O coração é a manjedoura
- temporacomunicacao
- 23 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Coluna de Diego Franzen
Este texto trata, convém esclarecer desde logo, da minha percepção pessoal de 2025. Não pretende erigir tese histórica, nem oferecer diagnóstico coletivo. É apenas o relato de quem atravessou o ano por dentro e saiu dele visivelmente gasto. Anos, afinal, não são difíceis por decreto, mas por experiência. E este foi.
O ano se encerra, como sempre, indiferente à nossa fadiga moral. Não se detém diante das perdas, não pede desculpas pelas ruínas que acumula e tampouco ensaia gestos de compaixão.
Simplesmente passa.
E este passou mal.
Foi um desses anos que não admitem balanços indulgentes nem toleram o vocabulário açucarado da superação fácil. Um ano de contrariedades sucessivas, de lições administradas com rudeza e de uma pedagogia existencial que dispensa qualquer promessa de conforto.
Sobreviveu-se a ele, o que, convenhamos, já constitui algum mérito.
Talvez não seja coincidência que 2025 tenha reiterado um velho padrão pessoal. Os anos terminados em cinco nunca me foram particularmente benignos. 2005 e 2015 já haviam deixado suas marcas, cada qual à sua maneira, e este apenas confirmou a tradição.
Não falo de numerologia, mas de memória. Há anos que se atravessam em marcha regular, e outros que exigem recolhimento, silêncio e alguma resignação estoica. Este pertenceu, sem dúvida, ao segundo grupo.
As tristezas não foram poucas e tampouco discretas. Houve perdas que se anunciam ao longe e outras que chegam como golpe seco. A maior delas foi a morte de minha mãe, no dia 15 de dezembro. A maior perda da minha vida. Nenhuma retórica dá conta desse evento.
A palavra ausência, tão banalizada, readquire aqui seu sentido primitivo, quase ontológico. O mundo prossegue em sua coreografia automática, mas o eixo íntimo se desloca e nada volta exatamente ao lugar de antes. Aprende-se, tardiamente, que certas perdas não pedem elaboração, apenas aceitação vigilante.
Perdi amigos. O Lucas Prola, entre eles, amigo de infância, cuja ausência não se resolve com homenagens apressadas nem com a memória domesticada. Perdi também ídolos, essas figuras tutelares que nos acompanham por décadas e que, em silêncio, ajudam a organizar o mundo. Ozzy Osbourne e o Papa Francisco, cada qual em seu domínio simbólico, lembraram que até os mitos se curvam à impermanência.
Crescer talvez seja isso. Assistir, com alguma compostura, à erosão das referências.
O ano começou mal.
Eu sabia que começaria assim ainda no meio de 2024, quando começamos uma campanha sem horizonte nítido e com uma participação política que já nascia condenada ao fracasso. O desfecho era evidente para quem se permitisse observar sem entusiasmo militante, mas ninguém queria ouvir. Faltava-lhes prudência, sobrava-lhes fervor. Coube-me o papel ingrato do observador lúcido, condenado à irrelevância por antecipar o óbvio. Como causa segunda e contrariado, recolhi-me ao silêncio, esse velho abrigo dos que ainda prezam a própria lucidez. E esperei o insólito e previsível final. Justo final, diga-se de passagem.
Foi desse recolhimento que emergiu algo aproveitável. Primeiro, a Tempora Comunicação. Não como epifania empresarial nem como gesto heroico, mas como reação natural de quem prefere o labor ao ruído. Nesse percurso, encontrei duas presenças decisivas. Paula, colaboradora dedicada e inteligente. E Aline, minha sócia, cuja genialidade se anuncia em tom alto e se impõe pela clareza, pela intuição certeira e por uma rara capacidade de converter caos em método. A Tempora só se tornou viável porque deixou de ser solitária.
Depois, quase por ironia do destino ou por uma dessas cconvergências cósmicas, surgiu o Pauta Serrana, concebido numa conversa aparentemente prosaica com meu contador, Luciano do Rosário. Empreender revelou-se um gesto de dignidade. A possibilidade concreta de fazer o que se julga justo, sem se contaminar pelas disputas alheias nem se ajoelhar diante do ruído dos outros.
Empreender, descobri, também é um exercício de higiene interior. Uma forma de se desintoxicar das opiniões que nunca foram nossas, mas que se infiltram por convivência excessiva. Opiniões que rotulam, deformam e, por osmose, nos atribuem crenças que jamais subscrevemos. Criar algo próprio é, em última instância, recuperar a autoria da própria consciência.
Chega então o Natal.
Não chega em alarde nem pede licença. Não se anuncia com urgência. Aproxima-se devagar, como quem conhece o tempo certo das coisas.
Não é o Natal das vitrines excessivamente iluminadas, onde a luz serve mais para distrair do que para revelar. Nem o das mensagens automáticas, repetidas sem presença, enviadas por hábito. Esse Natal passa rápido. Brilha por fora e esvazia por dentro.
O que chega é outro.
Antigo.
Denso.
Silencioso.
Um Natal que não se mede em datas, mas em estados de consciência.
Que não depende do calendário, mas de uma maturação interior.
Ele acontece quando o mundo desacelera ou quando somos obrigados a fazê-lo.
Acontece quando o excesso cansa e o essencial reaparece.
A manjedoura retorna como símbolo e não como ornamento. Não é cenário, é ensinamento.
Humildade radical. Esvaziamento absoluto.
Não há ali poder, prestígio ou garantias. Há apenas o necessário para sustentar a vida que nasce.
O sagrado não se instala onde tudo está cheio, mas onde houve espaço suficiente para acolher.
O coração revela-se como templo oculto. Não o templo visível, organizado, institucional. Mas o lugar secreto onde ninguém entra sem permissão.
Ali, não há plateia, nem discurso, nem aplauso. Ali só há verdade. É nesse espaço que o nascimento ocorre. Nunca fora. O que acontece fora é reflexo. O verdadeiro parto é interior.
O Cristo que desperta nesse lugar não acusa, não julga, não condena. Não constrói tribunais nem cobra coerência perfeita. Ele compreende. Ele transforma. Floresce onde houve cruz, mas também onde se aprendeu a cuidar da rosa. Onde a dor não virou cinismo. Onde a queda não se transformou em amargura. Onde a ferida foi atravessada e não exibida.
Ele convida à travessia. Não oferece respostas prontas. Provoca perguntas honestas. A transformação que propõe não é imediata nem espetacular. Não rende aplausos. É lenta, paciente, profunda. Como o crescimento das raízes. Como a maturação do fruto. Como toda obra que resiste ao tempo.
Tenho a noção pessoal de que a verdadeira obra se realiza em silêncio. Que a luz não grita. Que o ouro legítimo não precisa reluzir para ser reconhecido. Que a paz não se proclama. Ela se instala.
E, quando se instala, não pede permissão nem aprovação.
Não é a paz das tréguas políticas nem das convenções sociais. Não é a paz negociada, condicional, frágil. É aquela que nasce da reconciliação íntima entre o que fomos e o que ainda podemos ser. Entre a memória e a esperança. Entre a sombra reconhecida e a possibilidade viva.
Todo nascimento autêntico exige antes um esvaziamento. Nada novo nasce onde tudo está ocupado. Algo precisa morrer. Algo precisa ser deixado para trás. Ilusões, expectativas irreais, personagens mantidos por inércia. "Se queres empregar bem a vida, pensa na morte", diz um antigo adágio que fala menos de fim e mais de lucidez. De hierarquia.
De discernimento.
Talvez este ano tenha sido isso. Um processo longo de depuração. Pouco elegante, por vezes áspero, raramente linear. Um trabalho feito mais na fricção do que na inspiração. Mas eficaz.
O fogo cumpriu sua função. Separou o essencial do supérfluo. E tudo se renova através dele. Toda a Natureza.
O ano termina deixando menos ilusões e alguma clareza. Se o coração for, afinal, a manjedoura, que nele encontre abrigo apenas o que não acusa, não odeia e não se vinga. Que ali não haja espaço para o ressentimento travestido de virtude. Nem para a vaidade disfarçada de moral. Que ali floresça o que resiste ao tempo, o que atravessa o inverno sem perder a raiz.
Que o Natal não seja um evento, mas um estado. Não um dia isolado, mas um eixo. Não um discurso, mas uma presença contínua.
O ano acaba.
Eu sigo.
Um pouco mais gasto, talvez. Um pouco menos iludido. Com marcas novas no corpo e na alma. Mas, ainda inteiro.
Ainda capaz de silêncio.
Ainda capaz de escuta.
Ainda capaz de paz.
Em paz profunda.














Comentários