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Entre likes e silêncios: o vazio das relações atuais conectadas por telas mas distantes no afeto

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    temporacomunicacao
  • há 5 horas
  • 2 min de leitura

COLUNA DA PSICÓLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Nas últimas décadas, a teoria do apego tem se mostrado cada vez mais atual para compreender os desafios das relações contemporâneas. Se, como propôs John Bowlby, o apego nasce da necessidade humana de segurança emocional, previsibilidade e vínculo, o cenário atual parece tensionar exatamente esses pilares. Vivemos em um tempo marcado por incertezas constantes, relações fluidas e estímulos excessivos, o que impacta diretamente a forma como nos conectamos — e também como nos defendemos — nos vínculos afetivos.

As redes sociais intensificam esse processo ao criar a sensação de abundância relacional: muitas possibilidades, muitos contatos, muitas narrativas disponíveis. No entanto, essa multiplicidade nem sempre se traduz em profundidade. O excesso de estímulos, comparações e opções ativa ansiedades ligadas ao medo de perda, de substituição e de in

Ao mesmo tempo, observa-se um movimento crescente de relações mais frágeis, facilmente descartáveis, sustentadas por conexões rápidas e pouco elaboradas emocionalmente. Há vínculos em quantidade, mas não necessariamente em qualidade. O outro passa a ser visto, muitas vezes, como uma experiência consumível, e não como alguém com quem se constrói algo ao longo do tempo. Isso dialoga com um funcionamento defensivo: manter proximidade sem se implicar profundamente, evitando frustrações, mas também limitando a intimidade.suficiência. Para pessoas com estilos de apego ansioso ou evitativo, esse ambiente pode reforçar inseguranças antigas, dificultando a construção de vínculos estáveis e seguros.

Outro fenômeno relevante é o aumento do relacionamento consigo mesmo, muitas vezes vivido de forma solitária. Embora o autoconhecimento e a autonomia sejam fundamentais, há uma linha tênue entre autonomia saudável e isolamento emocional. Pessoas passam a investir mais em si, em rotinas individuais e em autossuficiência, mas, paradoxalmente, sentem-se cada vez mais desconectadas. A teoria do apego nos lembra que a identidade se constrói no encontro com o outro; não somos feitos para nos desenvolver apenas no isolamento.

A pandemia de COVID-19 aprofundou esse cenário. O distanciamento físico, a ameaça constante e a reorganização abrupta da vida reforçaram uma lógica de sobrevivência individual: cada um por si, cada um cuidando do próprio espaço, do próprio medo. Mesmo após o retorno ao convívio social, muitos mantiveram barreiras emocionais, dificuldades de aproximação e uma sensação persistente de estranhamento nas relações. Aprendemos a nos proteger, mas nem sempre reaprendemos a nos vincular.

O problema é que o ser humano carece de contato para se fortalecer internamente. É na troca, no reconhecimento e no pertencimento que regulamos emoções, ampliamos recursos psíquicos e construímos segurança. Relações seguras não eliminam o sofrimento, mas oferecem base para atravessá-lo. Quando faltam vínculos significativos, o vazio tende a ser preenchido por estímulos superficiais, que aliviam momentaneamente, mas não nutrem.

Resgatar a qualidade dos vínculos implica desacelerar, sustentar frustrações e tolerar a incerteza inerente às relações humanas. Implica também reconhecer que, apesar de toda a tecnologia e autonomia disponíveis, precisamos uns dos outros não apenas para amar, mas para nos sentirmos vivos, reconhecidos e pertencentes. Em um mundo que incentiva conexões rápidas, talvez o maior ato de cuidado seja reaprender a ficar, construir e sustentar encontros que realmente nos transformem.

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