O CONDE DE MONTE CRISTO
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Na semana passada, em minha coluna, caminhei pelos brejos emocionais de O Morro dos Ventos Uivantes, um romance em que o amor não pede licença para doer e a dor faz questão de ficar. Ah, as histórias de Amor. Alias, sempre pensei que sofrer faz parte do pacote do amor. E que ainda assim vale à pena. Mas, hoje não é sobre Whutering Highs. Não. Hoje volto a uma paisagem distinta e igualmente inóspita. Não há charnecas nem ventos ululantes, mas há muros úmidos, pedras frias e o tipo de silêncio que ensina mais do que qualquer mestre complacente.
Falo do meu livro favorito. O que pra mim é o melhor de todos. O Conde de Monte Cristo.
É curioso como certos livros não nos escolhem pelo prazer, mas pela exigência. O romance de Alexandre Dumas exige tempo, atenção e uma disposição quase monástica para acompanhar a lenta fermentação da alma de Edmond Dantès. Lê-lo apressado é perder o essencial.
Porque Monte Cristo não é uma história de vingança. É uma tese moral travestida de aventura. E, como toda boa tese, só se revela inteira quando suportamos o método.
Dantès começa inocente. Inocente demais. Há nele uma confiança quase pastoral no mundo, essa fé infantil de que a retidão é automaticamente recompensada, assim como o caráter e a bondade. Mas aí o mundo se revela. O mundo que pune e fere os bons, os sonhadores, os idealistas, os apaixonados.
A injustiça que o lança no Château d’If não o corrompe de imediato. Primeiro ela o esvazia. Depois o educa. A prisão é menos um espaço físico do que uma condição ontológica. Ali o tempo deixa de ser cronológico e passa a ser metafísico. Os dias não passam. Eles pesam.
É nesse peso que surge o abade Faria, figura que poderia ter saído de um tratado hermético ou de um compêndio neoplatônico. O abade não é apenas um sábio. É um iniciador. Ensina línguas, ciências, história, filosofia e, sobretudo, ensina a desconfiar das aparências. A cela torna-se um claustro e Dantès, um noviço forçado.
O conhecimento que recebe não o salva da dor, mas dá forma a ela. E isso é decisivo. A dor informe enlouquece. A dor compreendida transforma.
Quando Faria morre, Dantès renasce. Não no sentido edificante que os manuais de autoajuda gostam de vender, mas num renascimento sombrio, lucidamente calculado.
Ao sair do cárcere, já não é um homem. É um projeto. E projetos não sentem culpa. Executam.
Vem então o tempo como pirata, esse interlúdio marítimo que funciona quase como uma purgação simbólica.
O mar sempre foi o grande corretor moral da literatura. Ele reduz títulos, dissolve vaidades e testa lealdades.
É no mar que surge Jacopo, a amizade mais pura do livro. Uma lealdade sem sofisticação, sem retórica, sem psicologia. Jacopo não pergunta se o conde está certo. Ele permanece. Em tempos de vínculos líquidos, Jacopo é uma afronta.
A frase que atravessa o romance como um salmo severo é “Deus me dará justiça”. Dantès começa pronunciando-a como súplica. Depois como certeza. Por fim, como perigo.
O conde passa a confundir justiça com vingança e Deus com instrumento. Eis o ponto em que o romance abandona qualquer conforto moral. Porque Dumas não absolve seu herói. Ele o observa.
Monte Cristo pune. Com método, com elegância, com uma sofisticação que beira o estético.
Mas cada punição cobra um preço. A vingança não é gratuita. Ela corrói, isola, endurece.
O conde torna-se um arquiteto do destino alheio e, como todo arquiteto obsessivo, perde a capacidade de habitar a própria casa.
E então chegamos ao amor. Não o amor idealizado, mas o amor que sobrevive às fantasias que criamos na cabeça e depois usamos contra o outro. Mercédès não é apenas a mulher perdida. É o espelho daquilo que Dantès deixou de ser. O reencontro entre eles não oferece catarse. Oferece reconhecimento. Amor pleno é isso. Não exige reparação. Apenas aceita o que foi irremediavelmente modificado.
Há, no final, um deslocamento silencioso. O conde compreende que nem toda dor exige resposta e que a justiça humana, quando absolutizada, se torna outra forma de tirania. É um aprendizado tardio, mas não inútil. Como quase tudo que importa.
Talvez por isso O Conde de Monte Cristo seja menos um romance de aventuras e mais um ensaio existencial disfarçado. Um tratado sobre tempo, perda, identidade e os limites morais do ressentimento. Com uma pitada de sarcasmo, é verdade. Porque Dumas sabia que levar a vida a sério demais é outra forma de ingenuidade.
Depois de O Morro dos Ventos Uivantes, Monte Cristo soa como um contraponto adulto. Onde Heathcliff é a paixão sem freio, Dantès é a razão sem descanso. Um se perde pelo excesso de sentimento. O outro quase se perde pela falta dele. Entre ambos, nós leitores, tentando aprender a esperar sem apodrecer e a amar sem destruir.
E talvez essa seja a grande lição. Não é Deus quem nos dá justiça. É o tempo. Quando aprendemos a escutá-lo.
No fim, quando o verniz da coragem já descascou e a retórica da força não convence nem a nós mesmos, resta uma constatação incômoda e luminosa.
As pessoas que atravessam conosco as piores horas não são figurantes da nossa história, são o próprio enredo. São elas que nos veem pequenos, quebrados, pouco heroicos, e ainda assim ficam. Não pelo que prometemos ser, mas pelo que somos quando tudo falta.
Valorizar essas presenças é um gesto de lucidez moral. Porque o mundo está cheio de aplausos para os dias de vitória, mas são raríssimos os que suportam o silêncio do cárcere, a humilhação da espera, a lentidão da dor. E talvez o verdadeiro aprendizado do conde não esteja no ouro escondido, nem na vingança engenhosa, mas nessa verdade simples e brutal.
Quem permanece quando não há nada a ganhar merece mais do que gratidão. Merece memória, lealdade e, sobretudo, lugar permanente na nossa vida.













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