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Márcia Tafarel, a atleta de Bento que venceu a lei e o tempo e conquistou o mundo com a força de um abraço de mãe

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    temporacomunicacao
  • há 23 horas
  • 4 min de leitura

POR DIEGO FRANZEN / PAUTA SERRANA


Marcia Tafarel concedeu entrevista ao jornalista Diego Franzen na tarde desta terça-feira
Marcia Tafarel concedeu entrevista ao jornalista Diego Franzen na tarde desta terça-feira

Ela cruzou a porta da redação do Pauta Serrana na tarde desta terça-feira com o mesmo passo firme de quem abria caminhos na raça e no talento, na grama alta, quando todos diziam que futebol feminino era uma contravenção. Márcia Tafarel traz Bento Gonçalves grudada na sola dos calçados e na fresta da alma. Onde quer que ela vá, do solo sagrado das Olimpíadas aos gramados perfeitos dos Estados Unidos, ela carrega esse sotaque de parreira e pedra, esse orgulho que brilha manso no fundo dos olhos de quem sabe exatamente de onde veio para nunca esquecer quem é.


Havia uma calmaria impressionante na sua fala tranquila enquanto rememorava os tempos em que chutar uma bola era, literalmente, um ato fora da lei. Até o ano de 1979, o decreto federal proibia as mulheres de praticarem o esporte, rotulando-o como incompatível com a natureza feminina.


Mas as leis dos homens não são capazes de frear o destino de quem nasceu para voar.


Naquela época de sombras e proibições, a grande fortaleza de Márcia foi sua mãe, uma mulher visionária que não enxergava barreiras, apenas o talento e o direito da filha de ser feliz. "A minha mãe foi a frente de seu tempo e foi justamento o incentivo dela que me blindou contra o preconceito e me deu forças para ganhar o mundo.", relembra, nostálgica.


A memória dela viaja com precisão cirúrgica até aquele ano de 1983, quando o futebol feminino engatinhava na legalidade. Márcia estava lá, testemunha viva da história, no primeiro jogo oficial da modalidade no Rio Grande do Sul, o duelo histórico entre Esportivo e Rio Grande. A partida aconteceu na preliminar do grande confronto entre Grêmio e São Paulo pelo Campeonato Brasileiro. Estar ali, sentindo a vibração de um estádio que finalmente aceitava a presença das mulheres em campo, foi o combustível que ela precisava para entender que o futuro pertencia a elas. "Estar nesta partida foi o momento exato em que percebi que o futuro pertencia a nós e que nada mais nos pararia.", afirmou.


Olhar para Márcia hoje é ver, na moldura do passado, a guria que jogava bola tendo o irmão Murici Tafarel como uma sombra afetuosa. Ele era quase um mascote, o guri que a acompanhava em toda parte, testemunha silenciosa de um talento que não cabia nos limites de um quintal. Murici via o que o mundo demoraria a entender, que ali batia o coração de uma pioneira que transformaria o futebol feminino em um elemento essencial de transformação social.


Ela vestiu a camisa da seleção em uma época em que o uniforme era sobra do masculino, adaptado na base do improviso. Jogou a primeira Copa do Mundo e esteve lá, gigante, nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, fincando a bandeira da mulher brasileira no cenário global.


Essa caminhada a transformou em referência tão inquestionável que, até o ano de 2025, gravou seu nome na história como a primeira técnica da seleção americana de futsal feminino. Nos Estados Unidos, onde vive e trabalha hoje, ela lapida o amanhã.


E o amanhã, para Márcia, é desenhado com uma esperança inabalável que transborda no olhar. Ela fala do futuro com a certeza de quem conhece a força da camisa amarela. Acredita piamente no hexa dos homens este ano, nos gramados do mundo, mas seus olhos ganham um brilho ainda mais intenso ao projetar o ano que vem.


Ela tem convicção de que o título do futebol feminino virá na Copa do Mundo, um evento que terá o Brasil como palco e que vai mexer com as estruturas do país. "Temos estrutura, atletas experientes e com projeção internacional. Acho que nosso momento de celebrar essa glória está muito perto e eu confio no nosso potencial para conquistar o mundial", declarou, otimista.


O coração dela bate ainda mais forte porque sabe que sua amada Bento Gonçalves será cidade sede de treinamento para as delegações mundiais, trazendo os olhos do planeta para o chão onde ela própria começou a chutar as primeiras bolas.


Agora ela está de férias e estar aqui é um ritual sagrado. Márcia não esconde o amor profundo por essa terra e revela, com um sorriso terno, que trouxe na bagagem uma lista detalhada de visitas. São amigos de infância, familiares e pessoas queridas que ela faz questão de ver e conversar, resgatando as conexões que o tempo e a distância jamais conseguiram apagar.


Sentada na redação, com a simplicidade dos grandes e o otimismo dos vencedores, Márcia Tafarel parecia condensar décadas de luta em um instante de absoluta paz. Ela conquistou o mundo, mas o seu coração sempre voltará para Bento Gonçalves.


Não há dúvidas que nas ruas, nas cidades, estão novas Marcias Tafarel, novas Martas, Formigas, Megs, e a elas a campeã tem um recado claro: ""As meninas de hoje precisam entender que o campo de futebol, ou qualquer outro lugar que elas escolham estar, pertence a elas por direito. Nunca deixem que uma lei, um preconceito ou a dúvida de alguém mude o tamanho dos seus sonhos, porque o mundo é de quem tem a coragem de chutar a bola para frente e vencer."





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