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Festas de final de ano e seus impactos a quem está enlutado

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 17 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Coluna de Franciele Sassi


O final de ano, um período que, para muitos, é sinônimo de celebração, união e renovação, pode ser particularmente desafiador para aqueles que estão enfrentando o luto. Enquanto o mundo ao redor celebra com festas, trocas de presentes e confraternizações, as pessoas enlutadas podem se sentir como se estivessem em um espaço emocional completamente distinto, onde a dor da perda e a ausência do ente querido se tornam ainda mais intensas. Esse período de festas, longe de ser uma pausa para a dor, pode ser um agravante para o sofrimento emocional.


Para muitos, o Natal e o Ano Novo representam momentos de reunião familiar, de lembranças compartilhadas, e de celebração da vida. Quando alguém querido partiu, esses mesmos momentos se tornam um lembrete pungente da ausência, causando uma sensação de desconexão entre o mundo festivo e o mundo interior da pessoa enlutada.

Durante o final de ano, a pressão social para se “estar feliz” ou “participar das festividades” pode aumentar significativamente o sofrimento. As redes sociais, as conversas sobre planos de festas e as imagens de famílias felizes podem acentuar o sentimento de solidão. Sentir-se fora do lugar, enquanto os outros parecem estar imersos em alegria, é uma experiência comum para aqueles em luto. A desconexão entre o mundo externo e o interno se torna ainda mais nítida, e a dor da perda pode se intensificar nesse cenário.


Além das celebrações em si, o final de ano é um momento de reflexões intensas, onde se observa o ano que passou e se projetam expectativas para o próximo. Para quem está em luto, esse processo pode ser carregado de uma tristeza profunda. O desejo de reconstruir ou de seguir em frente esbarra na realidade de que a pessoa querida não estará mais ali para compartilhar esses momentos, e isso pode gerar um turbilhão de emoções — desde a saudade desesperadora até um sentimento de culpa por não conseguir sentir alegria ou esperança para o futuro.


Do ponto de vista psicológico, o luto não é apenas uma reação à morte de uma pessoa, mas também à transformação da própria identidade. Muitas vezes, as festas de final de ano estão intimamente ligadas a dinâmicas familiares e a papéis que a pessoa enlutada desempenhava dentro daquele contexto. Com a ausência do ente querido, pode haver um verdadeiro reordenamento da estrutura familiar, e a sensação de "perder" um pedaço de si mesmo torna-se uma realidade difícil de administrar. Esse processo pode ser desorientador, porque o luto também envolve aprender a viver sem aquilo que, por tanto tempo, foi uma parte importante de sua vida.


É fundamental que, durante o final de ano, as pessoas em luto recebam apoio emocional adequado. Isso inclui o suporte de familiares, amigos e, se necessário, profissionais de saúde mental. Criar novos rituais ou tradições que respeitem a dor do luto pode ser uma forma de integrar a perda à nova realidade, ao invés de tentar ignorá-la ou negá-la. Por exemplo, acender uma vela em memória do ente querido, criar um espaço de reflexão silenciosa ou realizar ações simbólicas que representem a continuidade da presença do falecido, são maneiras de ressignificar o período e permitir que a pessoa enlutada vivencie o luto de forma mais honesta.


Com o tempo, o luto pode ser suavizado, mas jamais desaparece. As formas como a pessoa enlutada escolhe vivenciar as festas de final de ano pode mudar. Ao invés de se submeter à pressão de estar "bem" ou de seguir as normas tradicionais de celebração, pode-se criar uma forma mais personalizada de viver o período — talvez optando por uma celebração mais íntima, em pequenos gestos de carinho com os próximos, ou até mesmo reservando momentos de silêncio e lembrança.


As festas de final de ano também podem ser um momento de reconciliação com a dor. Ao invés de forçar um retorno à "normalidade", pode-se utilizar esse período para validar e acolher os sentimentos que emergem no luto. Respeitar o próprio ritmo e permitir-se sentir a dor é um passo essencial para que, com o tempo, se encontre uma nova maneira de vivenciar essas datas — não como uma lembrança de uma perda, mas como uma oportunidade de transformar a ausência em memória e gratidão pela vida compartilhada.


A jornada do luto é longa e singular, mas com o apoio e a compreensão das próprias necessidades emocionais, é possível criar novos significados para as festas de final de ano, respeitando a dor e permitindo, gradualmente, que a luz das celebrações traga consigo um espaço de novos sentidos e de lembranças afetuosas.


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre, colunista do Pauta Serrana.
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre, colunista do Pauta Serrana.

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