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Quando a festa não faz sentido: O que o Carnaval revela sobre vínculos, limites e individualidades

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    temporacomunicacao
  • há 10 horas
  • 2 min de leitura

COLUNA DA PSICÓLOGA FRANCIELE SASSI



Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana.
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana.

O Carnaval é um fenômeno cultural que ultrapassa a ideia de entretenimento. Do ponto de vista histórico e antropológico, trata-se de um ritual social de exceção, no qual há a suspensão temporária das normas cotidianas, das hierarquias sociais e das restrições comportamentais. É como que se tratasse de um “Ritual de Inversão”, conceito descrito por Bakhtin, no qual o excesso, o riso, o corpo e a transgressão simbólica ganham legitimidade social. Sob a ótica psicológica, o Carnaval pode ser compreendido como um espaço de descarga pulsional socialmente autorizada. Há um afrouxamento dos mecanismos de controle das leis e regras, permitindo maior expressão dos impulsos ligados ao prazer, à sexualidade, à agressividade e à busca por excitação sensorial.

Entretanto, essa mesma estrutura simbólica pode produzir efeito inverso em outras pessoas. A experiência do Carnaval não é neutra nem universal, pois depende da organização psíquica, da história vincular e do momento emocional de cada indivíduo. Alguns fatores podem ajudar a compreender por que determinadas pessoas não gostam ou evitam datas festivas como o Carnaval:

- Indivíduos com maior sensibilidade a estímulos intensos podem vivenciar ambientes ruidosos, superlotados e caóticos como excessivamente desorganizadores. Em termos neuropsicológicos, há maior sobrecarga do sistema de processamento sensorial, o que pode gerar irritabilidade, fadiga emocional e necessidade de retraimento, e não prazer.

- Para sujeitos com história de vínculos inseguros, invasivos ou marcados por perdas, essa vivência pode reativar angústias ligadas à perda de controle, à exposição excessiva ou à ameaça à integridade psíquica.

- Pessoas com um superego mais rígido ou com valores morais, religiosos ou existenciais fortemente internalizados podem vivenciar conflitos internos diante da permissividade típica dessas datas. O prazer coletivo pode ser acompanhado por culpa, vergonha ou julgamento interno, tornando a experiência emocionalmente custosa.

- Períodos socialmente associados à alegria tendem a intensificar processos de luto. A discrepância entre o clima externo de celebração e o estado interno de dor pode gerar sentimentos de inadequação, isolamento e solidão. Em alguns casos, a recusa à festa é uma forma de autoproteção emocional.

O fato de não gostar do Carnaval não deve ser interpretado como sinal de patologia, frieza afetiva ou dificuldade de socialização. Trata-se, muitas vezes, de uma resposta coerente entre o sujeito e suas necessidades de dentro, seu estilo de funcionamento e seu momento de vida. Do ponto de vista da saúde mental, é fundamental validar a pluralidade de vivências. Nem todo indivíduo necessita de descarga pulsional coletiva para manter equilíbrio emocional, assim como nem toda celebração produz integração ou bem-estar.

Reconhecer que o Carnaval é uma experiência cultural potente, porém não obrigatória, contribui para uma compreensão mais ética do sofrimento psíquico e para a construção de uma sociedade que respeita diferentes formas de estar, sentir e se relacionar com o mundo.

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