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A origem do Mito da Sexta-feira 13

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    temporacomunicacao
  • há 12 horas
  • 3 min de leitura

POR DIEGO FRANZEN



A humanidade tem uma necessidade quase biológica de encontrar culpados para o caos. O mundo é um lugar desarrumado, bruto e, muitas vezes, absolutamente aleatório. Como não suportamos a ideia de que o azar é apenas um sorteio estatístico onde ninguém segura o globo, inventamos símbolos.


E nenhum símbolo é tão eficiente quanto a sexta-feira 13.


Hoje o calendário nos encara com essa combinação que faz o sujeito mais cético desviar de escadas e olhar com desconfiança para o gato preto da vizinha. Coitados dos felinos.


Pagam o preço da ignorância do homo sapiens com o estigma da maldição, quando, na verdade, são apenas bichos elegantes que não dão a mínima para as nossas neuroses calendárias.


O medo é pedagógico, eu sempre digo. Em casa, com meus filhos, temos o ritual da sexta do terror. Pipoca, luz apagada e filmes de qualidade duvidosa. Ali, o susto é controlado. Aprendemos que o monstro, quando tem trilha sonora e créditos finais, é suportável.


O problema é o monstro que não usa máscara de hóquei.


A implicância começa com o número. O doze é o senhor da razão. São doze meses, doze signos, doze apóstolos, doze horas no relógio. O doze organiza a vida, dá aquela sensação de que o universo cabe em uma caixa de ovos, tudo encaixado e simétrico.


O treze é o intruso. É aquele convidado que chega na festa sem ser chamado, senta na cabeceira e desarruma a mesa. Ele rompe a harmonia.


Na mitologia nórdica, o banquete em Valhala tinha doze deuses até que Loki, o espírito da discórdia, apareceu para ser o décimo terceiro. O resultado foi a morte de Balder, o favorito.


Na Santa Ceia, eram doze à mesa até que o décimo terceiro se revelou o traidor.


O ser humano olha para o treze e enxerga o excesso, o erro, a mudança que não pedimos. A sexta-feira completa o cenário. Dia de Vênus, do prazer e da carne, que a moral medieval tratou de carimbar como suspeito. Sexta-feira 13 é o prato está cheio para quem gosta de projetar sombras.


Mas se você quer saber onde a sexta-feira 13 ganhou sua certidão de nascimento no imaginário ocidental, precisa olhar para a França de 1307. O dia era 13 de outubro. Uma sexta-feira, claro. O rei Filipe IV, o Belo, era piedoso no discurso, mas estava quebrado na prática. Devia fortunas aos Cavaleiros Templários, que haviam inventado algo perigosíssimo para a época: eficiência financeira.


Os Templários tinham bancos, cartas de crédito e uma autonomia que deixava qualquer monarca endividado de mau humor.


Filipe, orientado pelo seu jurista de gelo, Guillaume de Nogaret, resolveu a dívida do jeito mais antigo do mundo: eliminando o credor. Naquela madrugada, templários foram arrancados de suas camas por toda a França.


As acusações? Heresia, rituais obscenos, cusparadas na cruz. Tudo fabricado para chocar a turba e legitimar a fogueira. Sob tortura, confessa-se até que o sol é quadrado. O papa Clemente V, um político fantasiado de santo, lavou as mãos.


A Ordem foi destruída, os bens confiscados e a dívida de Filipe, magicamente, evaporou.


Anos depois, Jacques DeMolay, o último Grão Mestre, foi queimado vivo em Paris. Antes de virar cinzas, lançou uma maldição convocando o Rei e o Papa ao tribunal divino em menos de um ano. Ambos morreram meses depois. Coincidência? O cético aqui pigarreia, mas o contador de histórias sorri.


O fato é que ali a data virou símbolo da traição do poder sobre a ética.


O mundo continuou sendo um lugar perigoso em outras sextas-feiras 13. Teve incêndio na Austrália em 1939, o assassinato de Kitty Genovese em 1964, a queda do avião uruguaio nos Andes em 1972 e até a morte de Tupac Shakur em 1996. Em 2012, o Costa Concordia encalhou para nos lembrar que a soberba humana também tem data marcada. Significa que o dia é maldito? Não. Significa que o ser humano tem um talento impressionante para concentrar tragédias em qualquer dia da semana, mas na sexta-feira 13 a gente presta atenção.


A superstição é uma lente que foca no padrão e ignora o resto.


No fundo, a sexta-feira 13 não cria o medo, ela apenas o revela. Ela nos lembra que o controle absoluto é uma fantasia que contamos para dormir tranquilos. O mundo é instável e a vida não respeita planilhas. Portanto, aproveite o dia. Se encontrar um gato preto, faça um carinho.


Se passar por baixo de uma escada, verifique apenas se não há um balde de tinta caindo. A coragem não é a ausência de tremor, é a capacidade de caminhar com dignidade mesmo quando o calendário tenta nos assustar.


O treze é só um número. O azar, geralmente, é falta de caráter ou de planejamento. O resto é literatura.

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