Não é sobre vencer, é sobre não se perder
- temporacomunicacao
- 5 de jan.
- 4 min de leitura
Coluna de Diego Franzen
Ano novo, vida nova. De novo.
Sim, de novo.
Esta é minha primeira coluna de 2026. Pensei muito sobre o que escrever. Mas parei de pensar e deixei o coração traçar as linhas que se seguem.
Todo janeiro repete o mesmo ritual, as mesmas promessas, a mesma sensação de recomeço. Mas nesta primeira coluna do ano não há intenção de vender esperança em embalagem colorida.
Há apenas reflexões. E alguma fé teimosa. O ano que passou não foi fácil. Sonhos ficaram pelo caminho. Ídolos caíram. Amigos partiram. Minha mãe se foi. Saí machucado. Mas vivo. E disposto a honrar o legado, o amor e a confiança dos que vieram antes de mim.
Como deve ser!
2026 chega com essa cara conhecida de promessa inflada. Ano de Copa do Mundo, ano de eleição, ano em que o brasileiro acredita simultaneamente na redenção coletiva e no hexa, o que revela certa vocação nacional para o otimismo seletivo.
Vivemos num país com ares de Blefuscu, governado por disputas de Liliput. Gigantes que brigam como anões, anões que se proclamam gigantes. Tudo muito barulhento, tudo muito sério, tudo profundamente provisório. Nesse cenário, vencer virou obsessão. Ganhar o debate. Ganhar razão. Ganhar espaço. Pouca gente preocupada em não se perder no meio disso tudo.
Porque ganhar, convenhamos, qualquer um ganha. Às vezes até sem mérito. Difícil é atravessar o tempo com a alma inteira, sem vendê-la em suaves prestações morais que a consciência cobra depois, com juros altos.
Vivemos tempos em que a inteligência anda desacompanhada da honra, feito lâmina sem bainha, ferindo a própria mão que a empunha.
Chamam isso de esperteza. Eu chamaria de burrice sofisticada. Inteligência que não sustenta caráter degenera em astúcia do ego. E o ego, quando se acha sábio, costuma ser apenas barulhento. É o triunfo do discurso sobre a consciência. E discurso, como se sabe, não salva ninguém.
A vida é breve.
Sempre foi.
Um sopro entre dois silêncios.
A novidade é fingirmos surpresa. O problema nunca foi morrer cedo, foi viver pequeno. Apequenado por medo, por conveniência ou por essa preguiça moral que transforma gente em coisa. Viver pequeno cansa mais do que viver certo.
Não há mística maior do que acordar todos os dias e escolher não se tornar menos humano.
E amar, nesse tempo apressado, tornou-se ato de resistência. Amor não é entretenimento.
É bravura.
Não falo do amor frágil, ornamental, que vive de promessas e morre no primeiro desconforto. Falo do amor à maneira antiga, cavaleiresca, que não se exibe, mas se sustenta. Amor de companheirismo, de caminhar lado a lado quando o caminho se estreita. Amor de cumplicidade silenciosa, em que o olhar compreende antes da palavra e a presença vale mais do que qualquer jura.
Amar, assim, é pacto de honra.
É guardar o nome do outro como quem guarda um estandarte ou uma relíquia preciosa e sagrada. É proteger a dignidade alheia mesmo quando ninguém está vendo. É escolher lealdade quando a fuga parece mais fácil.
Os antigos sabiam. Amar não era possuir, era servir. Não era dominar, era velar. Havia nisso algo de sagrado, quase litúrgico. Quem ama desse modo não busca aplauso, busca retidão.
Honra, aliás, sempre foi coisa simples. Os antigos falavam dela como quem fala do pão. Sem solenidade. Honra não era virtude ornamental pendurada em discurso, era hábito. Era manter a palavra quando ninguém cobrava. Era não se explicar demais. Era agir como se sempre houvesse testemunhas invisíveis: Deus, a consciência, os mortos. Nenhum deles se comove com retórica.
A cavalaria moderna não usa espada nem armadura.
Os duelos não são físicos, são internos. Cavaleiros e damas carregam cansaço, silêncio e escolhas feitas longe do palco. Resiliência não é frase motivacional nem pose de sobrevivente. É persistir sem endurecer. É continuar justo num mundo que recompensa o esperto, o imbecil de lábia fácil e ego inflado, disposto a ferir os outros em nome da própria vaidade. Seguir sem se tornar aquilo que se combate é uma honra indelével.
Enquanto isso, o país segue discutindo quem vai nos salvar, como se salvação viesse por decreto ou por pênalti bem batido. A Copa virá, a eleição passará, os discursos mudarão de tom. A pergunta, porém, permanecerá antiga como o homem: quem estamos nos tornando no meio disso tudo?
Há algo de místico nisso, ainda que o século finja desprezar.
Quem vive com retidão dorme melhor. Quem ama com honra envelhece com mais dignidade. Quem age com lealdade deixa marcas que o tempo respeita. O legado não se escreve em pedra nem em urna. Escreve-se nas pessoas que atravessamos, muitas vezes sem saber.
No fim, não é sobre vencer 2026. É sobre não se perder nele. Não se trair. Não se apequenar. Não negociar a alma por aplausos de ocasião.
O ano passa, o corpo cansa, o nome some. Mas aquilo que foi vivido com grandeza permanece, sub specie aeternitatis, ainda que ninguém saiba explicar o porquê.
E talvez seja assim mesmo. Algumas verdades não nasceram para virar slogan. Nasceram para virar vida. E está tudo bem.
















Comentários