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PERIPATÉTICO QUIXOTESCO

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    temporacomunicacao
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


DIEGO FRANZEN é jornalista, escritor, autor de 17 livros (até agora). É CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
DIEGO FRANZEN é jornalista, escritor, autor de 17 livros (até agora). É CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

Peripatético Quixotesco. Esse será o título do meu próximo livro, o 18º. Escolhi esse nome por ter muito a ver com o que penso sobre a vida. Sobre servir. Para o Ser vir. Esse título fala sobre mim. Intitulo-me assim não por modéstia, nem por afetação de livraria empoeirada (e frequentei muitas), mas pelo meu pior vício, que é incurável: andar com o espírito em desassossego.


Há quem colecione selos, há quem cultive suculentas. Bonzais. Actions figures. Eu, cultivo inquietações. Caminho porque parar me parece suspeito. Sempre desconfiei da alma que se acomoda cedo demais, como se a verdade tivesse horário comercial e encerrasse expediente às dezoito.


Sou peripatético porque penso andando e desconfio do pensamento que se senta confortável demais na poltrona da certeza. E sou quixotesco porque, contra todas as evidências estatísticas e os relatórios de desempenho, ainda insisto em lutar por causas que não rendem curtidas. Nem dividendos. Honra, por exemplo. Essa palavra velha que muitos tratam como peça de museu, boa apenas para discurso de formatura e epitáfio bem escrito.


Não consigo ficar parado diante da injustiça, talvez por defeito de fabricação.


O preconceito me irrita não apenas por sua estupidez, mas pela convicção com que se apresenta. O erro militante, então, me diverte e entristece em partes iguais. Extremismos sempre me pareceram preguiça intelectual com megafone. Gritam muito porque pensam pouco e, quando pensam, preferem não fazê-lo sozinhos. São bonifrates.


A jornada da cavalaria segue em curso, embora os cavalos tenham sido substituídos por discursos inflamados e espadas por opiniões mal afiadas.


O cavaleiro moderno não combate dragões, mas algoritmos, ressentimentos e a tentação diária de fingir que não viu.


Aprendi com um dos meus livros favoritos da adolescência, a Lenda Cavaleiro Verde, que a verdadeira prova não é vencer, mas sustentar a própria palavra quando ninguém mais se importa com ela.


Errar é humano. Trapacear consigo mesmo é vício antigo.


Excalibur nunca foi uma arma. Foi um critério moral disfarçado de aço. Só a empunha quem aceita o fardo da responsabilidade, essa senhora sisuda que não aprecia improvisos.


A espada não escolhe o forte, escolhe o digno.


E dignidade, convenhamos, anda em baixa no mercado das virtudes contemporâneas. Dá pouco lucro e exige manutenção constante.


A pedra filosofal, por sua vez, continua sendo mal compreendida. Não transforma chumbo em ouro. Se assim fosse, banqueiros seriam todos magos e alquimistas estariam aposentados em ilhas tropicais, com roupas coloridas e floridas, chapéu Panamá e um belo charuto cubano fumegante em seus lábios. Não que isso seja ruim. Pelo contrário, isso é classe. É lazer. Mas... de que vale isso pra eternidade?


A verdadeira transmutação ocorre por dentro. Converter vaidade em propósito. Ansiedade em paciência. Cinismo em lucidez. Isso sim é magia de alto risco e pouco espetáculo.


Comunicação social, nesse contexto, é alquimia aplicada. Palavra é coisa séria, ainda que muitos a tratem como brinquedo.


Uma frase pode acolher ou apedrejar.


Um texto pode iluminar ou incendiar o galinheiro moral da semana.


Não existe neutralidade quando se fala em público. Quem se diz neutro geralmente já escolheu um lado, apenas não teve coragem de admitir. É como o cara que se diz "eclético" sem fazer noção alguma do que isso significa. Reproduz porque achou bonito.


Tratar os outros com dignidade parece, hoje, um gesto revolucionário.


Vivemos tempos curiosos em que humilhar virou argumento e sarcasmo raso ganhou verniz de inteligência.


Não se combate ignorância com desprezo, ainda que o desprezo renda aplausos fáceis.


Civilização não se constrói com escárnio, mas com rigor ético e uma pitada de misericórdia, essa virtude fora de moda que insiste em sobreviver.


Amar, então, é a mais temerária das aventuras cavaleirescas.


Acolher quem se ama exige mais bravura do que qualquer duelo.


Lutar pela felicidade do outro, custe o que custar, é aceitar perdas invisíveis, silêncios longos e batalhas que não rendem medalha. Ver o sorriso de quem se ama florescer é uma forma elevada de triunfo, embora o mundo prefira troféus mais barulhentos. Eu não. Porque só há valor real naquilo que transcende a matéria.


E sim, luto por algo que transcende porque o imediato é curto demais para justificar uma existência inteira.


Carrego ainda a convicção grave de que nada do que faço começa em mim nem termina comigo. Sou herdeiro de gestos, silêncios, erros e virtudes que me antecederam.


O legado dos antepassados não é feito de sobrenomes nem de retratos amarelados nas paredes, ou de documentos que lembramos que existe só quando precisamos de algo, como cidadania estrangeira, por exemplo. È feito de valores transmitidos sem discurso, pela coerência do viver.


A mim cabe não desperdiçar essa herança e, mais ainda, não deformá la.


Não transmitirei preconceito como se fosse tradição, nem ódio travestido de opinião.


Meus filhos são bonitos e inteligentes. Não puxaram a mim nisso, sem dúvidas. Mas o que tenho certeza é que de mim herdarão algo simples. Poderão falhar como qualquer humano, mas um filho meu jamais falhará como cidadão ou como homem, porque conhecerá o peso da honra, o valor da dignidade e o dever de respeitar o outro antes de exigir respeito para si.


Dentro das minhas limitações, que não são poucas, escolho ser o melhor possível, não para parecer exemplar, mas para ser referência. Quero que meus filhos olhem para mim com o mesmo orgulho com que olho para o que houve de melhor em meus pais, sabendo que fiz o que pude para não quebrar a linha invisível que liga passado, presente e futuro.


Muitos se perguntam qual o sentido da vida. Não há resposta cognoscível para o gênero humano, ainda. Pelo menos não absoluta. Mas creio que o sentido mora no que resiste ao tempo, na honra que não se vende em promoção, na ética que não muda de opinião conforme o vento das redes.


Sou peripatético quixotesco porque sigo andando quando me mandam sentar, porque ainda acredito que pensar dói, mas emburrecer dói muito mais. Ser burro é um fardo pesadíssimo que orgulhosamente não carrego. E sei, com a ironia tranquila dos que já perderam algumas batalhas, que há lutas que não se vencem. Apenas se honram.



1 comentário


Decimar Biagini
Decimar Biagini
há 4 dias

Viver, honrar e aprender. Grato...

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