Não se Ouvir

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 30 de out.
  • 2 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Desde que o ser humano descobriu que podia emitir sons e organizar ideias, começou também a usar a palavra como instrumento de dominação e vaidade. A fala, prometida para unir, logo se tornou arma.


O diálogo, concebido como ponte entre mentes, foi transformado em monólogo de soberbas.


Nos primórdios mesopotâmicos, os sumérios alertavam uns aos outros sobre cheias iminentes, mas o vizinho, convicto de suas certezas e na fé do oráculo da esquina, preferia ignorar os sinais. O resultado foi um naufrágio coletivo de lama e presunção.


Os gregos, inventores da filosofia e da democracia, debatiam virtude, justiça e verdade, mas terminaram condenando Sócrates, patrono daqueles que falam demais e pagam caro por isso. Roma herdou a retórica, mas trocou a razão pelo ego, transformando o Senado em arena de exibicionismo verbal.


A Idade Média seguiu pelo mesmo caminho, usando a fogueira como método pedagógico infalível para eliminar o contraditório. Perguntar “e se Deus não quiser?” era convite à combustão instantânea.


No Brasil, a comédia atingiu proporções trágicas. O “diálogo” entre colonizadores e indígenas se reduziu a ordens e silêncios filosóficos, e o país nasceu entre gritos, capitanias e confusões.


A proclamação da República, celebrada como epopeia cívica, instalou uma ditadura velada sob o verniz da liberdade. Desde então, o país viveu três ditaduras, um aumento estrutural da desigualdade social e crises que se sucedem sem trégua. A República, longe de libertar, apenas trocou coroas por elites que se sucedem, mantendo privilégios e perpetuando injustiças.


A abolição da escravatura, longe de ser redenção, foi ato de crueldade institucional. Milhares de negros foram simplesmente lançados à sorte, desamparados, desprovidos de terra, trabalho ou educação.


O resultado é um racismo ainda enraizado e preconceitos que atravessam gerações. A sociedade machista e patriarcal consolidou-se, mantendo mulheres e minorias subjugadas e privadas de voz, enquanto a elite continuava a ditar as regras do jogo social.


O Brasil moderno mantém a tradição do monólogo tropical. Dom Pedro I proclamava “Independência ou Morte” para um país que não havia sido consultado, e a República substituiu o rei por novos senhores, mantendo os muros de privilégios.


As crises se sucedem, o abismo social cresce, e o cidadão, cercado de discursos vazios, acredita participar do debate civilizatório enquanto apenas repete slogans em redes sociais.


Hoje, a tecnologia nos dá a ilusão de diálogo.


Cada indivíduo acredita debater civilização, mas só coleciona certezas dentro da própria bolha digital. Satélites, microchips e algoritmos sofisticados nos conectam, mas não nos fazem escutar. O ruído substituiu a reflexão, e o diálogo tornou-se relíquia moral.


Ainda assim, há quem insista. Há quem acredite que conversar é mais subversivo do que berrar. Ouvir é quase heresia em tempos de soberba generalizada. Pensar antes de responder é gesto de aristocracia rara, resistência estética contra o automatismo da intolerância.


A civilização talvez recomece quando aprendermos a falar sem gritar e a escutar sem planejar a réplica. Até lá, seguimos erguidos sobre pedestais de convicção, construindo muros com tijolos de certeza.


Os poucos que ainda sabem dialogar continuarão edificando pontes invisíveis entre consciências, enquanto o resto da humanidade se ocupa em medir a altura do próprio muro.


Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 16 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 16 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

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