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Relacionamentos líquidos ou pessoas emocionalmente exaustas?

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    temporacomunicacao
  • há 1 hora
  • 4 min de leitura

COLUNA DE FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Nunca tivemos tantas formas de nos conectar. Em poucos minutos, é possível conhecer alguém, iniciar uma conversa, compartilhar parte da vida e, se o papo não for conforme a expectativa construída, simplesmente desaparecer e começar novamente com outra pessoa. A tecnologia encurtou distâncias, mas não necessariamente aproximou as pessoas.


Paradoxalmente, quanto mais recursos temos para nos relacionar, mais observamos pessoas solitárias, frustradas e inseguras diante da construção de vínculos duradouros. Existe um desejo genuíno de amar, de pertencer e de encontrar alguém com quem dividir a vida. Mas, ao mesmo tempo, há uma dificuldade crescente em sustentar aquilo que faz qualquer relacionamento existir: investimento, reciprocidade, tolerância, renúncias, diálogo e permanência.


Vivemos em uma sociedade que nos acostumou à rapidez. Se um aplicativo trava, trocamos de aplicativo. Se um produto não agrada, devolvemos. Se algo demora, procuramos uma alternativa mais eficiente. Aos poucos, essa lógica do consumo passou a influenciar também as relações humanas. Sem perceber, muitas pessoas passaram a esperar que os relacionamentos funcionem como produtos: que atendam às expectativas, proporcionem bem-estar constante e exijam o mínimo possível de esforço. Quando surgem conflitos, diferenças de personalidade, frustrações ou momentos difíceis, rapidamente surge a sensação de que "não era a pessoa certa". Como se um relacionamento saudável fosse justamente aquele que nunca produz desconforto.


Essa talvez seja uma das maiores ilusões da atualidade. Não existe intimidade sem desconforto. Não existe vínculo profundo sem diferenças. Não existe convivência prolongada sem frustrações ocasionais. Quanto maior a proximidade entre duas pessoas, maior também será a necessidade de negociar expectativas, rever comportamentos, pedir desculpas, reparar erros e aprender a conviver com aquilo que o outro jamais deixará de ser.


O conflito, por si só, nunca foi o problema. O problema é a forma como aprendemos a enxergá-lo. Em vez de compreendê-lo como parte natural do desenvolvimento de uma relação, muitas pessoas o interpretam como prova de incompatibilidade. Essa dificuldade revela algo maior: nossa tolerância emocional parece cada vez menor. Estamos vivendo uma época marcada pela baixa tolerância à frustração. Fomos incentivados a buscar felicidade constante, satisfação imediata e bem-estar permanente. Sofrer tornou-se quase sinônimo de fracasso, quando, na realidade, o sofrimento faz parte de qualquer experiência humana significativa.


Relacionamentos maduros exigem enfrentar conversas difíceis, suportar momentos de incerteza, lidar com diferenças e atravessar períodos em que amar significa muito mais escolher permanecer do que simplesmente sentir.


Outro aspecto importante é a confusão cada vez mais frequente entre autonomia e autossuficiência. A autonomia emocional é saudável. Ela permite que uma pessoa tenha identidade própria, preserve sua individualidade e construa relações sem dependência excessiva. Já a autossuficiência emocional, quando transformada em ideal absoluto, frequentemente funciona como uma estratégia de proteção. A pessoa passa a acreditar que precisar de alguém representa fraqueza e, para evitar futuras dores, aprende a não depender, não demonstrar vulnerabilidade e não permanecer tempo suficiente para que um vínculo realmente se forme. Muitas vezes, o discurso da independência esconde um profundo medo de sofrer. É mais fácil dizer que não precisamos de ninguém do que admitir o receio de sermos rejeitados, decepcionados ou abandonados.


Ao mesmo tempo, observa-se outro movimento igualmente preocupante: relacionamentos cada vez mais centrados naquilo que se deseja receber e cada vez menos naquilo que se está disposto a oferecer. Procura-se alguém paciente, mas nem sempre exercitamos a paciência.


Espera-se compreensão, mas há pouca disposição para compreender. Busca-se alguém emocionalmente disponível, enquanto muitos permanecem protegidos atrás de barreiras construídas para evitar qualquer vulnerabilidade. Queremos parceiros que invistam na relação, mas frequentemente hesitamos quando chega a nossa vez de investir.


Essa lógica cria relações marcadas por expectativas elevadas e baixíssimo comprometimento. Todos esperam encontrar alguém disposto a construir, mas poucos desejam assumir o trabalho que construir exige. Ao que parece, estamos confundindo amor com facilidade. Um relacionamento saudável não é aquele em que nunca existem conflitos, diferenças ou momentos difíceis. É aquele em que existe segurança suficiente para que essas dificuldades possam ser enfrentadas sem que toda a relação seja colocada em risco a cada desentendimento.


Aqui, é importante fazer uma distinção: permanecer não significa aceitar violência, abuso, humilhação ou desrespeito. Existem relações que precisam terminar, porque comprometem a saúde física e emocional. Entretanto, também existem relações potencialmente saudáveis que acabam precocemente porque qualquer desconforto passou a ser interpretado como sinal de que algo está errado.


Talvez seja por isso que tantas pessoas se sintam sozinhas. Não necessariamente porque lhes faltem oportunidades para amar, mas porque construir intimidade exige exatamente aquilo que nossa sociedade menos estimula: tempo, paciência, presença, capacidade de reparar, disposição para conversar e coragem para enfrentar frustrações inevitáveis. As relações mais profundas não sobrevivem porque são leves o tempo todo. Elas sobrevivem porque duas pessoas compreendem que amar não é encontrar alguém que nunca dará trabalho. É encontrar alguém com quem ambos estejam dispostos a enfrentar, juntos, o trabalho de construir uma história.


No fim, talvez a pergunta mais importante não seja "por que está tão difícil encontrar alguém?", mas outra, bem mais desafiadora: “estamos preparados para oferecer ao outro aquilo que esperamos receber?” E mais... “estamos dispostos a enfrentar a realidade de que o outro falha e de que nós também seremos imperfeitos diante dele?”


Vínculos duradouros não são sustentados apenas pelo desejo de ser amado. Eles nascem, sobretudo, da disposição de amar de forma madura — compreendendo que reciprocidade, responsabilidade afetiva, investimento emocional e comprometimento continuam sendo os alicerces sobre os quais qualquer relacionamento verdadeiramente significativo é construído.


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