Não gostar de futebol não te torna mais inteligente
- temporacomunicacao

- há 5 horas
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Há uma casta muito peculiar de pensadores contemporâneos que habita as redes sociais. São os paladinos da apatia esportiva, sujeitos que, a cada quatro anos, vestem a armadura do desdém para anunciar ao mundo, com a empáfia de quem descobriu a cura de uma mazela esquecida, que odeiam futebol.
Sentem-se iluminados, mentes brilhantes pairando acima da massa ignara que ousa se emocionar com uma bola chutada gramado adentro. Esbravejam, com os dedos trêmulos sobre o teclado, o velho e surrado jargão do panis et circensis. O pão e circo, aquela máxima que o poeta Juvenal cunhou na Roma Antiga para explicar como os imperadores alimentavam o povo com trigo barato e sangue no Coliseu para anestesiar a consciência política. É uma bela referência histórica, sem dúvida, mas usá-la nas redes sociais para se sentir o próprio Aristóteles enquanto o resto do país torce é de um pedantismo atroz.
A ironia reside no fato de que a maioria dessas almas iluminadas, que criticam os jogos e chamam o torneio de perda de tempo, não estará salvando o planeta na hora da partida. Não estarão lendo Kant, operando corações ou descobrindo uma nova fonte de energia limpa. Estarão caídos no sofá, com os olhos vidrados na tela do celular, consumindo memes idiotas e fingindo uma genialidade intelectual que não resiste a cinco minutos de conversa.
O futebol, que os pretensos sábios apontam como o ópio do povo, move estruturas que a empáfia deles jamais alcançará. Olhemos para a realidade factual. Para quantas vidas são transformadas pelo esporte em projetos sociais que arrancam crianças da vulnerabilidade das periferias e lhes dão um norte. O futebol não é apenas o craque milionário na Europa, é a engrenagem que gera emprego e renda para milhares de famílias, movimenta a economia, do vendedor de espetinho na calçada ao setor de turismo que ferve a cada grande evento.
E as obras, dirão os críticos, com seus eternos atrasos e orçamentos esticados. Sim, o Brasil atrasou infraestruturas, como sempre faz, mas o legado de mobilidade urbana que ficou nas cidades sede, os aeroportos ampliados e os corredores de ônibus que hoje facilitam a vida do trabalhador que acorda às cinco da manhã são reais.
O circo, vejam só, acabou deixando estradas e viadutos.
Mas o que realmente escapa à compreensão dessa gente que se orgulha de não saber o que é um impedimento é a monumental capacidade pedagógica de uma Copa do Mundo. Enquanto o intelectual de apartamento destila sua amargura online, na mesa da minha sala o mundo se expande. Meus filhos menores, Nicholas e Theo, vivem hoje o que eu vivi na idade deles. Lembro-me perfeitamente de debruçar-me sobre mapas para entender o planeta através dos grupos do mundial. Eles aprenderam geografia e história sem o peso maçante das decorrebas escolares. Sabem situar repúblicas distantes, capitais de todos os 48 países, incluiindo Jordânia, Uzbequistão e Curaçal. Entendem perfeitamente o vácuo trágico entre 1938 e 1950, quando a estupidez humana de uma Guerra Mundial impediu que os homens se enfrentassem apenas com uma bola nos pés.
Eles dominam mistérios estéticos que fariam os críticos da internet gaguejarem. Sabem, por exemplo, por que a Holanda joga vestindo um laranja vibrante que não existe em sua bandeira tricolor. É a cor da Casa de Orange Nassau, a dinastia real que liderou a independência do país contra o domínio espanhol no século dezesseis, transformando o tom no próprio espírito daquela gente. Entendem também por que a Itália se veste com a azzurra, o azul profundo que não figura nas listas verde, branca e vermelha de seu pavilhão nacional. É uma homenagem à Casa de Savoia, a família real que unificou a Itália em 1861. O azul era o manto da dinastia, que por sua vez remetia ao manto da Virgem Maria, e permaneceu no peito dos jogadores mesmo após a queda da monarquia porque certas tradições são grandes demais para serem apagadas pelos ventos da política.
Como morador da Serra Gaúcha, cercado por essa herança cultural que pulsa nas nossas videiras e no nosso sotaque, eu confesso que gostaria imensamente de ver a Squadra Azzurra correndo nos gramados desta Copa do Mundo. Mas o futebol tem suas ironias deliciosas e consolações poéticas. Não temos a seleção italiana, é verdade, mas estamos representados por uma das maiores figuras futebolísticas que aquela península já produziu, o mestre Carlo Ancelotti no banco de reservas, regendo o espetáculo com a calma de quem sabe que a vida, afinal, é um jogo que se ganha na tática e no coração.
Há uma beleza quase sagrada que esses críticos de almanaque nunca vão entender, que é o ambiente familiar das trocas de figurinhas. Sentar-se no chão com Nicholas e Theo, rasgar os envelopes com a expectativa infantil de quem busca um tesouro e negociar os cromos repetidos é uma experiência que constrói pontes afetivas indestrutíveis. É ali, na simplicidade de um pedaço de papel colado em um álbum, que a infância se eterniza e as famílias se conectam.
Enquanto os intelectuais geniais da internet continuarem trancados em suas bolhas de ressentimento e superioridade moral, nós seguiremos aqui, celebrando a vida, aprendendo sobre o mundo e nos emocionando com o maior espetáculo da Terra.
Afinal, a inteligência que não serve para nos fazer rir, chorar e abraçar nossos filhos diante de um gol não passa de vaidade vazia.











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