top of page

As artes marciais e as lições que não se aprendem nos bastidores

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 2 de out.
  • 4 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


No último sábado, a cena que se desenrolou diante de todos não foi luta. Não foi espetáculo. Foi vexame. Wanderlei Silva e Popó. Campeões que carregam em seus ombros o peso da história. Trocaram socos como se estivessem bêbados num bailão, sem técnica, sem honra, sem disciplina. Amigos me perguntaram: “O que você achou?”


Respondi apenas: desolação.


Pratico artes marciais desde os cinco anos. Meu pai, faixa preta de 3º dan em judô kodokan e 2º dan em karatê shotokan, foi meu primeiro sensei. Dele herdei a lição mais profunda: força sem disciplina é ruína.

Depois vieram mestres que marcaram a alma e o corpo: o saudoso Badique Daer, Marcelo “Morça” Morais.Cada treino era aula de ética e paciência.


Judo, karatê, Taekwondo( (onde alcancei o 4º dan ),Hapkido, Kickboxing, Tang Soo Do, e mais recentemente, o Asamco Close Combat. (2º DAN no Asamco).


Cada arte, cada kata, cada golpe ensinou a mesma coisa: respeito não é escolha. É lei.


No Asamco, aprendi com gigantes: SGA Roberto Nochang Carneiro, Grão-Mestre Geovani Dellavechia, os mestres João Fernando Paz, João Miguel Faccio, Paulo Henrique Faccio, Marcelo Moura Lima.E com todos os colegas faixas pretas, parceiros de seminários e torneios.


Participei de campeonatos muitas vezes. Sempre voltei com medalhas, sim. Mas mais importante que o ouro foi a fraternidade: lutas intensas que terminavam em abraços, risadas e respeito.Isso é arte marcial.Isso é educação.Isso é honra.


Um artista marcial verdadeiro não busca confronto. Ele domina a si mesmo antes de dominar o outro.Luta por ideal, não por vaidade.


Lyoto Machida, Mauricio “Shogun” Rua, Georges St-Pierre, exemplos vivos de grandeza, jamais precisaram de trash talk. Jamais se envolveram em confusão.Lutam com disciplina, honra e inteligência. Observá-los é aprender que a força se revela no controle, não na desordem.


Wanderlei Silva tem história.TUF, bastidores incendiados, Andre Dida atacando Sonnen pelas costas, golpes traiçoeiros fora do octógono. Depois os dois foram suspensos por doping. Anos depois a luta aconteceu. Sonnen venceu. Depois, Machida deu a verdadeira lição de respeito que o mundo deveria lembrar, vencendo o falastrão Sonnen com show de técnida e de respeito.


Popó?


Um campeão mundial, o melhor brasileiro desde Éder Jofre. Um homem que transformou força em arte, luta em legado. E ver tudo aquilo no final me doeu. Não mancha o legado, mas decepciona.


O sábado foi outra coisa. Socos trocados ao acaso. Dançarinos desajeitados. Sem controle. Sem elegância. O cinturão, a história, a glória… evaporaram em segundos.


A arte marcial é paradoxal. É força contida. Energia disciplinada. Combate que ensina. É humildade. É consciência.

Usei minhas técnicas fora do tatame uma vez apenas, para reagir a um assalto, e fui bem-sucedido. Nunca busquei briga. Nunca precisei. O verdadeiro guerreiro entende que a maior vitória é sobre si mesmo.


Arte marcial é guerra de Marte com disciplina de Atena.


É suor que molda caráter.


Memória dos mestres. Eco das gerações. Não é espetáculo barato. Não é teatro. Não é vaidade. Não é gritaria, não é dança descontrolada de punhos e cotovelos. É elevação.


E há algo que os torneios me ensinaram, e os colegas do Asamco reforçaram , que ninguém fora do tatame entende: a grandeza está na relação pós-combate .Luta intensa, esforço brutal, suor e dor… Mas termina com abraço, risadas e respeito.


Isso vale mais que medalhas.


Mais que títulos.


Mais que qualquer troféu.


Lutas que não terminam em fraternidade são apenas violência disfarçada de arte.


Se há algo a aprender do sábado, é isto: Títulos não compram caráter. Golpes não compram honra.


O que separa o campeão do lambanceiro é consciência, integridade, respeito.O que separa o mestre do adolescente raivoso é saber quando fechar o punho e quando guardá-lo.


Quem observa Lyoto Machida contra Sonnen e contra Vito Belford entende. Quem vê Shogun Rua administrar corpo, carreira e ética entende. Quem revisita o verdadeiro Popó, não apenas o lutador, mas o homem de princípios, entende.


Grandeza não se mede em socos desordenados.Grandeza se mede em disciplina, respeito, consistência.


Que os próximos sábados nos deem exemplos. Não vexames. Que a arte marcial continue sendo o que sempre foi: Força com propósito.


Luta com ética. Guerra com razão.Que cada soco seja medida de caráter. Que cada chute seja reflexão.Que cada kata seja lembrança de que disciplina é alma, e respeito, glória.


As artes marciais não se resumem a golpes ou técnicas, mas a um caminho de autoconhecimento, disciplina e equilíbrio. Nos katas, o praticante encontra a síntese do movimento e da tradição, treinando não apenas o corpo, mas também a mente.


A meditação silencia o ruído interno, enquanto o autocontrole transforma a energia da luta em ferramenta de paz.


Como ensinou Gichin Funakoshi, “o karatê começa e termina com cortesia”, e como afirmou Jigoro Kano, “o objetivo final do judô é o aperfeiçoamento do ser humano”.


Filosofia de vida, ética e harmonia se unem na prática marcial. Bushido, o caminho do Guerreiro. E é sobre isso.


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 16 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana. Praticante de artes marciais desde os 5 anos de idade.
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 16 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana. Praticante de artes marciais desde os 5 anos de idade.


Comentários


Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

  • Facebook
  • Whatsapp
  • Instagram
Pauta Branco_edited.png

Rua Cândido Costa 65, sala 406 - Palazzo del Lavoro

Bento Gonçalves/RS - Brasil

bottom of page