A tragédia secreta que todos repetem sem perceber
- temporacomunicacao
- 24 de set.
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Coluna de Diego Franzen
A tragédia de Darth Plagueis, o Sábio, aquela que o chanceler Palpatine murmura, como quem decifra arcano interdito e proibido em Star Wars III, não se reduz a mera fábula para aficionados de lâminas luminescentes; é antes parábola resplandecente, narrativa que atravessa os séculos com a gravitas das tragédias helênicas ou dos dramas elisabetanos, revestida de mantos opacificados e olhos fulvos, tal âmbar antigo e denso, refletindo o fulgor da ambição e da hybris.
Plagueis, presunçoso em sua sapientíssima erudição oculta, aspirava subverter a própria vida e morte, manejar com perícia de maestro os interstícios do destino, afinando-os no silêncio sacral do cosmos.
E, no epílogo mais irônico e prosaico, sucumbiu estrangulado no repouso pelo discípulo que ele mesmo cultivara com zelo pedagógico. O mestre, gerando o carrasco com a minúcia de sua própria sapiência, eis a ironia mais requintada da galáxia.
E, sejamos francos, tal enredo ressurge quotidianamente, sem a necessidade de artifícios lumínicos ou truques da Industrial Light & Magic.
No universo corporativo, o CEO circundado de aduladores imagina-se herdeiro perpétuo do reinado que, por sorte transitória, lhe fora confiado; o presidente de associação exibe aura de estadista em auditórios alquímicos, e todos crêem em sua imortalidade.
Há sempre um PowerPoint lapidado como granito, um organograma prometendo estabilidade, qual oráculo manipulador do acaso. Mas o poder, volúvel, capcioso e até perversamente caprichoso, escorre pelos dedos, findando invariavelmente no colo do estagiário perspicaz ou do sócio sorridente que afia, nas sombras, a lâmina invisível.
Plagueis acreditava na imortalidade.
O executivo, igualmente.
Ambos despertam, tardíamente, para a epifania inexorável da finitude.
Entre vereadores e líderes comunitários, presidentes de entidades e magistrados de pequenos conselhos, o espetáculo assume matizes grotescamente picarescos.
O político local, que se julga proprietário de bairro ou associação, imagina que sua cadeira é extensão da própria espinha dorsal.
Mas há sempre agentes nos bastidores, assessores juvencios, membros da diretoria sorridentes e predatórios, prontos a defenestrar ilusões com a discrição de serpentes.
O jogo é tão antigo quanto a polis, e o mestre sorri confiante enquanto o discípulo calcula, com exímia precisão, o próximo lance.
Nas reuniões comunitárias e assembleias de entidade, entre discursos inflamados e apertos de mão melosos, a qualquer instante alguém está afiando o punhal que consumará o ato subsequente.
Nos relacionamentos, a ópera se repete em versão íntima, deliciosa e cruel.
Quantos casais não vivem a saga Plagueis sem perceber? Um acredita subjugar o outro, manejar afetos como quem move peças num tabuleiro xadrezesco. Finge-se detentor absoluto das emoções, do tempo, até do silêncio noturno. Mas o verdadeiro mestre é muitas vezes aquele que parece passivo, o parceiro que sorri com humildade, que se deixa dominar para, no instante oportuno, revelar que o jogo era outro. Não há paixão que não encubra conspirações, não há romance que não comporte golpe palaciano. O amor é apenas arena de poder, com flores substituindo sabres e afagos fazendo as vezes de punhais.
A lição é cruel, hilariante e implacável em sua previsibilidade. O poder nunca é posse definitiva; é sempre empréstimo precário e incerto.
Quem se crê eterno no trono, seja corporativo, associativo, comunitário ou sentimental, está assentado em assento giratório que, a qualquer instante, pode subitamente verter.
Basta reunião de diretoria, mensagem cifrada no WhatsApp, eleição interna ou confidência de bastidores para que o mestre perceba que converteu-se em súdito.
A tragédia de Plagueis não é só lenda sith; é biografia velada de todos nós, transposta em lentes de ironia e fatalidade.
E o detalhe mais perverso é este: ninguém aprende.
Todos conhecem a parábola.
Todos ouviram falar do mestre defenestrado pelo discípulo.
Todos sabem que o poder devora seus donos.
Ainda assim, cada um acredita que desta vez será diferente, que o destino não ousará reiterar-se.
Cada um imagina controlar morte, entidade, conselho, coração. Cada um jura que será imortal.
Plagueis também jurava!
E, no entanto, apesar de toda essa carnificina de expectativas, vaidades e conspirações subreptícias, há algo deliciosamente reconfortante: a vida insiste em continuar, o jogo recomeça a cada aurora, e há sempre espaço para o improvável, o absurdo e o inopinável.
Porque se Plagueis nos ensinou algo além da morte súbita e das traições majestosas, é que até os discípulos mais ardilosos tropeçam, os presidentes de entidade mais vaidosos cometem gafes épicas, e os corações mais calculistas se rendem às sutilezas de sorriso inesperado ou ao charme irreprimível de olhar indiscreto.
O cosmos, este diretor sarcástico, irônico e impiedoso, com seu indiferente dedo metafísico, adora um azar elegante, e é justamente aí que reside a graça: podemos cair, ser ludibriados, perder contratos, votos ou afetos, e ainda assim rir de nós mesmos. Brindando com chá das cinco, café requentado ou cerveja barata, certos de que amanhã será outro dia de ambição, amor e pequenas glórias que ninguém poderá subtrair-nos.
Entre golpe corporativo e traição sentimental, entre reunião de diretoria e telefonema que altera destinos, há sempre a chance de improvisar, reinventar estratégias e usar a própria vulnerabilidade como instrumento de sedução e perspicácia.
Cada tropeço se converte em espetáculo, cada derrota se transmuta em aprendizado, e cada instante de descuido revela o rastro luminoso da esperança.
Porque, no âmago, a vida é comédia sith, drama corporativo e romance turbulento simultaneamente, e a única certeza é que ninguém morre de fato enquanto houver espaço para rir de si mesmo, conspirar com humor e acreditar que o próximo movimento, mesmo insólito, insolente e insolubilmente inesperado, poderá ser glorioso.















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