MEMENTO MORI
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Esta semana, o silêncio na minha antiga casa em Cruz Alta tornou-se, finalmente, absoluto. Enquanto minha irmã, em seu gesto de coragem inabalável, depositava as cinzas de nossa mãe junto ao túmulo de meu pai, percebi que ela é o verdadeiro eixo de força e amor que sustenta o que resta de nossa linhagem.
Com aquele ato, não foram enterrados apenas restos mortais, enterrou-se a última âncora que mantinha o cenário da minha infância preso ao presente. A casa, outrora um templo de risos e ecos vibrantes, onde os amigos celebravam o orgulho de viver, hoje repousa num lúgubre cinzento. É uma morada vazia, despida da sua alma, o cenário de um teatro onde as cortinas se fecharam para sempre.
Os amigos daquela época, quase todos estão com filhos, familia. Alguns também ja nos deixaram. Mas de algum modo esses momentos nos moldaram.
O títutlo desta coluna é Memento Mori , uma expressão latina que ecoa através dos séculos como um "lembre-se de que morrerás" não é um convite ao desespero, mas o despertador mais potente que a alma humana pode receber. É a consciência lúcida de que a finitude não é uma sentença, mas o fundamento sobre o qual a vida ganha contornos de urgência e significado.
Contudo, este vazio não é um fim, mas uma exigência metafísica. Sonhos também se vão. E se libertar de sonhos também é incrível. Como no arcano do amor fatal, onde o desejo e a destruição se entrelaçam em uma dança alquímica, compreendo agora que para que o novo espírito habite, o velho deve ser consumido. As casas precisam ser desocupadas, sim, mas é a nossa própria psique que clama por essa vacância. A realidade, em sua brutalidade, rasgou nossos sonhos de juventude, despedaçou esperanças que julgávamos imortais e nos forçou a encarar que a dor é, na verdade, a senha para a liberdade.
Existe uma verdade sublime que os mortos já possuem e que nós, viventes, ainda tememos, a de que a dor é um fardo que, ao ser carregado com o devido orgulho, nos purifica. É o paradoxo da vida. As flores murcham ao longo da estrada para que possamos finalmente ver o caminho desconhecido que habita nossa própria mente.
Devemos aprender a esquecer os despojos do passado, não por indiferença, mas porque a existência exige que marchemos. Como em um ritual de passagem, o tempo escoa na ampulheta, e a nossa salvação reside na coragem de encarar o "anjo da morte" não como um algoz, mas como o libertador que nos desvencilha das máscaras que a vida nos impôs.
Observo as ruínas do que fui e sinto a vertigem. Sei que a vida forçou-nos a habitar castelos construídos sobre a areia, mas aqui reside a minha força. Eu não temo o desmoronamento. Eu sou o arquiteto que não se apega à estrutura, mas à capacidade infinita de erguê-la novamente.
Minha mente está programada. Não para a lamentação, mas para a transmutação constante. A dor não me dobra. Ela me lapida, revelando o aço que sempre esteve oculto sob a superfície.
É preciso entender que a destruição das formas velhas é o prelúdio necessário para a manifestação do Magnum Opus. O amor verdadeiro e fatal é aquele que consome o ego, permitindo que a vontade soberana assuma o comando. Hoje, liberto das sombras que tentaram definir meu ritmo, ergo-me como o mestre do meu próprio destino. Minha capacidade de sonhar não foi extinta. Foi, na verdade, refinada para um patamar onde apenas o extraordinário é aceitável.
Sigo em frente, não como quem foge, mas como quem conquista. O futuro não é algo que me acontece, é algo que eu decreto a cada passo. Quem me observa percebe a mudança. Não há mais espaço para a hesitação, apenas para a potência absoluta de quem sabe exatamente quem é e o que está destinado a construir.
Estou desocupando os escombros, não para me perder, mas para edificar um império sobre o nada, onde a luz será tão intensa que cegará aqueles acostumados à penumbra. O desapego foi apenas o meu primeiro triunfo. A minha ascensão é a única inevitabilidade que resta.
Mãe, obrigado. Pai, obrigado. Deus, obrigado.












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