A Memória e o Legado Verissimo
- temporacomunicacao
- 30 de ago.
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Coluna de Diego Franzen

Em 2005, no centenário de Érico Verissimo, eu atuava no jornalismo em Cruz Alta, minha terra natal e também a terra dele. Ali estava eu, um repórter do Diário Serrano cheio de sonhos e ambições, ilusões e conflitos existenciais. E naquele instante contemplei. A foto tirada pelo saudoso amigo Renoir Sampaio, da Zero Hora, eternizou um momento em que estive diante de um ídolo.
Era como se a cidade inteira, com suas ruas largas e seu vento do pampa, tivesse se transformado em personagem de um romance. Ali, entre memórias de O Tempo e o Vento e a reverência a quem nos ensinou a olhar o Brasil como um palco de epopeias e fragilidades, eu registrei em fotografia um encontro que para mim continua sendo uma cena literária: eu, ao lado de Luis Fernando Verissimo.
Érico me ensinou que a grandeza pode nascer da simplicidade de uma cidade interiorana; Luis Fernando mostrou que a ironia é talvez a forma mais séria de se falar do mundo. Foi ele quem fez da crônica um gênero tão íntimo quanto uma conversa de bar, onde As Mentiras que os Homens Contam têm mais verdade do que qualquer tratado filosófico. Quem nos mostrou que a música pode ser uma história e que O Clube dos Anjos também é uma parábola sobre a vida, esse banquete que sempre nos deixa com fome.
Ambos me empurraram para a escrita, mas foi Luis Fernando, com seu humor terno e cruel, quem me ensinou a rir das próprias pretensões. Como esquecer a fina ironia de Comédias da Vida Privada, onde cada gesto cotidiano se revela trágico e sublime ao mesmo tempo? Ali aprendi que literatura não precisa vestir toga: pode usar bermuda, pode gargalhar da própria sombra e, ainda assim, ser maior que qualquer monumento.
Foram eles que me deram coragem de assumir a pena, e por isso, hoje, posso olhar para trás e ver quinze livros escritos como quem vê quinze tentativas de conversar com meus mestres. Um diálogo que nunca se esgota, que me acompanha em cada palavra.
A foto de 2005, em Cruz Alta, tornou-se um relicário. Não apenas a lembrança de um instante, mas o símbolo de que a literatura é uma herança partilhada. E cada vez que volto a ela, penso em Érico erguendo a saga de um povo, e em Luis Fernando desmontando o mesmo povo com uma frase de duas linhas. Entre a epopeia e a crônica, entre o romance e a piada, eles me ensinaram a buscar meu lugar.
E é por isso que escrevo. Porque, ao fim, talvez seja esse o maior legado dos Verissimo: fazer de cada leitor um cúmplice, e de cada escritor um aprendiz eterno.
E hoje, ao recordar aquele encontro em Cruz Alta, deixo aqui a confissão que nunca lhes fiz: se escrevo, se ouso, se insisto, é porque vocês me ensinaram que a vida pode ser tanto Incidente em Antares quanto Ed Mort, tanto tragédia quanto chiste, tanto lágrima quanto gargalhada. Obrigado, mestres.
Obrigado, Érico. Obrigado, Luis Fernando. Cada palavra que escrevo ainda é uma tentativa, tímida e sincera, de lhes devolver a honra de ter sido tocado por sua literatura.















Quando os Mestres Partem
O sofrer se dissolve no instante
pois ao tempo pertence o tormento
quem domina o relógio vacilante
vence a despedida num ate logo ao vento
O saber se transmite em caminho
mas a sábia centelha é vivida
não se dá como fruto ao vizinho
ela é chama que arde em subida
Mestre algum pode pôr em palavras
as lições que na alma são lavras
Palavras não têm cor nem dureza
nem perfume, nem gosto, nem forma
não me servem, carecem de beleza