Novembro Azul: O luto, o diagnóstico e a importância da prevenção
- temporacomunicacao
- 5 de nov.
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Coluna da psicóloga Franciele Sassi

Após passado Outubro, como o mês da prevenção do câncer de mama, não menos importante, chegamos ao mês de novembro, com o Novembro Azul, que tem como finalidade dar visibilidade à saúde do homem, em especial à luta contra o Câncer de Próstata — mas essa campanha vai além de alertas sobre exames e prevenção: ela toca em momentos profundos da vida de muitos homens, de suas famílias e das transformações que um diagnóstico pode trazer.
No Brasil, os números reforçam a gravidade e a necessidade de atenção. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam para cerca de 71.730 novos casos de câncer de próstata a cada ano no triênio 2023-2025. Em termos de mortalidade, os registros indicam que em 2024, por exemplo, foram cerca de 17.587 óbitos no país, numa média de cerca de 48 mortes por dia. Estes dados revelam que, embora muitos casos possam ter bom prognóstico se detectados precocemente, a incidência e as mortes ainda são elevadas, o que expõe a urgência da conscientização, do acesso ao cuidado e da superação dos tabus associados à saúde masculina.
Quando um homem recebe o diagnóstico de câncer de próstata, ele não está apenas ouvindo uma informação médica: está entrando em um processo de mudança de vida. Esse processo é profundamente marcado por várias formas de luto:
Luto pela saúde que se acreditava ter: a descoberta da doença muitas vezes coloca um “antes” e um “depois”. A imagem de vitalidade, de normalidade, de controle pode sofrer abalo.
Luto pela rotina que será alterada: exames, tratamento, possíveis mudanças hormonais, efeitos colaterais, continuidade de trabalho ou retorno ao trabalho — tudo isso pode mudar.
Luto pela identidade: para muitos homens, admitir vulnerabilidade, passar por um tratamento, ter que lidar com medos ou fragilidades representa uma ruptura da concepção de força que a sociedade costuma vincular ao gênero masculino.
Luto das relações: a família, parceiras, filhos ou amigos também entram nesse processo. O diagnóstico afeta o outro lado — que deixa de ver o homem exatamente como antes e passa a lidar com incertezas, medos e adaptações.
Embora o diagnóstico traga dor e incerteza, ele também pode ser o ponto de partida para mudanças significativas como, por exemplo, a mudança de comportamento em saúde, ou seja, passar a priorizar consultas regulares, exames de rastreamento (como o PSA e toque retal), estilo de vida mais saudável (atividade física, alimentação equilibrada, abandono do tabagismo) — algo que já é encorajado pela campanha Novembro Azul. Também passa por uma revisão das prioridades pessoais e familiares, ou seja, o susto pode levar a valorizar mais o tempo com a família, a redefinir o que importa, a buscar apoio emocional ou psicológico. A transformação não é apenas física, mas existencial. Ocorre também uma transformação social e cultural, ou seja, o ato de falar sobre o câncer de próstata e sobre o luto que o acompanha ajuda a reduzir o estigma.
Dados mostram que os homens chegam tarde ao acompanhamento — por medo, vergonha ou desconhecimento. Campanhas como o Novembro Azul têm papel fundamental para que mais homens saibam dos riscos, façam os exames, e apoiem uns aos outros emocionalmente. O aumento no número de atendimentos de homens mais jovens, por exemplo, pode ser parte desse efeito: entre 2020 e 2024, houve um aumento de 32% nos atendimentos de homens com até 49 anos para câncer de próstata no Brasil.
No país, onde o câncer de próstata é o tipo de tumor mais incidente entre os homens (excluindo os de pele não melanoma) e onde milhares de vidas são perdidas anualmente, a conscientização do Novembro Azul ganha ainda mais peso. Mas alertar sobre exames e estatísticas não é suficiente; é preciso reconhecer o luto silencioso que se segue ao diagnóstico e oferecer caminhos reais de mudança e apoio emocional.
Falar sobre o diagnóstico é também falar sobre adaptação, fortalecimento e ressignificação. Quando o homem, sua rede de apoio (familiares, amigos) e a sociedade se juntam para que esse momento seja menos solitário, menos tabu, mais acolhido, a campanha se transforma em cuidado real. Afinal, enfrentar o câncer de próstata é, ao mesmo tempo, uma jornada de tratamento e uma jornada interna de entendimento, reconexão e transformação.














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