Era Digital: Memoriais Virtuais e Desafios da Inteligência Artificial nos Processos de Luto
- temporacomunicacao
- 1 de set.
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Coluna da psicóloga Franciele Sassi
A Inteligência Artificial tem transformado a forma como a sociedade lida com quase todos os aspectos da vida. Nós, profissionais debruçados sob temas envolvendo educação para a morte e o luto, temos observado como a era digital vem impactando também as maneiras como a população vem se relacionando com esses processos.
Uma das inovações mais marcantes nesse campo são os chamados memoriais virtuais ou “deathbots”, que recriam digitalmente pessoas falecidas a partir de dados como fotos, mensagens, áudios e vídeos. Essas tecnologias podem gerar avatares, vozes sintéticas ou até chatbots capazes de simular conversas com aqueles que já partiram. O avanço causa um misto de surpresa, susto, nostalgia, mas também provoca uma série de dilemas psicológicos, éticos e sociais.
Do ponto de vista psicológico, o luto é um processo de adaptação à ausência. Ele envolve reconhecer a realidade da morte, elaborar a dor emocional e reconstruir a vida sem a presença física da pessoa. Trata-se de aprender a continuar amando a pessoa querida que partiu em separado. O contato com avatares digitais pode, em alguns casos, trazer conforto temporário, permitindo que familiares expressem palavras não ditas ou mantenham uma sensação de proximidade. Contudo, também podem existir riscos importantes: a exposição a deepfakes (técnica de síntese de imagens ou sons humanos baseada em técnicas de inteligência artificial; muito comum vermos a combinação de falas a vídeos já existentes) e simulações pode gerar memórias falsas, alterar lembranças autênticas e, em casos mais delicados, prolongar a negação da perda. Há ainda o perigo de dependência emocional, quando a interação com a versão digital substitui o apoio humano e a vivência real do luto. Estamos falando, aqui, de portas que se abrem não tanto para possibilidades, mas muito mais direcionadas a complicações no decurso do luto.
A neurociência demonstra que o luto envolve áreas cerebrais ligadas tanto à emoção quanto à cognição, como a amígdala, o córtex cingulado e o córtex pré-frontal. A ressignificação da ausência ocorre ao longo do tempo e da atividade do enlutado, favorecida por rituais culturais e pelo suporte social. Nesse sentido, o risco da inserção de memoriais digitais está na interferência no processo de reconstrução emocional, criando uma espécie de “presença contínua” que pode dificultar a aceitação da perda e o reinvestimento da vida – eu passo a ficar ligado pelo passado, estagnando meus passos que assegurariam um futuro de reconstruções e aprendizagens.
Além do impacto psicológico, surgem dilemas éticos profundos. Um deles diz respeito ao consentimento: quem autoriza a recriação digital de alguém falecido? E o que acontece quando a pessoa não deixou seu desejo expresso em vida? Outra questão é a privacidade pós-morte, ou seja, o uso massivo de dados pessoais para criar avatares digitais pode resultar em manipulação da memória de alguém sem qualquer controle familiar ou jurídico. A isso se soma a comercialização do luto: empresas que oferecem esses serviços podem transformar o afeto em produto, cruzando a fronteira entre homenagem e exploração, o que é perverso.
O alerta vale também para os riscos com crianças e adolescentes. Como ainda estão em desenvolvimento cognitivo e emocional, eles podem não distinguir a simulação do real, formando vínculos prejudiciais com versões digitais de entes queridos. Por isso, muitos defendem que o acesso a esse tipo de recurso seja restrito e que a regulamentação avance com urgência. Já existem propostas de normas que incluam transparência sobre o funcionamento das tecnologias, a possibilidade de “desligar” o avatar e limites claros sobre sua utilização.
O debate em torno dos memoriais digitais vai além da tecnologia: ele toca em questões existenciais sobre o que significa ser humano e como lidamos com a finitude. Fico aqui pensando que já temos muitas dificuldades em reconhecer e aceitar realidades que não podemos controlar, como a morte, num mundo que tenta responder a tudo de forma imediata e negar aquilo que causa sensação de impotência. A promessa de “eternizar” alguém por meio da IA pode ser sedutora, mas também nos coloca diante do risco de esvaziar a experiência do luto, que, apesar de dolorosa, é essencial para a reorganização da vida. O que está em jogo não é apenas a preservação da memória, mas o respeito à autenticidade da experiência humana diante da morte.
Assim, mais do que perguntar se podemos recriar os mortos digitalmente, talvez devamos refletir sobre se devemos fazê-lo e que impactos isso gerará a curto, médio e longo prazo — e até que ponto esse recurso ajuda ou prejudica nossa capacidade de elaborar perdas e seguir adiante. Afinal, a tecnologia pode oferecer lembrança, mas nunca substituirá a presença única de quem se foi.















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