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O luto não retrocede no final do ano: Um chamado para o exercício da empatia e de humanidade

Foto do escritor: temporacomunicacao
temporacomunicacao
há 4 minutos
3 min de leitura

COLUNA DE FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

Com a chegada das festas de final de ano, algumas pessoas enlutadas voltam a apresentar uma sensibilidade emocional mais intensa. Podem chorar com maior facilidade, sentir necessidade de isolamento, demonstrar irritabilidade ou simplesmente perder o interesse por celebrações que antes eram significativas. E, diante dessas manifestações, não é incomum que escutem comentários como: “Mas você estava tão bem!”, “Já faz tanto tempo”, “Você precisa reagir” ou “Não fique triste, é Natal!”.


Embora muitas dessas frases sejam ditas na tentativa de ajudar, elas revelam uma compreensão equivocada sobre o funcionamento psicológico do luto: a ideia de que elaborar uma perda significa sofrer cada vez menos, até que a ausência deixe de provocar emoções dolorosas. O luto, entretanto, não funciona como uma sequência de etapas que precisam ser vencidas definitivamente.


Uma das explicações mais importantes da Psicologia está no chamado Modelo do Processo Dual do Luto. Segundo essa perspectiva, a pessoa enlutada alterna entre momentos em que sua atenção está voltada à perda, às lembranças e à saudade, e outros em que consegue investir nas atividades cotidianas, reconstruir sua rotina e estabelecer novos projetos. Esse movimento de aproximação e afastamento da dor faz parte da própria adaptação psicológica à ausência. Por isso, alguém pode passar meses vivendo de maneira satisfatória, trabalhando, viajando, fazendo planos e experimentando alegria, e ainda assim se emocionar profundamente ao preparar a ceia de Natal. Isso não significa que tenha perdido os avanços conquistados ou que esteja novamente no início do processo de luto.


Existe também um mecanismo importante relacionado à memória emocional. Nosso cérebro estabelece associações entre experiências afetivas e elementos do ambiente, como músicas, cheiros, lugares, alimentos e tradições familiares. Quando esses estímulos reaparecem, podem reativar lembranças e emoções ligadas à pessoa falecida, mesmo muitos anos depois da perda.


No final do ano, essas associações costumam ganhar uma dimensão especial. A organização da casa, os preparativos para as festas, as fotografias antigas e os encontros familiares podem tornar mais perceptível a ausência de alguém que participava desses acontecimentos. Não se trata apenas de recordar quem morreu, mas de perceber novamente as mudanças que essa morte produziu na dinâmica familiar, nos vínculos e na própria identidade.


Outro equívoco frequente é interpretar o choro como sinal de fragilidade ou de dificuldade para aceitar a morte. A expressão emocional, por si só, não indica que o luto esteja se tornando um quadro clínico para tratamento. Reconhecer a realidade da perda não significa deixar de sentir a falta de quem morreu. A pessoa pode compreender plenamente a irreversibilidade da morte e, ainda assim, desejar profundamente que aquele familiar estivesse presente à mesa.


Existe, ainda, uma pressão social pouco discutida: a expectativa de que todos estejam felizes durante as festividades. Quando familiares insistem para que o enlutado participe das comemorações, esconda sua tristeza ou demonstre entusiasmo, podem transformar uma ocasião já emocionalmente exigente em uma experiência de inadequação e culpa. Algumas pessoas passam a silenciar o próprio sofrimento para não constranger os demais.


O acolhimento começa justamente quando abandonamos a necessidade de corrigir a emoção do outro. Em vez de dizer “Não chore, hoje é dia de alegria”, podemos reconhecer: “Imagino que esta data desperte muitas lembranças. Se quiser falar sobre elas, estou aqui.” Em vez de exigir participação, podemos perguntar como aquela pessoa gostaria de viver a celebração, respeitando inclusive seu desejo de não participar. Isso não significa ignorar situações em que o sofrimento se torna persistente, intenso e compromete significativamente a vida cotidiana. Nesses casos, uma avaliação profissional pode ser importante. Entretanto, a sensibilidade diante de uma data significativa, isoladamente, não caracteriza uma complicação do luto.


Talvez um dos maiores erros que cometemos seja avaliar a elaboração de uma perda pela quantidade de vezes que alguém chora. O processo de adaptação não deve ser medido pela ausência de tristeza, mas pela possibilidade de continuar vivendo e construindo significados, mesmo reconhecendo que determinados vínculos permanecerão emocionalmente importantes.


Uma pessoa pode ter reconstruído sua vida sem ter deixado de sentir a ausência de quem amou. E compreender essa diferença é fundamental para que o final do ano seja um período de convivência mais respeitosa, no qual ninguém precise esconder a própria saudade para corresponder às expectativas de felicidade dos outros.


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