LUCCA
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COLUNA DE GABRIEL ELIAS JOSENDE

Amar é um ato de bravura. É preciso doar-se, abrir-se demais. Mostrar faces que ninguém mais vê. Nem o espelho, às vezes. Escondemos coisas de nós mesmos, quem diria? Tentamos mentir, ignorar a verdade daqueles olhos que nos fitam. Olhos tão nossos e tão estrangeiros, refletidos do avesso.
Com Lucca foi assim. Isso até conhecer seu namorado. Eles logo se enxergaram um no outro, viram seus reflexos. Quando isso acontece, é caminho sem volta. A gente se vê assim, morando dentro do outro. Por isso a gente namora. Por isso tem “mora” na palavra. Por isso a gente “lá mora”.
Lucca e o “lá morado” gostavam de coisas bem distintas. Pareciam Yin e Yang. Um pedia Britney, outro Led Zeppelin. Para um, pudim. Ambrosia para o outro. O café era sem açúcar, nisso ao menos concordavam. Filmes ora clichê adolescente, ora um lado B inspirado em Exorcista.
Lucca era de muitas crenças. Desde criança, toda noite, pedia ao rei dos deuses para que, em sua morte, meu senhor, pai celestial, soberano a mim, a todos, ao mundo, ao cosmos, me eleva e, quando eu partir, faz de mim constelação, para que eu ascenda e viva eternamente em tua morada. Seu lá morado se enchia de graça.
Às noites, lançavam-se às estrelas, admirando a imensidão dos céus. Olhares que encontravam no firmamento um quê de saudade. Somos poeira de estrelas. Uma vez, Carl Sagan disse, e a frase ecoou pela eternidade. Somos os mesmos átomos da criação, que há eras se reinventam. Já fui galáxia. Fui estrela. Já fui céu. Fui correnteza.
Quando voltavam, em supernova, no quarto, alcançavam um novo Big Bang. Moravam numa cidade pequena. Ainda assim, cada um no seu canto, só se viam aos fins de semana. Iam sempre ao cinema, obrigados a se contentar com o que passava. Volta e meia, no escuro, sentiam o sabor um do outro. O amor tem vários gostos. De pudim, de ambrosia.
Numa dessas voltas do cinema, debaixo de um temporal, conversavam felizes sobre o filme. Lucca se divertia muito com qualquer bobagem. Ele estava distraído, bem distraído. Quando o raio os atingiu, ascendeu no trovão. Zeus o fez constelação.
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