Sexta-feira 13
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Hoje é sexta-feira 13. Jason Vorhess afia ao seu facão, para mutilar e ensaguentar jovens sedentos por prazeres da carne, imprudentes e egoístas. Afinal, o jovem Jason morreu afogado no lago Cristal enquanto os salva-vidas aproveitavam um coito. Então, sua alma almadiçoada passou a matar incessantemente, se tornando um dos vilões mais temidos da infância de muita gente. Eu tinha mais medo do Freddy Krueger, porque ele matava nos sonhos. Mas quem não tinha arrepios com a música que tocava quando o slasher mais famoso do cinema se aproximava? Ah, e não podemos esquecer das bruxas estão à solta, contemplando o luar, fazendo poções, junto com o seu inseparável gato preto, pessoas não passam por baixo de escadas e coitados dos felinos, pois são amaldiçoados como nunca, graças à ignorância do homo sapiens.
A coluna de hoje é exatamente sobre isso. Sexta-feira 13, o dia em que projetamos nossos medos.
Jason está por aí. Não literalmente, claro, mas suficientemente vivo no imaginário coletivo para que, ao ouvir “sexta-feira 13”, alguém imediatamente imagine uma máscara de hóquei, um facão reluzente e aquela trilha sonora que mais parece um sussurro asmático do além. Sim, cito de novo, porque aquela música é maligna demais, como se composta pelo próprio Cão.
Hoje é sexta-feira 13. E hoje, como em toda sexta-feira, eu e meus filhos teremos nossa já tradicional sexta do terror, esse ritual doméstico em que pipoca, cobertores e filmes duvidosos funcionam como pedagogia emocional. Aprendemos cedo que o medo, quando encarado de frente e com luz acesa, diminui.
Mas esta sexta não é uma sexta qualquer. Há no ar algo diferente. Um ruído antigo. Um clima quase litúrgico. Porque na sexta-feira 13 o calendário carrega uma memória mais espessa.
Mas toda superstição começa assim. Não no fato em si, mas na projeção. A gente não teme a data. A gente projeta nela aquilo que não sabe explicar. Sexta-feira 13 é um espelho simbólico onde despejamos o medo do acaso, da perda de controle, do imprevisto que insiste em nos lembrar que o mundo não segue roteiro.
O problema começa com o número. O doze sempre foi o número da ordem. Doze meses. Doze signos. Doze apóstolos. Doze trabalhos de Hércules. Doze cavaleiros sentados à Távola Redonda, todos iguais em honra e palavra, porque ali não havia cabeceira. O doze organiza o mundo, dá sensação de sistema fechado, de harmonia alcançada.
O treze chega como quem não foi convidado. Ele rompe a simetria, desarruma a mesa, desloca o equilíbrio. Por isso assusta. O treze simboliza o que vem depois do que parecia perfeito. A mudança. O excesso. O erro necessário para que algo novo exista.
Curiosamente, em tradições antigas, o treze também era sagrado. Ligado às treze luas do ano, às antigas bruxas que não eram vilãs caricatas, mas mulheres que sabiam observar ciclos, curar, compreender a natureza. Foram demonizadas porque sabiam demais. Nada mais perigoso, ao longo da história, do que alguém que compreende o mundo sem pedir permissão.
A sexta-feira também não ajuda. Dia consagrado a Vênus, deusa do amor, do prazer e da fertilidade, que a moral medieval tratou de converter em suspeita. E pensa que ainda é sexta-feira 13 de Carnaval, a festa da carne.
Historicamente, também foi numa sexta que Cristo foi crucificado. O dia passou a carregar um peso simbólico de queda, sacrifício e expiação. Some-se a sexta ao treze e está montado o cenário perfeito para séculos de medo coletivo. Ah, eu nasci em uma sexta-feira. Meu pai faleceu em uma sexta-feira. Enfim, é interessante.
Mas vamos falar da origem desta auspiciosa data arquetípica. A sexta-feira 13 ganha densidade histórica mesmo em 13 de outubro de 1307. Sexta-feira. Quando o rei Filipe IV da França, piedoso apenas nos discursos e falido na prática, decide resolver seus problemas financeiros de forma criativa. Endividado até o último nervo moral com os Cavaleiros Templários, Filipe aciona seu homem de confiança, Guillaume de Nogaret. Jurista frio, eficiente, sem qualquer inclinação mística. Nogaret foi o cérebro da operação.
Naquela madrugada, por ordem real e com precisão administrativa, templários foram presos em toda a França. Monges guerreiros arrancados de seus conventos, surpreendidos em suas camas, algemados como criminosos comuns. As acusações vieram prontas, como formulário preenchido antes do crime. Heresia. Idolatria. Negação de Cristo. Rituais obscenos. Sodomia. Cusparadas na cruz. Tudo aquilo que, convenientemente, chocava uma sociedade medieval e legitimava a tortura.
Sob tormento, muitos confessaram.
Confissões arrancadas à força sempre foram o método favorito de regimes inseguros. A Inquisição entrou em cena com entusiasmo. O papa Clemente V, mais político do que pontífice, hesitou, recuou, mas acabou cedendo à pressão do rei francês. A Ordem foi dissolvida. Seus bens, confiscados. Seus membros, mortos, presos ou dispersos.
O crime real dos Templários não foi heresia. Foi eficiência. Criaram um sistema financeiro sofisticado, foram os precursores do sistema bancário, onde criaram cartas de crédito, redes internacionais, autonomia econômica. Eram independentes demais para um rei endividado e perigosos demais para uma Igreja que já não controlava totalmente o jogo. Melhor matar do que pagar, pensou o rei.
Anos depois, em 18 de março de 1314, Jacques DeMolay, último Grão-Mestre templário, foi queimado vivo em Paris, numa pequena ilha do Sena. Até hoje tem um monumento lá, dizendo que ali morreu De Molay, o último templário. O mártir recusou-se a manter a confissão forçada. Reivindicou sua inocência. E, segundo a tradição, gritou o nome de Deus e por vingança, por três vezes, e, em seguida, lançou suas última palavras como quem crava uma estaca simbólica na história. Convocou o papa Clemente V, Nogaret, e o rei Filipe IV a comparecerem perante o tribunal divino em até um ano, para prestarem conta de seus atos. O papa morreu semanas depois. O rei, meses mais tarde, assim como Nogaret. Nenhum completou um ano após a morte de DeMolay. Coincidência? Essa é uma história que faz até o cético pigarrear antes de responder.
O fato é que a partir dali, a sexta-feira 13 deixou de ser apenas superstição. Tornou-se símbolo. Da traição ao ideal. Da vitória do poder bruto sobre a ética. Do momento em que o mundo entendeu que instituições podem ser destruídas, mas legados não.
Porque o legado templário não morreu na fogueira. Ele se fragmentou. Espalhou-se. Inspirou ordens, mitos, lendas, códigos de honra. Alimentou o imaginário da cavalaria, da lealdade, do sacrifício por algo maior. Virou literatura, virou símbolo, virou pergunta incômoda sobre até onde o poder pode ir quando não encontra resistência moral.
Outras sextas-feiras trataram de reforçar a fama. Crash da bolsa, guerras iniciadas, impérios rachando, tratados assinados. Não porque a sexta seja maldita, mas porque o ser humano tem um talento impressionante para concentrar tragédias em qualquer dia da semana. A diferença é que, na sexta-feira 13, a gente presta mais atenção.
E aqui entra a parte em que o calendário parece gostar de ironia. Sim, há uma coleção de sextas-feiras 13 que viraram manchete, tragédia, estudo de caso, tese de sociologia e jantar indigesto. Não porque o número tenha dentes. Mas porque o ser humano tem.
Exemplos? Vários. Vou citar alguns, para ninguém dizer que faltou “prova”, como se a vida e o próprio universo se importassem com nosso desejo de evidência. Citei alguns destes exemplos, inclusive, em meu livro "Sombras da Verdade: Um Guia Para Teorias da Conspiração".
Em 13 de janeiro de 1939, uma sexta-feira, Victoria, na Austrália, entrou para a história com os incêndios conhecidos como Black Friday. (pegou a referência né?) Foi fogo em escala quase bíblica, queimando cerca de 2 milhões de hectares, destruindo centenas de casas e matando dezenas de pessoas. A frase registrada na época, de que “parecia que o Estado inteiro estava em chamas”, é o tipo de exagero que deixa de ser exagero quando a paisagem vira carvão.
Em 13 de março de 1964, outra sexta-feira, Kitty Genovese foi assassinada em Nova York. E o crime ficou famoso menos pela crueldade do ataque e mais pela lenda urbana do “bystander effect”, esse desconforto coletivo de olhar para a janela moral do ser humano e descobrir que a indiferença também tem pernas. A história real é mais complexa do que a versão pop, mas a data ficou. Sexta. Treze. E a constatação amarga de que civilização é um verniz fino.
Em 13 de outubro de 1972, sexta-feira, um avião uruguaio caiu nos Andes. Aquele do filme Vivos. Do time de Rugby. O nome bonito, milagre dos Andes, veio depois, quando a sobrevivência virou narrativa e a narrativa virou símbolo. Na hora, foi frio, altitude, desespero, 72 dias de isolamento, e um tipo de decisão extrema que a humanidade prefere não imaginar até ser obrigada. Até canibalismo cometeram pra sobreviver.
Em 13 de outubro de 1989, sexta-feira, o mercado financeiro teve seu ataque de nervos batizado de Friday the 13th mini crash. O Dow Jones despencou, o pânico procurou motivo depois do estrago e, como sempre, o mundo descobriu que até a racionalidade econômica é, no fundo, um teatro de emoções com gravata.
Em 13 de setembro de 1996, sexta-feira, Tupac Shakur morreu. E, desde então, nasceu uma mitologia paralela, como se a cultura contemporânea não soubesse lidar com a morte sem transformar o cadáver em símbolo, o símbolo em teoria, a teoria em disputa e a disputa em mercadoria. Sexta-feira 13, novamente, fazendo aquilo que faz melhor. Colocar um holofote supersticioso sobre uma tragédia real.
Em 13 de janeiro de 2012, sexta-feira, o Costa Concordia encalhou e virou um monumento grotesco à soberba humana. A ideia do “salute”, o desvio da rota, a rocha, o caos, as mortes. Um navio de lazer convertido em lição de humildade, dessas que custam caro e vêm sem manual.
E 13 de novembro de 2015, sexta-feira, Paris sofreu os ataques coordenados que marcaram uma geração. A data não explica o horror. Mas o horror, de algum modo, parece ter escolhido uma data que já carregava, no imaginário, um peso simbólico. Se superstição é projeção, ali a projeção foi esmagada pela realidade.
Dá para continuar, e o mundo continuaria oferecendo material, porque o mundo é prolífico em desgraças e a mente humana é prolífica em padrões. O que nos fascina não é o fato de ter acontecido numa sexta-feira 13. O que nos fascina é a sensação de que o universo confirma nossos pressentimentos. Como se o medo dissesse “eu avisei”, e nós, humildes fiéis do pavor, assentíssemos com a cabeça.
E convém deixar claro, antes que alguém veja códigos onde só há símbolos. O 13. Quando falo dele, não há política aqui. Não há lado. Não há militância. É história, memória e ironia. Num país em que até o calendário corre o risco de ser interpretado ideologicamente, toda explicação prévia virou um gesto de sobrevivência.
No fundo, a sexta-feira 13 não cria o medo. Ela revela. Ela nos obriga a admitir que controle absoluto é uma fantasia infantil. Que o mundo é instável. Que a vida não respeita planilhas nem boas intenções.
Talvez por isso ela seja tão fascinante. Porque nos lembra que o desconforto também educa. Que crescer é aprender a caminhar mesmo quando a simetria se quebra. Que o treze não destrói o doze. Apenas o ultrapassa.
Hoje, entre um filme de terror e outro, talvez valha a pena fazer uma coisa pouco supersticiosa e muito adulta. Em vez de pedir que o dia seja “seguro”, pedir que você seja firme. Em vez de implorar por sorte, treinar presença. Porque a vida não vai parar de surpreender só porque você gostaria. O que muda tudo é o que você faz quando ela surpreende.
Se a sexta-feira 13 tem algum ensinamento, ele é simples e incômodo. O medo é uma lente. A história é um aviso. E coragem não é ausência de tremor. Coragem é ir mesmo tremendo, com dignidade suficiente para não terceirizar a própria alma para um número no calendário.












