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Halloween, a Noite em que o Mundo Ri das Suas Próprias Sombras

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 22 de out.
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen



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Há quem tema o Halloween como se a cada abóbora acesa se abrisse uma fenda para o inferno, de onde saltariam bruxas, gárgulas e, pior ainda, crianças vestidas de vampiro com um balde de balas na mão.


Mas é preciso dizer: o Halloween não é satânico. Satânico é o preço do quilo da batata. Satânico é o sujeito que estaciona em vaga de idoso. Quem xinga, ofende, engana e manipula. Satânico é o oligofrênico que quer impor suas vontades e crenças, querendo que o mundo se curve a sua ignorância que é a prova viva que a evolução do homem não é linear, pessoas cuja burrice são um monumento à teimosia humana e cuja profundidade intelectual é a de um pires seco!


O Halloween, meus caros, é apenas o dia em que o mundo inteiro se permite rir do medo.


A origem dessa festa, tão “ameaçadora”, remonta aos celtas, que celebravam o Samhain, o fim das colheitas, quando acreditavam que o véu entre vivos e mortos se tornava translúcido como um sopro.


E o que faziam eles? Acendiam fogueiras, dançavam, compartilhavam comida, agradeciam à terra. Nenhum sacrifício de virgens, nenhum pacto em latim arcaico. Apenas gente alegre, com frio e fome, inventando um jeito de celebrar a existência antes que o inverno os lembrasse da própria mortalidade.


Séculos depois, o cristianismo, com seu talento ímpar para o rebranding espiritual, transformou o Samhain em All Hallows’ Eve, a véspera do Dia de Todos os Santos. E assim o paganismo virou liturgia, o medo virou devoção, e o mundo seguiu girando, como sempre faz quando percebe que tudo é adaptação e conveniência.


Mas basta chegar o fim de outubro para que ressuscitem os doutores da desinformação, gente que mal conhece a diferença entre epístola e postagem de Facebook, berrando que o Halloween é uma conspiração do tinhoso. Surgem vídeos de senhores enfurecidos, senhoras com crucifixos e microfones, advertindo que as trevas estão entre nós, enquanto o maior demônio à vista é a própria ignorância travestida de virtude. Ou video de um sarcástico manipulador, com voz de leite condensado, querendo bancar o bom moço, dizendo "cuidem de nossas crianças".


Esses paladinos da moral, que confundem cultura com possessão e alegria com desvio, são capazes de ver o diabo até num saco de confeitos. Gritam contra o Halloween enquanto, em suas biografias ocultas, vivem de pequenas idolatrias diárias: a vaidade travestida de fé, a inveja disfarçada de zelo, a hipocrisia maquilada de piedade. Com ar grave e cenho franzido, esquecem que o mal não se fantasia, ele se comporta como eles.


E o mais curioso: quando não estão amaldiçoando crianças fantasiadas de abóbora, estão consumindo séries de bruxas na Netflix, acendendo velas aromáticas e dizendo “gratidão” como se fosse mantra. Uma devoção de Instagram que, de tão performática, adoça o próprio demônio com mel de própolis e filtro sépia.


Por respeito à natureza, aliás, esses cruzados da caretice deveriam abraçar uma árvore e pedir-lhe perdão por consumirem, com tanta desenvoltura, o oxigênio que ela produz. Porque o que polui o mundo não é o Halloween, é o ar gasto com sermões inúteis.


O Halloween é o contrário disso. É o riso diante do escuro, é o teatro infantil da morte, é a noite em que a humanidade, cansada de se levar a sério, põe uma fantasia para lembrar que o medo também pode ser divertido. É um carnaval apátrida, uma ópera global do lúdico, um suspiro de liberdade cultural que não pede passaporte nem bênção episcopal.


Então, quando virem uma criança batendo à sua porta, vestida de bruxa ou de zumbi, não pensem em pecado. Pensem na ancestralidade sorrindo. Pensem em como seria o mundo se os adultos também aprendessem a brincar com os próprios fantasmas, em vez de viverem assombrados pelos dos outros.


Porque no fim, meu amigo, o Halloween não é o dia em que o diabo ri das almas. É o dia em que a humanidade ri de si mesma. E isso, convenhamos, é o mais sagrado que se pode ser. Por isso, que venham as escolas com seus corredores enfeitados, os grupos de amigos com suas máscaras improvisadas, os vizinhos trocando doces e gargalhadas. Que o riso ecoe nos pátios e nas ruas, lembrando que celebrar é um ato de humanidade e que brincar com o imaginário é uma forma de libertar-se do medo. Que cada pequena festa de Halloween seja um tributo à alegria, à convivência e à deliciosa arte de não se levar tão a sério. Porque, afinal, viver já é assustador o bastante. O mínimo que merecemos é rir disso juntos.


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 16 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 16 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Pauta Serrana

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