O Significado do Dia Internacional do Luto e o Desafio de Acolher a Dor em uma Sociedade que Evita o Sofrimento
- temporacomunicacao

- 19 de jun.
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POR DIEGO FRANZEN / PAUTA SERRANA

Neste dia 19 de junho, o calendário nos impõe uma pausa incômoda, pois celebra-se o Dia Internacional do Luto. A data não foi criada para celebrar a morte, mas para lançar luz sobre o processo de quem fica, validando o vazio que se instala no peito de milhares de pessoas diariamente. No jargão jornalístico, costuma-se dizer que o luto é a única certeza democrática da existência, o preço inevitável que pagamos por termos tido a audácia de amar alguém.
Na prática do cotidiano, porém, a sociedade moderna lida com a perda da mesma forma que lida com as calçadas esburacadas da cidade, fingindo que não existem ou tentando desviar o caminho para não tropeçar no desconforto.

Basta abrir a tela do celular para perceber o fenômeno. Vivemos em um imenso e coreografado festival de sorrisos editados, onde o sofrimento foi banido por decreto social. É o que aponta a psicóloga clínica Franciele Sassi, mestre em psicologia clínica, especialista em lutos, perdas e suicídio, especialista em apego e vínculos, intervenções em emergências pós-desastre e colunista do Pauta Serrana.
Segundo Franciele, nós habitamos uma cultura que evita o sofrimento a todo custo. "Nas redes, por exemplo, a gente não vê dor, a gente vê os recortes da perfeição da sociedade, e isso não é uma realidade, mas facilmente engana a todos nós", afirma.
O luto quebra essa ficção e surge como um intruso incômodo porque, nas palavras da psicóloga, "falar sobre o luto nos lembra da nossa vulnerabilidade e da finitude da vida, daquilo que nos mostra impotência, e isso gera desconforto, porque escancara que não podemos controlar tudo".
Quando a dor do outro se apresenta, a nossa reação imediata é tentar desviar o olhar ou oferecer saídas rápidas. "Muitas pessoas não sabem como lidar com a dor do outro e acabam mudando de assunto ou tentando 'resolver' o sofrimento, quando, na verdade, ele precisa ser acolhido. E o primeiro passo começa quando a gente profissionalmente suporta escutar a dor do outro", adverte.
Olhar para a vida com aquela mistura fina de melancolia e ternura nos faz compreender que as nossas maiores forças nascem justamente das nossas fraquezas compartilhadas. É preciso entender o diagnóstico sobre a nossa insistente mania de preencher o vazio com ruído inútil. Na tentativa de consolar, o ser humano recorre a um arsenal de clichês insuportáveis, frases prontas que mais parecem um anestésico para quem as diz do que um bálsamo para quem as ouve.
Franciele Sassi explica que "o mais importante é estar presente. Não é preciso encontrar as palavras perfeitas. Ninguém 'tem que' resolver a dor de ninguém".
O apoio real é silencioso, é o abraço que não pede explicações e o respeito ao tempo de cada um. A especialista reforça que "o enlutado precisa se sentir escutado na sua experiência, acolhido em sua dor, precisa sentir que a presença é verdadeira".
Frases simples como "estou aqui para você" ou "precisa que eu te ajude com alguma coisa nesse momento?" costumam ser infinitamente mais acolhedoras. "Precisamos atentar a não precisar ficar num lugar de 'curar' a dor do outro quando, provavelmente, isso diz mais sobre as próprias angústias", pontua a psicóloga.
Há quem pense que o luto é uma doença que se cura com o passar dos meses, uma página que se vira para que o livro continue imaculado.
Não é. "O luto é um processo natural e não tem prazo. A gente não se 'cura' do luto", esclarece Franciele. Ele passa a ser um registro eterno, uma cicatriz na pele da alma. "Sempre explico para os meus pacientes que o luto fica como registro eterno na nossa vida, mas o nosso livro não tem apenas esse capítulo", reflete.
No entanto, quando essa dor se torna uma névoa espessa que impede a pessoa de caminhar, o processo exige um cuidado diferenciado. "Quando a dor impede a pessoa de seguir com a vida, provoca um sofrimento intenso e persistente ou vem acompanhada de desesperança, isolamento ou perda do sentido da vida, é importante buscar ajuda profissional. Pedir ajuda é um ato de cuidado e valorização da própria vida", orienta.
Em um mundo cheio de juízes de calçada prontos para ditar as reações alheias, o acompanhamento psicológico surge como um porto seguro. "Lá fora já escutamos muitos julgamentos sobre o tempo e as reações dos enlutados. O acompanhamento é o que valida a dor, explica o 'passo a passo' de um manual que não existe, mas orienta, direciona, constrói junto com a pessoa formas de viver ainda que integradas à dor", finaliza.
Neste Dia Internacional do Luto, a grande lição que fica é que a dor da perda não é um ponto final, mas uma linha transparente que nos conecta a todos na nossa mais profunda e bela humanidade.













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