Grandes transformações exigem grandes rupturas
- temporacomunicacao
- 8 de jul.
- 3 min de leitura
Coluna de Diego Franzen
Essa coluna começa a partir de uma frase que meu amigo Sérgio Giacomello sempre diz, com aquele tom de quem já viu o mundo andar em círculos: “Grandes transformações exigem grandes rupturas.”
Ele solta isso como quem joga uma pedra no lago e observa os círculos se formando. E a frase fica, reverberando.
Porque ela é simples.
E é verdadeira.
Profundamente verdadeira.
Há quem acredite que o mundo muda com um discurso bonito. Há quem aposte em hashtags. Outros, mais cínicos e, talvez, mais lúcidos, sabem: grandes transformações exigem grandes rupturas. E quase sempre alguma dose de sangue, suor ou vergonha.
Foi assim quando os americanos, cansados de pagar imposto pra tomar chá com sotaque britânico, jogaram tudo no mar e decidiram inventar os Estados Unidos. Uma ruptura que deu certo. Um novo país surgiu, claro, cheio de contradições, mas com uma ideia fundacional poderosa: liberdade, mesmo que seletiva, ainda era um bom começo.
Também foi assim quando a Revolução Francesa cortou cabeças no compasso do iluminismo. A ruptura foi bela no papel. Mas no mundo real terminou com a guilhotina afiada, um Napoleão coroando a si mesmo e a Europa implorando por estabilidade. Ruptura que deu certo? Talvez. Mas o preço foi pago com juros compostos de dor.
Já a dissolução da União Soviética foi uma ruptura feita às pressas, na base da vodca e da paranoia. Um império desabando sem poesia, gerando bilionários de um lado e miséria crônica do outro.
A Rússia moderna é a ressaca de uma utopia vencida, e o leste europeu ainda tenta entender se foi salvação ou só troca de tirano.
E o Brasil? Poxa vida, como eu amo nosso país. Com muita tolerância, mas o amo incondicionalmente. O Brasil adora ensaiar rupturas.
Gritamos “Independência ou Morte”, mas deixamos o príncipe português no trono.
Abolimos a escravidão sem integrar os libertos.
Fizemos redemocratização com militares no palanque.
Aqui, a ruptura sempre vem com jeitinho, porque brasileiro odeia confronto, até quando é necessário.
O Brasil proclamou a República num 15 de novembro meio sonolento, com o marechal achando que estava só mudando o gabinete.
Desde então, colecionamos rupturas como quem troca de roupa: três golpes de Estado, cinco repúblicas, três ditaduras, seis constituições, inflação galopante, censura à imprensa, tortura nos porões, estagnação econômica e um abismo social cada vez mais fundo.
Se isso é evolução, estamos fazendo no modo aleatório.
A cada tentativa de reinvenção, criamos uma gambiarra nova no Estado. A República brasileira é um experimento inacabado e mal supervisionado.
Mas essas são as grandes histórias. As que entram nos livros, viram filmes e inspiram adolescentes em provas do Enem.
As rupturas verdadeiramente dolorosas, porém, são as pequenas.
São as que ninguém vê.
É quando você percebe que aquele emprego dos sonhos é, na verdade, a jaula mais dourada do zoológico.
Quando você aceita que um relacionamento está morto e que insistir é só mais uma forma de adiar o luto.
Ou quando você olha no espelho e admite que aquele "projeto de vida" virou um PowerPoint mofado na gaveta do orgulho.
Ruptura, meu caro, não é só ato. É coragem. Coragem de cortar, sair, virar a mesa, assumir que acabou. E mais ainda: coragem de não romantizar o caos, porque nem toda destruição é revolução. Tem gente que quebra tudo só porque não sabe consertar nada.
A verdade é que todo mundo sonha com mudança. Poucos querem pagar o preço da transformação. É bonito imaginar uma nova vida (mais plena, mais leve, mais rica), mas aí vem a fatura: noites sem sono, decisões difíceis, solidão e, claro, gente julgando da arquibancada.
Porque mudar de verdade exige deixar de ser o que agrada aos outros. Exige cortar vínculos com versões antigas de si mesmo. Exige desapego do conforto, inclusive o desconfortável. E isso, convenhamos, não se aprende em curso online nem com frase de almofada.
Mas há beleza nisso. Porque toda verdadeira ruptura carrega dentro dela o germe de uma possibilidade. E toda grande transformação começa no exato momento em que você para de esperar que o mundo mude e decide ser o epicentro do seu próprio terremoto.
Nem sempre você vai sair ileso. Mas, se tiver sorte e coragem, talvez saia melhor.















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