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Do Escambo ao Pix, mas a Picanha é Minha

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 3 de jul
  • 4 min de leitura

Coluna de Decimar Biagini


Na Cruz Alta-RS, onde nasci, o tempo anda quase de carroça, mas com pisca-alerta ligado.

A gente já ouviu falar em blockchain, mas confia mais no fiado do armazém, do que em senha de banco. Negócio bom é no fio do bigode e se o bigode for ralo vale o laço que nunca falha, gosto muito de caderneta, pois no banco minha alma já virou comodities digital, ando tipo homem do serviço de proteção às testemunhas, ninguém sabe onde anda e ninguém mais me viu.


Semana passada fui no açougue prosear com o João nascido e criado na Capela do Cadeado homem sério, faca na mão, sorriso solto, no Bonini, ele corta carne e filosofia ao meio, para meu azar, sou advogado do patrao dele, então a amizade é sempre com aquele olhar desconfiado de ambos mas o respeito por ter sido amigo de meus ancestrais segue como vela para cada santo, e vá vela, digo sempre para ele.

João estava meio preocupado com as guerras, os bancos fora do ar por hackers lá para os lados do Oriente, me ventilou uma coisa de fundamento, daquelas de puxar a daga e descascar rolo e meio de fumo enquanto esquenta o tonel para pelar o porco:


— Doutor Silveira, o mundo tá diferente, agora é tudo na tal nuvem! disse ele afiando a chaira. Se der apagão geral, tamo tudo igual, o Bill Gates e eu. Acho que se o Elon chegar na lua capaz de voltar sem nada na guaiaca e ter de trabalhar aqui na venda do seu Moacir.


— Bah João, mas tu ainda tem a coleção de facas, inclusive aquela solinge, a mesa de sinuca do teu pai, e um pote de torresmo guardado, se a coisa apertar tu vais lá para a Capela e te recruta para trabalhar de lobisomem, retruquei, ele riu e bateu a mão no balcão.


Aqui a economia solidária nunca saiu de moda Troca-se conselho por pão, picanha por corte de cabelo e já vi mate bem cevado pagar conselho de amor perdido e pacote de erva do avesso virar espelho de gaiota.


E tradição não se larga nem quando o mundo corre atrás de tela colorida. Nem que a Barrosa tussa ou o chip trave, o povo rima e proseia como neste Chasque Guapo que preparei no galpão do meu antigo amigo Lindolfo Pires, que já foi encontrar sua galinha penacha noutro plano dimensional de São Pedro:


Chasque Guapo


Das bandas da campanha onde o sol se deita

O povo se emenda com mate e proseia

O vento é padrinho a lua é conselheira

E o campo é a escritura do esteio da aldeia


Troca-se milho por laço e carne gorda

O pingo por sonho, o canto por abrigo

O velho costura os dias na memória

E o tempo não tem pressa, anda contigo


Por mais que o mundo corra apressadito

Nessa tal nuvem que ninguém enxerga

Aqui o sim se sela num aperto bonito

E o que é do campo o tempo não carrega


Entre venda de rapadura e queijo surgem os haicais campeiros, me perdoe o Gulherme de Almeida, mas aqui é estilo Decimar Silveira, sem aquela frescura toda de métrica 5-7-5, são secos e ligeirinhos que nem cusco de estância:


No armazém da esquina

O dólar não vale nada

Só vale a farinha fina


Picanha na corda

Troca por sabão de cinza

Negócio sem borda


Chimarrão fumega

O escambo nunca morre

A tradição bafeja


E claro nenhuma roda de mate escapa da, anedota campeira, inédita dessas que só aqui acontecem, pode jogar no chat gpt e perguntar se conhece alguém mais criativo que o poeta Cruz-altense?


Um vivente lá do Passo dos Alemães, cismado com o tal Pix para devolução de golpe do INSS, foi no banco abrir a tal chave. A moça pediu CPF ele achou que era vacina nova:


— Moça não vou querer já tomei da influenza semana passada.


Resultado, voltou sem conta e sem devolução do inss, mas me viu saindo do seu Moacir e levou uma picanha, trocada por uma faca coqueiro, que para ele e para mim, no caminho, rende mais no domingo que esperar pelo fim da guerra com dinheiro na nuvem.


Deixo minha dica, para os estoicos sulistas:


Se a nuvem cair de lado

E o digital for ao chão

Te lembra que o povo bravo

Não perde o ganha-pão

Tem milho, tem ovo e picanha

Troca até por chimarrão


Não confie só no app

Nem só em conta bancária

Tenha sempre no quintal

Uma reserva diária

Seja torresmo ou sal

Ou mandioca pra salada


Aprenda o preço das coisas

Que o povo troca no dia

Ovo é quase moeda

Queijo é mercadoria

Picanha vira consulta

E o mate é economia


E mais guarde uns trocados

Embaixo do colchão

Pois se o cloud virar poeira

Quem tem dinheiro na mão

Compra porco, compra picanha

E sobra lenha para o fogão


Aqui no sul tradição não é atraso, é garantia. O Bill Gates sem sinal vira freguês do João e se não trouxer ovo, faca maleva, ouro ou dinheiro, nem cheiro de picanha leva.

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