Crônica da colheita do trigo que virou pote no final do arco-íris
- temporacomunicacao
- 3 de out.
- 2 min de leitura
Coluna de Decimar Biagini
Choveu tanto em Cruz Alta que até os guarda-chuvas pensaram em pedir asilo.
Na Fenatrigo, a chuva virou personagem principal: lama até os tornozelos e um estacionamento “VIP” custando R$ 25,00, tarifa de shopping de luxo para um brejo coletivo. Um estacionamento pago que mais parecia ensaio para "Mar de Lama – O Musical". A camionete colocada de lado na frente da autopanambi era apenas um presságio e não uma alternativa de markering para chamar atenção, estacione na lonca da coxilha perto da lagoa do autódromo para tirar sua reflexão. Ainda tem a opção de andar 1 km deixando seu carro com flanelas no bairro ferroviário, lembrando que a extorsão é mais suave se te chamarem de doutor.
A colheita do trigo, adiada para sábado, virou quase um “feriado móvel da agricultura”. Enquanto isso, hortas comunitárias brotam nos condomínios: pepinos, alfaces e tomates mais firmes que qualquer promessa de campanha.
Trigo adiado,
no barro brilham estrelas
horta no pátio.
E no jornal, lendo ZH e o Sul, que mais parecem um tarot de más notícias, o horóscopo ganha poética oportunidade ao sarcasmo:
Áries: dirija com calma, mesmo que Lula tenha liberado autoescola opcional. O destino? Talvez um poste.
Touro:cuidado com a vodca de procedência duvidosa; o metanol não combina com churrasco.
Gêmeos: duas caras, duas opiniões, mas só uma carteira de motorista — talvez sem CFC, considere comprar quadriciclo elétrico para evitar filas de cirurgias do sus.
Câncer: abrace sua casa, antes que a enchente a leve.
Leão: não é você, é o Papa Leão XIV em Belém. Sinto muito, não sobrou nem para o açaí da esquina.
Virgem: sua planilha fiscal não fecha, nem com imposto mínimo.
Libra: equilíbrio é não pagar IPTU dobrado no black Friday da prefeitura por erro da IA.
Escorpião: Vingança é cobrar retroativo do estacionamento da Fenatrigo todo tipo de degustação na feira do produtor.
Sagitário: fleche o futuro, mas não compre carro sem desconto de feira real.
Capricórnio: suba as coxilhas, mas leve botas de borracha.
Aquário: cuidado com a água da praça asfaltada — escoa mal.
Peixes: nadem na esperança, mas não na lama do parque.
Poetrix da Fenatrigo
Carro atolado,
chuva em poesia barata:
trigo espera o sol.
E das manchetes brotam trovas de espanto:
Trump e Lula num tango,
Maduro no Natal adiantado,
a ponte do Guaíba manca,
o povo segue atolado.
No bar, a vodca que cega,
na praça, o asfalto que mata,
mas no quintal da varanda
brotou alface de prata.
E então, como quem rega o barro com palavra:
O mundo pode ser lama, pode ser caos de manchete, pode ser o horóscopo da desilusão.
Mas sempre haverá um broto de horta entre o concreto, uma risada entre as falhas, uma estrela mesmo atrás da nuvem.
A esperança não é o oposto da lama: é a semente que aprende a florescer mesmo quando tudo é barro. Quem descobre isso, já não precisa de previsão do tempo, carrega o céu por dentro.
Paz profunda, ainda que utópica.

Decimar Biagini, advogado, poeta e escritor














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