O Frio, a elegância e a chatice
- temporacomunicacao
- 29 de mai.
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Coluna de Diego Franzen, Jornalista e Escritor
Em outros tempos — tempos de rebeldia pueril e alguma vaidade intelectual — eu dizia, em altos brados, que amava o inverno. Publicava frases grandiloquentes, exaltava o frio em odes e aforismos, glorificava as neblinas e as manhãs de geada como se fossem metáforas superiores de uma existência refinada. Era, reconheço, pelo puro deleite de ser do contra. De não ser igual a todos. De rir da vulgaridade suada do verão e proclamar, entre taças de vinho tinto, que o frio é que era a estação dos fortes, dos estetas, dos elegantes.
Mas os anos passaram. Vieram, como se deve, os problemas respiratórios — esses mimos que a genética e a poluição nos conferem sem aviso prévio. Vieram também dois filhos pequenos, cujas narinas entupidas, noites maldormidas e tosses persistentes me lembram, cotidianamente, que o frio, para além da estética, é também um flagelo.
E há, sobretudo, os outros. Aqueles a quem o inverno não permite nem mesmo o luxo da queixa, porque mal têm roupa para vestir. Nesta semana, morreu um homem, anônimo e invisível, vitimado pelo frio que eu outrora celebrava em minhas prosas vaidosas. Não ter empatia diante disso é, penso agora, uma forma grave de soberba. Falta de humildade, mesmo. A humildade de reconhecer que há realidades muito distintas das nossas, e que o frio, para muitos, é só sofrimento.
Me comove ver a UPA lotada — pais exaustos, crianças febris, idosos ofegantes — todos, como eu, tentando resistir ao inverno, não vivê-lo como idílio. Me desgosta ter que sair agasalhado até a imobilidade, embora admita que, nesse estado de múmia vestida de lã, até pareçamos mais elegantes, como gostam de dizer os defensores dessa estação.
Concedo: gosto da sopa de capeletti. Gosto do vinho, evidentemente. E só. O resto é uma sucessão de desconfortos: o nariz que arde, os dedos enregelados, o vento que corta como lâmina.
Hoje, suportaria 45 graus de calor sem reclamar. Aliás, aqui registro, como quem assina um pacto público — que nunca mais reclamarei do verão. Que venham os mosquitos, as roupas grudadas, o suor nas costas e o sol impiedoso do meio-dia. Nada, absolutamente nada, se compara ao prazer simples de sair de casa com uma camiseta, de respirar sem dor, de ver as crianças correndo livres, sem o risco onipresente de uma bronquiolite.
É verdade que o inverno nos oferece belezas visuais: o céu cristalino das manhãs frias, as videiras adormecidas, a névoa delicada que repousa sobre os vales como um véu etéreo. E que, já que ele está aí — inevitável como são as estações e a passagem do tempo —, que ao menos sirva para impulsionar as belezas paisagísticas da serra mais bonita do mundo: a nossa, a gaúcha.
Mas faço aqui, também, um convite. Ou melhor: uma conclamação franca e sem rodeios, sobretudo para quem lê estas linhas de longe, de outros estados, quiçá de outros países. Ignorem, com a serenidade dos justos, os apelos de Gramado, com suas fachadas de cenografia europeia irritantemente belas. Mas tenho uma dica mais profícua. Visitem Bento Gonçalves. Bento é melhor. Bento é mais legal. É autêntica. Tem o vinho, claro, e tem também a alma verdadeira da serra, com sua gente afável, sua gastronomia que não precisa de artifícios e paisagens que não carecem de filtros.
Assim sigo, então, convivendo com o inverno, sem idolatrias tardias, sem aquelas frases altivas que publiquei um dia, mas com um olhar mais sóbrio — e, espero, mais humano. Afinal, envelhecer, entre tantas coisas, é também aprender que o conforto dos outros importa tanto quanto o nosso. E que, se o frio tem alguma beleza, ela reside menos na geada das manhãs e mais na solidariedade que ele, quem sabe, ainda é capaz de despertar em nós.
Tenho um amigo, Everton Furtado, que insiste — com aquela convicção serena de quem sabe que jamais mudará de opinião — que o inverno é a melhor das estações. E, para ser justo, ele tem lá suas razões: é curitibano. De Curitiba, que para mim é, sem dúvida alguma, a cidade mais linda do mundo. Uma beleza fria, contida, elegante, com seus parques impecáveis, suas ruas arborizadas e aquele ar de Europa deslocada no meio do Brasil. Mas também é preciso dizer: o curitibano, esse tipo humano fascinante, adora ser do contra. Não dá bom dia a estranhos, responde com monossílabos e cultiva, com disciplina, uma certa antipatia social que, no fundo, é só um escudo estético. Gente legal, no fim das contas — meio europeia, sem ter jamais precisado atravessar o Atlântico para sê-lo.
E já que o frio está aí, inclemente e democrático, atingindo a todos — mas sobretudo os que menos podem —, deixo aqui, sem qualquer hesitação, um chamado à solidariedade: participem da campanha do agasalho. Separem aquela blusa esquecida no fundo do armário, aquele casaco que já não aquece sua vaidade, mas que pode, muito literalmente, aquecer outra vida. O inverno, para quem tem, é paisagem e gastronomia; para quem não tem, é risco e dor. Que não falte a nenhum de nós a humildade necessária para reconhecer essa diferença e agir, com generosidade, enquanto ainda há tempo — e frio.















Como tudo tem compensações. Quem cospe para cima corre risco de cair cristalizado na testa. Quanto ao termo chatice, poderia pensar em algo mais inovador. Afinal, muito se espera dum Mestre. Alegria virou sadismo.