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O dia que conheci Divaldo Franco, a mansuetude personificada

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 14 de mai.
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen, jornalista e escritor



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Foi em um dia qualquer do já longínquo 2006 — mas que, para mim, permanece aceso como uma manhã de primavera que se recusa a fenecer — que tive a ventura de conhecer e entrevistar Divaldo Pereira Franco. Sim, ele mesmo, o homem de fala mansa e olhos que pareciam carregar, em seu brilho discreto, a memória ancestral de tantas eras e povos. Ao me sentar diante dele, carregado de inquietações juvenis e da ousadia ingênua de quem busca compreender o incompreensível, vi-me diante de algo mais do que um médium ou um conferencista. Vi um sábio. Estava ali, diante de mim, um jovem, porém já experiente repórter de 25 anos de idade.


Não foi uma entrevista apenas. Foi além. Conversamos longamente — e digo “conversamos” por elegância, pois, na verdade, eu ouvia. E como ouvia. Falamos de filantropia, desse amor que se traduz em ação concreta; discorremos sobre o diálogo inter-religioso, essa arte esquecida de reconhecer o divino no outro; abordamos, sem subterfúgios, a sexualidade humana, as tensões do mundo moderno, as guerras que ensanguentam a história e a ideia, quase utópica, da felicidade.


Divaldo falava com a leveza dos que não impõem, apenas oferecem.


Não havia dogma, apenas a cintilância de ideias bem postas, entremeadas de anedotas, metáforas e uma erudição afável.


À época, eu já bebia de sua sabedoria nas páginas de inúmeros livros e artigos que me chegaram às mãos como se fossem cartas endereçadas a mim por um velho amigo espiritual. E mais de uma vez estive entre os que se acotovelavam — com reverência, não com afobação — para ouvi-lo palestrar.


Era um espetáculo da alma.


Sua fala era uma espécie de música doce que tangia os corações, ainda que tratasse de temas espinhosos como a morte, o sofrimento e as encruzilhadas morais da contemporaneidade.


Mas não é só de palavras que se constrói um legado.


Divaldo edificou, com mãos e corações aliados, a Mansão do Caminho — um oásis de dignidade humana no semiárido social da Bahia. Ali, mais de 600 crianças recebem educação, carinho e pão. Ali, o Evangelho se fez gesto, se fez telha, se fez escola. Aquilo que para tantos é apenas crença, para ele foi também concreto, cimento, suor.


E agora, nos dias que seguem sua desencarnação — esse eufemismo espiritualista para o que os céticos chamariam de morte —, veem-se nas redes sociais os estertores de uma época carcomida: comentários odientos, ofensas religiosas, diatribes fundamentalistas proferidas por aqueles que se julgam detentores da senha exclusiva da salvação. É a barbárie travestida de zelo, a intolerância fantasiada de fé. Mas são minorias, essas vozes dissonantes. Gritam alto, mas não ecoam. Porque o que reverbera, o que permanece, é a comoção de milhares, os louvores sinceros, os testemunhos de gratidão. A alma elevada de Divaldo partiu, sim — mas para onde as almas elevadas vão: para o coração do mistério.


Já fui, confesso, um militante do movimento espírita. Até presidi uma casa federada, a Casa Espírita Mãos Unidas, em Cruz Alta RS.


Hoje, não mais. Por circunstâncias da vida e filosóficas, caminho por veredas que considero mais amplas. Mas sempre com um coração no kardecismo.


Sou um espiritualista errante, desses que buscam sinais nas estrelas e ouvem conselhos no vento. Que sentem energias de lugares e pessoas. Que entoa mantras e grabovoi. Que gosta de reiki, mistérios do desconhecido e coisas do tipo.


Mas meu respeito e admiração por Divaldo Franco resistirão ao tempo. Não por adesão doutrinária, mas por reconhecimento humano. Por gratidão.


E, talvez, por uma secreta esperança de que, ao fim da jornada, eu tenha sido, ainda que por um breve instante, digno daquele olhar sereno com que ele me recebeu em 2006.


Obrigado, mestre Divaldo Franco!




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