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Kobayashi Maru

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    temporacomunicacao
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


Diego Franzen é jornalista e escritor. Se autodenomina um peripatético quixotesco. Autor de 17 livros, CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor. Se autodenomina um peripatético quixotesco. Autor de 17 livros, CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

No Universo de Jornada nas Estrelas, a série clássica dos anos 60, uma das minhas favoritas, por revelar dramas e ideais existenciais, que se aplicam em nossa vida cotidiana, há um elemento que eu acho fantástico. O Kobayashi Maru.


Trata-se de um teste que um membro da Frota Estelar passa. Mas ele tem uma grande armadilha. Ele foi programado pelo Sr. Spock, para ser impossível de vencer. Não tem jeito. É preciso resgatar a tripulação da Nave Kobayashi Maru e as dificuldades se somam, uma a uma, se avolumam de uma maneira que a pessoa não tem saída. Sempre perde no fnal. Na ficção, esse teste é usado para avaliar como alguém reage diante de uma situação sem solução.


Na prática cotidiana, Kobayashi Maru, é aquele momento em que a vida te chama de canto, acende um cigarro imaginário e diz, sem cerimônia, que embora você tenha sonhado muito, desta vez não vai dar. Não importa o quanto você se esforce, o quanto reze, o quanto faça promessas, o quanto seus amigos visíveis e invisíveis te digam que estão torcendo por você. Não importa o quanto revise mentalmente cada passo, como quem tenta refazer um lance perdido no xadrez. Repito, não vai dar.


É curioso como a gente demora para aceitar essa ideia. Cresce ouvindo que persistência resolve tudo, que caráter abre portas, que o universo conspira a favor de quem acorda cedo, de quem ousa, de quem sonha. Uma coleção de frases bonitas, úteis até certo ponto, mas que desmoronam no primeiro encontro com o impossível. Porque há portas que não têm maçaneta. E não é falta de força. É simplesmente o nosso Kobayashi Maru.


A vida, nesse aspecto,não tem delicadesa e o dedo metafísico do Universo é implacavelmente indiferente à nossa vontade, visualizações e preces. Kobayashi Maru não discute, não explica, não negocia troco emocional. Apenas segue.


Você pode estar apaixonado por uma causa, por um projeto, estar decidido, pronto para fazer dar certo, e ainda assim assistir tudo escorrer pelos dedos como água mal segurada. Não por erro, não por falha moral, mas porque certas coisas simplesmente não foram feitas para acontecer.


Todo mundo, cedo ou tarde, senta na cadeira do Kobayashi Maru. Às vezes é um plano de vida que se desmonta com a elegância de um castelo de cartas diante de um espirro. Às vezes é só o tempo passando por cima das nossas vontades. De forma implacável.


Na série Jornada Nas Estrelas, o capitão James T. Kirk resolve o problema trapaceando. Reprograma o teste e vence. Bonito, cinematográfico. Na vida real, não tem hacker emocional. O sistema é bruto, fechado, meio soviético. Você pode espernear, argumentar, mas o resultado não muda.


E talvez o pior não seja perder. É entender.


Porque quando a gente entende, perde também a inocência de achar que tudo depende da própria vontade. É ali que nasce um tipo de cansaço diferente. Não o físico, que se resolve com sono, mas o cansaço de quem percebe que há limites que não se atravessam nem com fé, nem com talento, nem com teimosia. Nem com um bom coração.


Nessas horas, surge um pensamento meio vergonhoso, que seria mais fácil ser raso. Superficial. Ser daqueles que não complicam, que não mergulham, que não transformam cada possibilidade em universo. Gente que vive como quem toma chimarrão olhando o movimento, sem grandes expectativas, sem grandes quedas. Há uma paz ali que dá inveja.


Mas não dura muito essa fantasia. Porque quem é feito para a profundidade não se acostuma a boiar de uma hora para outra. O sujeito pode até tentar, pode fingir desinteresse, pode ensaiar um cinismo elegante, mas no fundo continua sendo o mesmo. Continua sentindo demais, pensando demais, querendo demais.


E é aí que o jogo muda de nome.


Não se trata mais de vencer. Trata-se de não se perder de si mesmo no meio do caminho.


É fácil endurecer. Virar pedra, fazer piada de tudo, reduzir o mundo a uma coleção de desilusões administráveis. Difícil é manter alguma ternura depois de entender que certos sonhos nunca vão sair do papel. Difícil é continuar acreditando em alguma coisa sem parecer ingênuo. Difícil é não deixar que o impossível te transforme numa versão menor de quem você foi.


Sonhador quixotesco, acredito que existe uma dignidade em quem atravessa isso sem espetáculo. Em quem aceita o golpe sem fazer discurso, sem culpar o mundo inteiro, sem se desmanchar em amargura. Sem se tornar cruel. Gente que segue vivendo, pagando conta, rindo quando dá, mesmo sabendo que carregou um sonho até o fim e que este não deu em nada. Ou melhor, não deu no que queria. E nunca vai dar.


Aliás, dar, até deu. Deu aprendizado, deu memória, deu uma certa grandeza melancólica que só quem tentou de verdade conhece. Quem nunca sonhou grande não entende, e talvez seja melhor assim. Há ignorâncias que são confortos legítimos.


No fim, o Kobayashi Maru não ensina a ganhar. Mas ele forma os melhores pilotos. Assim como bom marinheiro não se faz em mar calmo.


Kobayashi Maru ensina a sair da derrota inevitável sem se apequenar.


E isso, neste mundo mal frequentado por gente louca e burra, já é uma vitória indecentemente rara.

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