O Diabo Enamorado
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Eu sinto. Vocês podem sentir? Há um aroma incômodo de enxofre na ingenuidade humana. Está no ar. Por toda a parte. E nos escapa. Anos atrás, um amigo meu, Tales Lourenço, me presenteou com um livro, "O Diabo Enamorado", escrito por Jacques Cazotte. Ah, como ele sabia desse aroma, dessa inquietação, muito antes de a guilhotina abreviar seus pensamentos em 1792.
Nesta obra, escrita em 1772, Cazotte inova ao trocar o diabo tradicional e caricato de chifres por Biondetta, uma jovem formosa que mistura doçura e mistério. Ela surge como um pajem submisso para o jovem Alvaro nas ruínas de Portici, mas sua verdadeira força está na psicologia. O foco da história não é uma possessão violenta, mas a sutil rendição da mente. Enquanto o protagonista se gaba de uma liderança ilusória, a criatura usa o orgulho dele com paciência até transformar essa vaidade em desejo.
Cazotte mostra que a verdadeira ruína humana não precisa de pactos assinados com sangue. O Diabo não precisa arrombar a porta, ele simplesmente se disfarça daquilo que mais nos falta, destruindo nossa moral pelo elogio e pela tentação.
É uma leitura salutar para os soberbos. Afinal, a forja do caráter de um homem se dá entre a ilusão de controle e o esmagamento pela realidade, que é cruel e implacável.
Se me perguntassem a textura da minha própria existência, eu apontaria para a bruteza do ferreiro. Sou uma espada moldada pelo atrito, submetida à pirotecnia do cinismo e à pura porrada, tanto do destino quanto das próprias escolhas.
O ferro bruto não ganha corte sem o insulto do fogo e o sadismo do martelo.
Cada cicatriz metafórica na lâmina é o registro de um golpe que tentou quebrar o metal, mas que, por pura incompetência do carrasco ou teimosia do minério, acabou apenas por densificar sua estrutura. E assim é a alma.
Enquanto a lâmina se afia para o mundo, a alma teima em desempenhar o papel de um reles curativo. Estancar a hemorragia alheia, absorver o pus dos que nos cercam, servir de barreira entre a ferida do outro e a infecção do mundo.
Protege-se, limpa-se, acolhe-se.
E qual é o desfecho litúrgico do penso higiênico? O descarte.
Assim como o curativo, que já cumpriu seu papel, sua missão. Vira lixo. Porque uma vez coagulado o sangue alheio, ele torna-se um estorvo estético, uma memória purulenta que se amassa e se joga fora. A utilidade cessa no exato instante da cura.
Ainda assim, o absurdo camuseano se impõe. Mesmo consciente de que o destino final é o lixo dos afetos ou o desgaste da lâmina, tenho um delírio quixotesco que recusa a paralisia. É a tensão em direção ao inatingível, a teimosia em perseguir o asymptote, aquela linha que se aproxima infinitamente do eixo sem nunca tocá-lo.
Não importa a iminência do fracasso. A beleza, se é que há alguma neste lupanar cósmico, está no processo de de-formação e reforma. Se alguns sonhos feneceram sob o peso da realidade e a esperança em certas quimeras já foi devidamente sepultada, o horizonte é fértil em gerar novas ilusões.
Enterra-se um deus morto pela manhã e adora-se um novo bezerro de ouro ao anoitecer.
Assim caminha a engrenagem.
Essa finitude inevitável exige lucidez. Um homem que de fato deseja empregar bem a sua vida deve, por obrigação filosófica, manter os olhos fixos na morte, pois a consciência do fim é o único antídoto contra a mediocridade do cotidiano. Não há aqui qualquer flerte com a autoextinção, acalmem-se os espíritos mais alarmistas, mas sim a celebração de quem habita o presente com a urgência de um condenado.
Se o fio da minha própria história se rompesse hoje, eu cruzaria o limiar em absoluta paz. Há uma gratidão profunda e solene que direciono ao Criador por cada alma, por cada presença que cruzou e cruza o meu caminho, costurando o sentido da minha jornada. Entregar o melhor de si a cada instante, sem garantias de reciprocidade ou posteridade, é o que constitui a verdadeira e única magia possível nesta existência.
O sarcasmo dá lugar a um último gesto de nobreza espiritual. Que o fogo me consuma e o descarte seja meu fim, desde que, do meu canto discreto e passageiro, eu possa ver as pessoas raras, as melhores almas que cruzaram meu caminho, vivendo com a mais absoluta felicidade enquanto o tempo corre.
Ver o bem-estar daqueles que dão sentido à nossa existência é o único tributo que aceito pagar à vida. O resto é fumaça, vaidade e o eco do martelo contra o ferro.
Diz um velho adágio, tudo na Natureza se renova pelo fogo.











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